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Entrevista de Domingo

"Não existe mais segurança em São Paulo e o governo prioriza o marketing"

Presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia de São Paulo, Raquel Kobashi Gallinati denuncia a falta de investimento na Polícia Civil

Por Adriana Martins - Redação BS9

10/10/2021 - domingo às 07h00

Raquel Gallinati também é diretora nacional da Associação dos Delegados de Polícia do Brasil - (foto: Larissa Marchini/divulgação)

Raquel Kobashi Gallinati nasceu em Niterói (RJ), mas veio para Santos aos 2 anos de idade, em razão da transferência do pai, que era da Marinha Mercante. A família vive até hoje na cidade.

Aos 18, foi cursar Direito na Universidade Mackenzie, em São Paulo. Chegou a atuar como advogada, mas manteve foco nos estudos para o concurso de delegada. Passou em 2012. Atuou em regiões periféricas da Capital, como Ponte Rasa, Vila Maria e Lajeado, além da Vila Clementino. Até que encarou as eleições para o Sindicato dos Delegados de Polícia de São Paulo em 2016 e venceu.

Hoje, aos 45 anos, está no segundo mandato como presidente, que termina em 2022. Neste ano, também foi nomeada diretora nacional da Adepol do Brasil, a Associação dos Delegados de Polícia do Brasil. Voz não somente das mulheres – 17% de todo o efetivo – dentro do sindicato, Raquel é uma crítica ferrenha do governador João Doria (PSDB). “Ele tem uma política de segurança muito marqueteira, populista e sem efetividade”. Diz que faltam policiais nas ruas – o déficit é de 15 mil -, equipamentos, prédios com condições mínimas para abrigar delegacias, salários justos. Além disso, aponta a falta de investimentos na Polícia Civil como uma das causas do aumento da criminalidade, que tanto preocupa e apavora a sociedade.

Para ela, os dois casos recentes de latrocínio em Itanhaém em uma semana reforçam o descaso do governo do Estado no combate à criminalidade.

Nesta entrevista, concedida em visita de Raquel Gallinati à redação do Portal BS9, ela também fala sobre outro combate necessário: ao machismo, que enfrentou assim que assumiu o comando do sindicato – a primeira mulher a ocupar esse posto. 
 
1- Quando a senhora assumiu como delegada, em 2012, quais eram os desafios na época para uma mulher? E mudou o cenário hoje?
Quando assumi como delegada de polícia eu via mais os problemas e as mazelas estruturais da polícia. O machismo, esse problema estrutural, ainda mais em um ambiente predominado por homens, eu só fui perceber mesmo quando assumi como presidente do sindicato. Como delegada atuando na ponta, na periferia, sem interferência em gestão, eu não percebi nada. Até porque está na estrutura hierárquica que o delegado comanda a equipe. Fui notar o preconceito a partir do momento em que estava representando todos os delegados de polícia. Aí me vi questionada, sabatinada, tinha minhas posições colocadas em xeque o tempo todo. Duvidada e subestimada. Era como se eu tivesse que passar por uma sabatina oral de cinco em cinco minutos para ser merecedora de estar ali representando os delegados. Inclusive por delegadas também, porque muitas vezes o machismo vem da própria mulher, que menospreza, subestima, espera o erro da outra. Qualquer erro que eu tivesse seria extremamente ampliado, superlativo, perto dos erros de outras pessoas ou outros homens. 

"Muitas vezes, sentia aquela síndrome de impostora, pensava 'será que realmente não tenho competência ou capacidade para estar aqui?' Tudo por estar sofrendo esse processo psicológico que só a vítima percebe" 
 
