Felipe Sampaio
14/05/2026 - quinta às 10h54
A cultura empreendedora foi vetor de desenvolvimento na Europa, nos EUA e em outros países. Não falo de bicos informais
Fica a dica para os candidatos em ano de eleição estadual e federal. Abrir um pequeno negócio não deve ser tratado como o “tiro na macaca” para quem está desempregado. Não é o plano B. O empreendedorismo é um ativo estratégico para qualquer economia. Mesmo em um país que alcançou índices recordes próximos do pleno emprego. Se é um bom momento para investir na produtividade da mão de obra empregada, melhor ainda para impulsionar o empreendedor.
O empreendedorismo saiu do armário nos anos 1980 com o livro “Entrepreneuring”, do Brant Steven, que definia empreendedor como um pioneiro corajoso, próspero, disposto a ofertar algo diferente com qualidade. Trazia no DNA a inovação em sentido amplo, não apenas tecnológica. Cabia aí desde a costureira do bairro até a Apple (que começou na garagem). Pouco tempo depois, o premonitório “Paradoxo Global”, do Jonh Naisbitt, reforçaria que, quanto maior a econômica mundial se tornar, mais importantes serão seus pequenos componentes, sejam eles territórios, empresas ou indivíduos.
Trabalhando na Brahma (AMBEV) nos anos 1990, notei que empreendedorismo é um mindset – tem a ver com formação cultural – que serve também para projetos internos em grandes empresas. Minha percepção seria confirmada na época pelo disruptivo “Intrapreneuring”, de Gifford Pinchot: “Você não precisa deixar o seu cargo em uma grande empresa para agir como um empreendedor”. Quando saí da eletrizante cervejaria para o Ministério da Reforma Agrária na gestão FHC (primeira vez que trabalhei em governos), me perguntei se a tese de Pinchot caberia em um órgão público.
O Ministro Raul me chamara para criar uma marca para os produtos dos assentamentos. A ideia, inovadora por si, já mostrava que sim, o gestor público deve (até mais do que o privado) adotar uma atitude empreendedora. E foi o que ocorreu quando propus à presidente da APEX, Dorothéa Werneck, um programa de promoção de exportações da agricultura familiar. Rapidamente implementamos o projeto em parceria com ongs e feiras europeias. Mais tarde, no governo Eduardo Campos, em Pernambuco, participei de outro caso de Estado empreendedor, apoiando pequenos negócios inovadores na Zona da Mata.
A cultura empreendedora foi vetor de desenvolvimento na Europa, nos EUA e em outros países bem sucedidos. Não falo de bicos informais. Tampouco dos casos de empresas que ‘pejotizam’ seus postos de trabalho. Para que o empreendedorismo realize plenamente seu potencial na economia e na sociedade, é preciso que haja criação de valor, pensar grande, arriscar com lucidez. O empreendedorismo não pode ser visto como o lugar provisório de quem não deu certo como empregado. Deve ser uma opção viável e não uma falta de opção. Isso só é possível se o empreendedor for valorizado pelo Estado. Mais importante ainda é que governos, legisladores, bancos de desenvolvimento e academia também atuem, eles próprios, com disposição empreendedora, com foco no resultado, abertos à convivência com hubs de inovação, para implementarem juntos políticas dinamizadoras com base em evidências, proporcionando aos pequenos negócios o ambiente e o caminho para a maturidade.
Só assim a política pública poderá acompanhar a agilidade do mundo real, interpretar cenários, oferecer o apoio adequado para que o empreendedorismo vença receios e preconceitos, e se estabeleça como projeto de renda e de vida para as pessoas, bem como vetor de redução de desigualdades, e ativo estratégico para o desenvolvimento competitivo, resiliente e sustentável.

Felipe Sampaio: Cofundador do think tank Centro Soberania e Clima; com atuação em grandes empresas, organismos internacionais e terceiro setor; foi empreendedor em mineração; chefiou a assessoria especial do Ministro da Defesa; dirigiu a área de estatísticas no Ministério da Justiça; foi subsecretário de Segurança Urbana do Recife; é diretor de programas no Ministério do Empreendedorismo.
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