Maurício Juvenal
31/05/2026 - domingo às 00h01
Por trás dos números consolidados, da pesquisa do Instituto Badra, das nove cidades da Baixada Santista existe uma realidade mais complexa do que a simples predominância da direita. Embora 34% dos entrevistados se identifiquem com esse campo ideológico, o levantamento mostra que a região está longe de apresentar um comportamento político homogêneo.
A primeira conclusão é pra lá de evidente e esperada a olho nu: a direita tornou-se a principal identidade política da Baixada Santista. Ela lidera isoladamente o ranking regional e aparece à frente da esquerda e do centro em todos os municípios pesquisados. Em cidades como Bertioga, Santos e São Vicente, a identificação com a direita supera com folga a marca dos 35%, demonstrando uma consolidação de valores políticos mais associados ao conservadorismo, à segurança pública, ao empreendedorismo e à rejeição de pautas tradicionalmente vinculadas à esquerda.
Entretanto, a segunda conclusão talvez seja ainda mais importante. O segundo maior grupo político da região não é a esquerda e nem o centro. É formado pelos eleitores que afirmam não possuir ideologia predominante. São quase 26% dos entrevistados, um contingente que se aproxima do tamanho do próprio eleitorado de direita.
Esse dado sugere uma transformação silenciosa do comportamento eleitoral. Uma parcela crescente da população não se reconhece nas categorias ideológicas tradicionais e tende a fazer escolhas mais pragmáticas, avaliando governos, lideranças e resultados concretos antes de aderir a um campo político específico.
A geografia política da Baixada talvez também ajude a compreender o fenômeno.
No eixo formado por Santos, São Vicente e Praia Grande, observa-se um eleitorado mais claramente identificado com a direita. Santos apresenta o maior percentual de eleitores de direita entre as grandes cidades da região, enquanto São Vicente e Praia Grande acompanham essa tendência. Trata-se de municípios com forte dinâmica econômica, maior urbanização e intensa exposição ao debate político nacional, fatores que ajudam a explicar uma definição ideológica mais consolidada.
Já no Litoral Sul, especialmente em Itanhaém, Mongaguá e Peruíbe, surge um cenário diferente. Embora a direita também lidere, cresce significativamente o número de pessoas que rejeitam qualquer classificação ideológica. Em Itanhaém, por exemplo, mais de um terço dos entrevistados afirma não possuir ideologia predominante. O fenômeno sugere um eleitorado mais influenciado por lideranças locais, pela avaliação dos governos municipais e por demandas práticas do cotidiano do que por disputas ideológicas nacionais.
Cubatão ocupa uma posição singular dentro da Baixada Santista. Historicamente associada ao movimento sindical e às organizações de trabalhadores ligadas ao polo industrial, a cidade continua sendo o município em que a esquerda apresenta desempenho mais competitivo em relação à direita. Ainda assim, mesmo ali o campo conservador mantém vantagem numérica, evidenciando que as transformações observadas no eleitorado brasileiro nos últimos anos também alcançaram o principal reduto operário da região.
O Guarujá, por sua vez, aparece como um retrato intermediário. A cidade combina presença relevante da direita, percentual expressivo de eleitores sem identidade ideológica definida e um desempenho da esquerda próximo à média regional. O resultado indica um eleitorado mais fragmentado e menos previsível do que o observado em cidades como Santos ou Bertioga.
Outro aspecto relevante é a fragilidade do centro político. Apenas 16,3% dos entrevistados se identificam como eleitores de centro. Historicamente, o centro costumava funcionar como espaço de convergência dos moderados e dos eleitores independentes. Hoje, entretanto, parte desse eleitorado parece migrar para o grupo dos que afirmam não possuir ideologia predominante, reduzindo o peso das classificações tradicionais.
O retrato que emerge da pesquisa é o de uma Baixada Santista predominantemente inclinada à direita, mas marcada por um elevado contingente de eleitores independentes. Isso significa que, embora exista uma direção ideológica clara na região, os resultados eleitorais continuam fortemente dependentes da avaliação de governos, da credibilidade das lideranças locais e da capacidade dos candidatos de dialogar com um grande grupo de cidadãos que não se vê representado por nenhum rótulo político. E está aí a palavrinha mágica para a próxima eleição: representação. Quem convencer o eleitor de que pode cumprir bem esse papel, certamente sairá vitorioso das urnas.
Em outras palavras, a Baixada Santista de 2026 não é apenas uma região mais à direita. É também uma região cada vez mais pragmática.

Maurício Juvenal é jornalista, mestre em Letras e mestrando em Ciências Políticas e Relações Internacionais pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), de Brasília
Deixe a sua opinião
ver todos