Felipe Sampaio
28/05/2026 - quinta às 13h06
A preocupação do Vaticano não é satanizar a IA. Tudo depende das decisões e propósitos dos donos das IAs
Os Engenheiros do Hawaii tinham razão: “o Papa é pop”. Como bom conterrâneo das big techs, o Santo Padre anunciou sua Encíclica no melhor estilo geração Z. Usou tecnologia de ponta para ler a “Magnifica Humanitas” na TV e nas redes sociais, e aproveitou o embalo para prevenir ao vivo seu um bilhão e meio de seguidores sobre o Armagedom digital.
Ao mesmo tempo, Sua Santidade teve o cuidado de lembrar que esse papo de conspiração das máquinas só engaja em Hollywood. Conhecedor tanto das Escrituras como do Vale do Silício, optou por não julgar a Inteligência Artificial como cavaleiro do apocalipse. Afinal, a IA não é portadora de livre arbítrio que possa selar o futuro da humanidade. Em Roma, o alto clero prefere concordar com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Relatório PNUD 2025, “Pessoas e Possibilidades na Era da IA”).
Na vida real, quem conspira contra a humanidade somos nós mesmos, os humanos. Sabendo disso, o Papa e o PNUD concordam que os impactos produzidos pela IA dependem das escolhas feitas pelas pessoas que projetam e controlam seus algoritmos. Informação é como culinária – quanto melhores os ingredientes, melhor o pudim. Acontece que a IA tem um potencial disruptivo semelhante ao de outras invenções que transformaram a sociedade para sempre, seja a roda ou a fissão nuclear. Por isso, causa tanta insegurança e fantasias.
Sejamos francos, a preocupação do Vaticano, assim como a da ONU, não é satanizar a IA, mas, sim, mostrar que a Inteligência Artificial é um acelerador tão poderoso da produção científica que, mesmo podendo aprofundar algumas crises da humanidade (desigualdade, conflitos e mudança climática), pode servir para a eliminação ou a contenção desses mesmos descaminhos históricos crescentes. Tudo depende das decisões e propósitos dos donos das IAs.
O Relatório PNUD 2025 propõe um foco nas pessoas: “São as pessoas, não as máquinas, que determinam quais tecnologias prosperam e a quem elas servirão”. Na mesma linha, a Encíclica Magnifica Humanitas recomenda “Sejamos humanos”. Ou seja, é possível considerar que a Inteligência Artificial pode potencializar as capacidades criativas das pessoas, bem como facilitar atividades e aumentar a produtividade do trabalho. Até mesmo criar novas modalidades de empregos ou negócios, sem necessariamente provocar desemprego estrutural em larga escala. O uso positivo da IA para o bem-estar social pode se estender também para a formulação, a implantação e gestão de políticas públicas, melhorando seus resultados e transparência.
Por um lado, a publicação do PNUD/ONU exemplifica a concentração de qualificação e acesso à IA: “As respostas do ChatGPT estão mais próximas culturalmente dos países com IDH muito alto do que das pessoas de países com IDH baixo”. Enquanto isso, nas suas redes digitais a Igreja complementa que “é no coração deste território, marcado pelo lucro, competição geopolítica e ambição, que se sente a necessidade de uma voz capaz de resistir, de proferir palavras incômodas, de recordar aquilo que as máquinas jamais possuirão: consciência e senso moral”.
A ONU recomenda ainda que se invista em uma “inovação com propósito”, fortalecendo as capacidades humanas que fazem a diferença, para que a IA cumpra seu papel de catalizadora do bem estar social. Por sua vez, Leão XIV sabe que ser robô não é pecado.

Felipe Sampaio: Cofundador do think tank Centro Soberania e Clima; com atuação em grandes empresas, organismos internacionais e terceiro setor; foi empreendedor em mineração; dirigiu o Instituto de Estudos de Defesa no Ministério da Defesa; chefiou a área de estatísticas no Ministério da Justiça; foi secretário-executivo de Segurança Urbana do Recife; é diretor de programas no Ministério do Empreendedorismo.
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