2- Mesmo na rua, no atendimento à população, não enfrentou o machismo como delegada?
Nada, nada. Talvez também porque tive uma experiência muito próxima com delegacias periféricas, em locais onde as pessoas sentem a ausência do poder público auxiliando. Então, o único local aberto 24 horas é a delegacia. Ao contrário, nesses locais, você é extremamente respeitada pela população - que está carente de tudo - como autoridade, como representante do Estado, inclusive para orientar. Não é só uma situação de recriminar, prender, reprimir as pessoas. É um trabalho que eu costumo dizer que é muito de assistência social. Em três anos, não vi uma resistência por parte da população – homens ou mulheres. Agora, quando assumi o sindicato, logo nos primeiros meses, percebi o machismo latente dos meus pares, o gaslighting (distorção das informações), manterrupting (interrupção de uma mulher por um homem), mansplaining (quando o homem explica coisas óbvias a uma mulher), de cinco em cinco minutos, o tempo todo. E eu não sabia o que significavam essas ações. Tanto que, muitas vezes, sentia aquela síndrome de impostora, pensava “será que realmente não tenho competência ou capacidade para estar aqui?” Tudo por estar sofrendo esse processo psicológico que só a vítima percebe. 
 
3- Quais ações frente ao sindicato que destaca? 
O governador João Doria tem uma política de segurança muito marqueteira, populista e sem efetividade. Então, quando ele percebe que há uma bandeira de delegadas e que há uma necessidade de ter delegacias das mulheres para apaziguar um clamor social, uma injustiça social, que é a violência contra a mulher, ele anuncia que haverá delegadas de mulheres e delegacias 24 horas em todo o Estado. Chegou a baixar uma normativa consultando todas as delegadas do Estado de São Paulo que estavam em departamentos como Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais), Denarc (Departamento de Investigações sobre Narcóticos), Corregedoria, DHPP (Departamento de Homícidios e de Proteção à Pessoa) e Decap (Departamento de Polícia Judiciária), como eu sempre trabalhei, para que atuassem em DDMs (Delegacia de Defesa da Mulher). Para solucionar uma injustiça social contra uma mulher, o Estado queria praticar uma violência institucional de gênero. Isso não pode acontecer. A mulher não pode ser o que ela quiser na Polícia do Estado de São Paulo? Então, nessa luta, acredito que a aceitação por parte das mulheres foi quase de 95%, inclusive das que tinham críticas ferrenhas a mim. E como presidente do Sindicato dos Delegados, eu brigo pela instituição, a gente defende a instituição como um todo.
 
4- Quais as principais necessidades da categoria? 
A gente denuncia muito o déficit de policiais, a questão salarial, já que os piores salários pagos pelo estado mais rico da federação são os de policiais civis, a falta de estrutura para que a polícia possa exercer uma atividade de excelência, um serviço público de excelência, com prédios desmoronando e caindo aos pedaços. O Palácio da Polícia, que foi interditado não sei quantas vezes aqui em Santos, é um exemplo. São situações que mostram também como a população é tratada com descaso. Hoje a gente vê que a insegurança está presente no estado inteiro. Em Itanhaém, no último dia 2, uma moça foi morta. Não existe mais segurança e o governo não prioriza a segurança da população. Ele prioriza falácias e marketing. Se quisesse priorizar a segurança da população, reestruturaria a polícia civil, que pode proteger a população antes do primeiro tiro até, porque a gente tem um trabalho de inteligência, de proteção e de investigação. Agora, com uma polícia desestruturada, com um déficit recorde de 15 mil policiais, a gente não tem como conseguir contingenciar essa demanda de crime.
 
5- A senhora citou a morte de Alessandra Tomie em Itanhaém, que não foi um caso isolado. Uma semana antes, uma adolescente e um homem foram assassinados na cidade. E, além de Itanhaém, Peruíbe e Mongaguá estão nas primeiras posições do ranking do instituto Sou da Paz das cidades que têm um altíssimo índice de crimes violentos. Como mudar essa realidade?
Acredito que um governo comprometido com o combate à corrupção e ao crime vai estruturar as instituições que têm a atribuição legal e constitucional de combater o crime. Já quando você quer sufocar uma instituição e as investigações, você de forma indireta o faz a partir do momento que não amplia o efetivo policial, não investe em armamento, em tecnologia de inteligência de ponta e até mesmo em prédios, viaturas e coletes balísticos. Sem isso, você vai matando essa instituição, que não consegue mais proteger a sociedade. De forma direta e mais superficial, isso resulta na fala da população: “Ah, a polícia é uma porcaria, não serve pra nada”. Só que se você tiver um olhar não tão profundo, mas um pouquinho além, vai ver que a polícia não é dotada de autonomia institucional. 
 
