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O orçamento de São Paulo e a pequena política

Há Estados que participam da história. Há outros que ajudam a escrevê-la. São Paulo sempre pertenceu ao segundo grupo.

28/07/2026 — terça-feira às 03h44

O orçamento de São Paulo e a pequena política

Divulgação

Foi às margens do Ipiranga que o Brasil proclamou sua Independência. Foi em suas fazendas que o café impulsionou a economia nacional. Foi em suas indústrias que o país experimentou sua modernização produtiva. Foi em suas universidades que parte importante da ciência brasileira encontrou abrigo. Foi em seu parque tecnológico, em seu sistema financeiro, em seu porto, em suas rodovias e em sua capacidade empreendedora que o Brasil aprendeu, muitas vezes, a pensar grande.

 

Talvez por isso determinados acontecimentos recentes provoquem um desconforto que ultrapassa a disputa entre esquerda e direita. Eles suscitam uma pergunta mais profunda: São Paulo continua reconhecendo a si mesmo?

 

A visita do presidente argentino Javier Milei ao Brasil poderia ter sido mais um capítulo da relação entre dois países cuja integração econômica interessa a ambos. Argentina e Brasil são parceiros históricos, compartilham cadeias produtivas, mercados e desafios comuns. Em vez disso, o episódio acabou transformado em um espetáculo de confronto político. Um chefe de Estado estrangeiro utilizou um evento partidário brasileiro para dirigir, entre outros, ataques ao Presidente da República e ao Supremo Tribunal Federal, deslocando o foco da cooperação diplomática para a polarização interna.

 

O desconforto aumentou porque, poucas horas antes, Milei havia recebido a mais alta honraria concedida pelo Estado de São Paulo. Não se discute aqui o direito de governantes cultivarem afinidades políticas. O que merece reflexão é outra questão, ou seja, qual interesse estratégico de São Paulo foi servido por esse gesto? O Estado que concentra o maior parque industrial do país, que responde por parcela expressiva do PIB nacional e que depende intensamente do comércio internacional ganha quando associa sua imagem institucional a episódios dessa natureza? É justamente nesse ponto que a política deixa de ser ideológica para tornar-se estratégica.

 

Ora, há números que servem apenas para preencher planilhas. Outros têm a capacidade de desmontar narrativas inteiras. O orçamento do Estado de São Paulo pertence a essa segunda categoria.

 

Em 2026, o maior estado brasileiro aprovou um orçamento da ordem de R$ 382 bilhões. Um único ente federativo brasileiro administrará, em um ano, recursos que equivalem a aproximadamente três quartos do orçamento nacional de um país como a Argentina, cuja população é praticamente a mesma da paulista e cuja história econômica sempre ocupou, convenhamos, posição de destaque na América Latina.

 

A grande verdade é que ao longo da redemocratização, o eleitor paulista jamais foi facilmente enquadrado por rótulos simplistas. Em diferentes momentos apoiou governos de distintas orientações, mas preservou uma característica relativamente constante: valorizou capacidade administrativa, estabilidade institucional, responsabilidade fiscal, desenvolvimento econômico e segurança jurídica. Em outras palavras, São Paulo nunca foi movido apenas por paixões políticas; sempre foi profundamente influenciado pelo pragmatismo.

 

Essa talvez seja a principal armadilha em que parte da direita brasileira parece ter caído.

 

Durante anos, o maior estado brasileiro construiu sua identidade pública associada à eficiência administrativa, à boa gestão, à previsibilidade econômica e ao ambiente favorável aos negócios. Nos últimos meses, porém, parcela significativa dessa agenda passou a disputar espaço com guerras culturais, confrontos institucionais e simbolismos importados. Não há problema em defender convicções. O problema surge quando elas passam a ocupar o lugar do projeto de governo.

 

Não foram poucos os empresários, investidores e profissionais do setor produtivo, muitos deles distantes do campo progressista, que assistiram aos acontecimentos recentes com evidente desconforto. Não porque tenham mudado de posição ideológica. Mas porque compreenderam algo que os mercados sempre compreenderam, isto é, economias convivem com governos de diferentes orientações. Convivem muito pior, no entanto, com instabilidade institucional, crises diplomáticas desnecessárias e aumento da imprevisibilidade.

 

Enquanto isso, a convenção que oficializou Fernando Haddad como candidato ao Governo de São Paulo procurou transmitir outra mensagem. O discurso de Geraldo Alckmin resgatou uma tradição política paulista fundada na capacidade de diálogo, na construção de consensos e na centralidade do desenvolvimento econômico. Márcio França acrescentou um elemento simbólico ao destacar que a coligação governista apresenta uma composição equilibrada entre homens e mulheres nas disputas majoritárias, procurando comunicar pluralidade em contraste com uma chapa inteiramente masculina apresentada pelo campo adversário.

 

Não é preciso concordar com uma ou outra narrativa para perceber que elas dialogam com eleitores diferentes.

 

A política ensina que campanhas raramente são decididas apenas pela força de suas bases. Elas costumam ser vencidas por quem consegue interpretar o humor da sociedade antes dos demais. Há momentos em que a população deseja ruptura. Há outros em que procura serenidade. Há momentos em que o confronto mobiliza. Há outros em que ele simplesmente cansa. Talvez estejamos entrando em um desses períodos.

 

Durante muito tempo, consolidou-se a impressão de que São Paulo caminhava para uma eleição previsível. Hoje, essa certeza já não parece tão sólida. Não porque qualquer candidatura tenha vitória assegurada. Ainda faltam mais de meses para que os eleitores se manifestem. Mas porque o ambiente político mudou. E a história mostra que, antes de mudar os resultados eleitorais, a política costuma mudar o ambiente em que esses resultados serão produzidos.

 

Na política, há ocasiões em que um projeto vence por seus próprios méritos. Em outras, vence porque o adversário deixa de compreender o país, ou o Estado, que pretende governar.

 

Talvez seja cedo para afirmar qual dessas hipóteses prevalecerá em 2026. Mas uma coisa parece evidente: quando São Paulo começa a deixar de se reconhecer na política que lhe é apresentada, dificilmente permanece indiferente por muito tempo. E, quando São Paulo muda de humor, o Brasil costuma prestar atenção.

 


Maurício Juvenal é jornalista, mestre em Letras e mestrando em Ciência Política e Relações Internacionais pelo IDP de Brasília. Foi secretário estadual de Planejamento e Gestão do Estado de São Paulo

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