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São Paulo nunca é apenas São Paulo!

Maurício Juvenal

04/06/2026 - quinta às 17h31

Maior colégio eleitoral do País, responsável por mais de um quinto do eleitorado brasileiro, o Estado costuma antecipar tendências nacionais, consolidar lideranças e, não raramente, definir os contornos do debate político brasileiro.

 

Não por acaso, a mais recente pesquisa realizada pelo Instituto Badra revela muito mais do que simples intenções de voto. Ela captura um momento de transição, de reacomodação de forças e de redefinição das narrativas que deverão conduzir a disputa eleitoral de outubro.

 

Como toda pesquisa eleitoral, o levantamento representa uma fotografia do momento. Mas algumas fotografias registram momentos comuns; outras capturam instantes de inflexão. Os números encontrados em São Paulo parecem pertencer à segunda categoria.

 

Na corrida pelo Palácio dos Bandeirantes, Tarcísio de Freitas mantém a liderança. Com 36,7% das intenções de voto no cenário estimulado, o governador conserva posição privilegiada na disputa. Entretanto, a vantagem de 7,7 pontos sobre Fernando Haddad, que registra 29,0%, está longe de representar uma situação de conforto eleitoral.

 

A principal leitura dos números não está na liderança de Tarcísio, mas na redução do espaço que separa governo e oposição. A distância entre ambos já não traduz a ampla superioridade observada em outros momentos da trajetória recente da direita paulista. Ao contrário, sugere uma disputa competitiva, aberta e sujeita a fortes oscilações nos próximos meses.

 

O ambiente político ajuda a explicar esse movimento.

 

Nos últimos meses, uma sucessão de acontecimentos retirou do governo estadual parte da capacidade de controlar a agenda pública. A privatização da Sabesp, inicialmente apresentada como símbolo da modernização administrativa, passou a conviver com reclamações sobre qualidade dos serviços e aumentou o espaço para críticas da oposição. Paralelamente, episódios envolvendo a atuação policial ampliaram o debate sobre segurança pública e proporcionalidade do uso da força, tema historicamente sensível para o eleitor paulista.

 

A isso soma-se a repercussão política do caso envolvendo o Banco Master, Daniel Vorcaro e setores do bolsonarismo nacional, particularmente Flávio Bolsonaro. Ainda que os impactos eleitorais sejam difíceis de mensurar isoladamente, o episódio produz desgaste sobre um campo político que, até recentemente, conseguia pautar o debate quase exclusivamente a partir de temas econômicos e de segurança.

 

Também merece atenção o reposicionamento internacional provocado pelo novo tarifaço anunciado por Donald Trump. A proximidade política e ideológica frequentemente demonstrada por lideranças da direita brasileira em relação ao ex-presidente norte-americano acaba incorporando ao debate local discussões que transcendem as fronteiras do Estado e afetam diretamente setores produtivos paulistas.

 

Nenhum desses fatores, isoladamente, explica o atual cenário. Em conjunto, porém, ajudam a compreender por que a vantagem governista se mostra hoje menos robusta do que aparentava há poucos meses.

 

Do outro lado da disputa, a esquerda encontra razões para comemorar, mas também obstáculos importantes.

 

O principal ativo eleitoral continua sendo Lula.

 

A pesquisa revela o petista abrindo vantagem próxima de dez pontos em São Paulo. Trata-se de um dado politicamente relevante porque o Estado, historicamente, nunca foi terreno simples para o lulismo. Quando Lula cresce em São Paulo, cresce também a capacidade de transferência de votos para candidaturas associadas ao seu campo político.

 

Nesse contexto, Fernando Haddad surge como beneficiário direto desse movimento. Sua aproximação em relação a Tarcísio parece decorrer não apenas de méritos próprios ou dificuldades do adversário, mas também do fortalecimento do ambiente nacional favorável ao governo federal entre parcelas importantes do eleitorado.

 

Contudo, seria precipitado concluir que o caminho está livre para a oposição.

 

A indefinição em torno da composição da chapa majoritária ainda representa um desafio para o PT. Além disso, o Governo Federal continua convivendo com um problema estrutural que aparece de forma recorrente nas pesquisas qualitativas realizadas em todo o País: o elevado nível de endividamento das famílias brasileiras. Em política, percepção econômica frequentemente vale mais do que indicadores macroeconômicos. E parte significativa do eleitorado ainda associa dificuldades financeiras ao Governo Federal.

 

É justamente por isso que o cenário paulista permanece aberto.

 

Tarcísio lidera, mas já não lidera sozinho o debate público. Haddad cresce, mas ainda precisa converter ambiente favorável em consolidação eleitoral. O governador conserva musculatura administrativa, visibilidade institucional e estrutura política. O adversário dispõe da força eleitoral de Lula e de um contexto que, neste momento, parece mais favorável à oposição do que ao governo.

 

A disputa para o Senado reforça a percepção de fragmentação.

 

Os diferentes cenários testados revelam um quadro extremamente embolado, sem hegemonias estabelecidas e com elevado potencial de movimentação ao longo da campanha. Marcio França aparece em posição de destaque em alguns cenários, mas divide espaço com nomes competitivos como Guilherme Derrite, Simone Tebet e André do Prado.

 

O quadro sugere que a corrida pelas duas vagas senatoriais permanece em estágio de formação, sem candidaturas capazes de monopolizar preferências ou construir favoritismo definitivo.

 

Nas disputas proporcionais, o comportamento do eleitorado reproduz fenômeno semelhante.

 

Celso Russomanno segue demonstrando força de lembrança e capacidade de mobilização eleitoral para a Câmara Federal. Ao mesmo tempo, nomes como Ana Carolina Oliveira e Tabata Amaral ocupam espaços relevantes em segmentos distintos do eleitorado. Chama atenção ainda a presença de José Luiz Datena entre os mais lembrados, demonstrando que notoriedade pública continua sendo ativo importante em eleições proporcionais.

 

Para a Assembleia Legislativa, o destaque de Caio França evidencia o potencial eleitoral de pautas emergentes, especialmente aquelas relacionadas à Cannabis Medicinal, tema que vem ampliando seu alcance para além dos nichos tradicionalmente envolvidos no debate. Ana Carolina Serra e Bruna Furlan também aparecem posicionadas de forma competitiva, indicando uma disputa estadual bastante pulverizada.

 

A quatro meses da eleição, portanto, a principal conclusão não é quem está ganhando.

 

A principal conclusão é que São Paulo voltou a ter disputa.

 

O governador segue na dianteira, mas já não desfruta da ampla tranquilidade que costuma acompanhar candidatos à reeleição. A oposição encontrou espaço para crescer e demonstra capacidade de transformar acontecimentos recentes em narrativa política. Enquanto isso, a definição do Senado permanece aberta e as eleições proporcionais seguem altamente fragmentadas.

 

Na política, existe uma máxima antiga segundo a qual eleição não se vence na largada, mas pode começar a ser perdida nela.

 

Os números encontrados pelo Instituto Badra indicam que ninguém perdeu a eleição paulista. Mas também revelam que ninguém, absolutamente ninguém, pode considerá-la ganha.

 

*Maurício Juvenal é jornalista, mestre em Letras, mestrando em Ciências Políticas e Relações Internacionais pelo IDP – Brasília e consultor em análise de dados do Instituto Badra

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