6- O que isso significa na prática? 

Apesar de ser uma polícia de Estado, ela fica subjugada ao Poder Executivo. Então, o que deveria ser uma obrigação – investir na polícia – vira política, escolha de projetos políticos. Por exemplo, quando a gente fala em saneamento básico e esgoto, volta e meia as cidades transbordam porque a gente sabe que o saneamento básico é completamente sucateado. Mas é algo que ninguém vê, só se enxerga quando há uma catástrofe, quando as pessoas morrem, quando aquilo transborda. Diferentemente de construções de pontes e estradas, que todo mundo vê. É a mesma coisa que acontece com o policiamento ostensivo, que é priorizado em detrimento da polícia de investigação, que é a judiciária. Está errado investir em policiamento ostensivo? Não. Como não está errado investir em pontes. Mas tem que se investir também naquilo que a população não enxerga, que, na área de Segurança é a polícia à paisana, investigativa, a polícia de inteligência. Mas só se enxerga a viatura caracterizada, um PM com uniforme. E quando você não investe nessa polícia de investigação, que as pessoas não veem, não tem como combater o crime. Aliás, o crime ganha ponto.
 
7- Então essa falta de investimento é uma das causas da impunidade? 
A principal. A população percebe o combate à criminalidade quando há a certeza do castigo. E isso acontece quando se estrutura a porta de entrada do sistema de justiça criminal, que é a polícia. Se a polícia não dá conta, ela desestrutura todo o processo, todo o sistema, ou seja, o Ministério Público, o Poder Judiciário, que também está caótico, supermoroso nas suas decisões, liminares. A polícia investiga todos os crimes, independentemente de qual crime seja, independentemente de quem cometa. Então, um governo probo, íntegro e comprometido no combate ao crime e à corrupção vai deixar forte essa polícia. Agora um governo que não está comprometido, ele não tem interesse em estruturar uma polícia que pode investigar todos os crimes, independentemente de quem o esteja cometendo. Agora imagina ter uma polícia sem autonomia, que fica atrelada ao executivo, aos plantonistas temporários do governo? Troca governo, trocam-se direção da polícia, interesses políticos e investigações. A gente viu isso recentemente no Governo Federal o quanto mexeram na Superintendência da Polícia Federal.

"Quando você deixa a sua polícia desestruturada, ultrapassa a esfera da culpa, não é mais negligência, não é mais imprudência, é intenção"

8- E enquanto isso presenciamos crimes cada vez mais bárbaros.
Os criminosos estão realmente mais perversos. Vimos recentemente em Araçatuba, no interior de São Paulo, bandidos aterrorizando a população, usando drones, explosivos acionados à distância, com armamento cada vez mais sofisticado, de guerra, tudo que a polícia não tem. Agora, se isso não é dolo do governo, o que é? Já saiu do limite do irresponsável, do desleixo, do deboche com a população. Isso é dolo, é intencional. Quando você deixa a sua polícia desestruturada, ultrapassa a esfera da culpa, não é mais negligência, não é mais imprudência, é intenção.
 

9- A senhora tem pretensão de concorrer a algum cargo político?
Por enquanto não, não sou nem filiada a um partido político. O que acredito é que, quando a gente fala de segurança pública, a gente não fala exclusivamente da polícia. A polícia é a vítima secundária. Quando a gente fala de segurança pública, a gente fala da população. Política de segurança pública é um direito social, assim como saúde e educação. Então, as pessoas comprometidas realmente com o estado, com o povo, deveriam ter esse comprometimento também com a segurança. Muitos foram eleitos com essa bandeira. E os representantes no âmbito legislativo poderiam, sim, exercer um poder de fiscalização mais aprofundado.

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