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Carlos Drummond de Andrade moldou a poesia brasileira e transformou o cotidiano em arte

Poeta mineiro trouxe para o país um novo olhar sobre o indivíduo, a modernidade e a simplicidade da vida comum

Robson de Castro

31/10/2025 - sexta às 20h00

Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira, Minas Gerais, em 31 de outubro de 1902, e morreu no Rio de Janeiro em 17 de agosto de 1987. Formado em Farmácia, mas apaixonado pelas palavras, trabalhou como servidor público e escritor. Sua trajetória fez dele o maior poeta brasileiro do século XX e uma das vozes mais autênticas do modernismo.


Embora não tenha participado diretamente da Semana de Arte Moderna de 1922, Drummond foi um de seus herdeiros mais importantes. A Semana, realizada em São Paulo, rompeu com o estilo formal e inaugurou um período de liberdade estética que influenciou toda uma geração. Drummond pertenceu à chamada “Geração de 30”, que consolidou o modernismo no Brasil com uma linguagem mais simples, coloquial e introspectiva. Seu livro de estreia, “Alguma Poesia”, publicado em 1930, representou essa nova fase com humor, ironia e uma sensibilidade urbana inédita na literatura nacional.


Drummond passou boa parte da vida no Rio de Janeiro, onde conciliou o trabalho público — foi chefe de gabinete do ministro Gustavo Capanema e funcionário da Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional — com uma produção literária intensa. Apesar de sua convivência com intelectuais paulistas, não há registros de ligação direta com o litoral paulista.


Entre suas obras mais significativas estão “Alguma Poesia” (1930), “Sentimento do Mundo” (1940), “A Rosa do Povo” (1945), “Claro Enigma” (1951) e a trilogia “Boitempo”, iniciada em 1968. Esses títulos mostram a evolução de um autor que soube unir o individual e o coletivo, a ironia e o lirismo, o cotidiano e a filosofia.


Sua influência atravessou gerações e foi reconhecida por muitos contemporâneos. João Cabral de Melo Neto afirmou que “foi a dicção áspera de Drummond que me mostrou que a poesia podia ser limpa, seca, sem aquela oratória que tanto me irritava”. Manuel Bandeira, companheiro de geração, dizia que “Drummond é um poeta de inteligência aguda e coração contido. Sua poesia é uma lição de sobriedade”. Já Ferreira Gullar recordava o primeiro impacto ao ler o mineiro: “Quando li Drummond pela primeira vez, senti que a poesia brasileira tinha finalmente se tornado moderna. Ele nos deu coragem para falar de nós mesmos, sem máscara”.


Rachel de Queiroz, por sua vez, escreveu em uma crônica de homenagem: “Os quarenta anos de poesia de Drummond se passam não em silêncio, mas em mistério. Um mistério que envolve o Brasil inteiro”. O crítico Antonio Candido também destacou sua importância histórica: “Drummond foi a consciência mais lúcida da nossa literatura. Nenhum outro poeta compreendeu tão bem o drama do homem comum diante da modernidade”.


Drummond foi conhecido por seu humor discreto e por uma ironia fina. Foi expulso do Colégio Anchieta, em Nova Friburgo, por “insubordinação mental”, fato que antecipava o espírito crítico que marcaria toda a sua vida. Apesar da timidez, tinha um olhar generoso e humano sobre as pessoas. Em suas crônicas no “Jornal do Brasil”, captava as minúcias do cotidiano carioca com o mesmo encanto que via nas montanhas de Itabira.


Muitos de seus versos tornaram-se parte da fala popular. “No meio do caminho tinha uma pedra” virou expressão nacional e símbolo de persistência. “Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade” segue como uma das frases mais lembradas da literatura brasileira.


Homenageado em vida e após a morte, Drummond teve seu rosto estampado em uma nota de cinquenta cruzeiros novos e em estátuas no Rio de Janeiro e em Itabira. Sua obra segue sendo publicada, estudada e recitada em escolas, universidades e saraus.


Carlos Drummond de Andrade permanece como um dos grandes intérpretes da alma brasileira. Sua poesia, feita de simplicidade e profundidade, de humor e reflexão, transformou o modo como o país lê, sente e fala. Ler Drummond é reencontrar o Brasil — com suas contradições, ternura e humanidade.
 

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