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O último mistério

20/07/2026 — segunda-feira às 10h09

O último mistério

O grande mistério da vida

Há perguntas que envelhecem. Outras atravessam os séculos sem perder a força. Mudam as tecnologias, os governos, as religiões e até a forma como nos relacionamos, mas uma delas permanece intacta desde que o ser humano aprendeu a sepultar seus mortos: o que existe depois da morte?

 

Pode parecer curioso que, em uma época marcada pela inteligência artificial, pelas viagens espaciais e por avanços científicos que até pouco tempo pertenciam à ficção, continuemos mobilizados por uma pergunta tão antiga. Mas talvez resida justamente aí uma das características mais permanentes da condição humana. A verdade é que quanto mais avançamos na compreensão do mundo, mais percebemos que algumas respostas permanecem fora do alcance da ciência. E, diante desse vazio, homens e mulheres seguem fazendo aquilo que sempre fizeram, ou seja, constroem significados.

 

Foi exatamente isso que uma pesquisa inédita realizada pelo Instituto Badra procurou compreender ao ouvir 1.060 moradores da cidade de São Paulo. Não para descobrir o que existe depois da morte, tarefa impossível para qualquer instituto de pesquisa, mas para conhecer aquilo em que as pessoas acreditam quando pensam sobre esse mistério.

 

Os resultados surpreendem. Quase nove em cada dez paulistanos afirmam acreditar na existência de Deus. Ainda assim, a maioria declara não acreditar na vida após a morte. Dois terços acreditam em anjos e demônios. Seis em cada dez acreditam em mau-olhado. Um quarto acredita que, depois da morte, nada acontece além da decomposição do corpo. Outro grupo espera o Juízo Final. Há quem acredite na reencarnação. Há quem admita simplesmente não saber.

 

À primeira vista, esses números parecem contraditórios. Mas talvez revelem exatamente o contrário. Eles mostram que as pessoas já não organizam suas convicções obedecendo, necessariamente, aos limites das doutrinas religiosas. Cada indivíduo parece construir, ao longo da vida, uma espécie de mapa pessoal da transcendência, reunindo experiências familiares, tradições religiosas, dúvidas, leituras e vivências. A espiritualidade contemporânea parece menos preocupada em repetir respostas prontas e mais inclinada a formular interpretações próprias.

 

Essa constatação aproxima São Paulo de um fenômeno observado em diferentes partes do mundo. Pesquisas do Pew Research Center, da Gallup e da Ipsos mostram que, embora a participação nas religiões organizadas venha se transformando em muitos países, a busca por significado permanece extraordinariamente viva. De um lado, diminui a filiação automática. Do outro, não desaparece a necessidade de transcendência. Talvez a fé esteja mudando de linguagem, não de importância.

 

É interessante notar que essa mesma sociedade capaz de desenvolver algoritmos sofisticados, decifrar parte do genoma humano e enviar sondas ao espaço continua preservando perguntas que nenhuma tecnologia foi capaz de responder. E talvez nunca seja. Há mistérios que pertencem menos ao campo da comprovação do que ao da experiência humana. Não porque a razão seja insuficiente, mas porque existem dimensões da existência que escapam aos instrumentos tradicionais da ciência.

 

Foi Viktor Frankl quem escreveu que "quem tem um porquê enfrenta quase qualquer como". Talvez seja exatamente isso que as diferentes crenças procuram oferecer. Mais do que explicar a morte, procuram tornar a vida suportável. Afinal, imaginar que existe algo além do último suspiro, ou mesmo admitir honestamente que não sabemos o que existe, são maneiras distintas de lidar com a mesma inquietação.

 

No fundo, talvez a grande descoberta da pesquisa não esteja nos percentuais. Ela está na constatação de que continuamos perguntando. A humanidade jamais deixou de interrogar o desconhecido. E talvez isso aconteça porque essa nunca foi apenas uma pergunta sobre a morte. Sempre foi uma pergunta sobre a vida.

 

Enquanto existirem homens e mulheres tentando compreender quem são, por que estão aqui e qual o sentido da própria existência, a questão permanecerá aberta. E por certa essa é a única resposta da qual realmente dispomos.

 

Maurício Juvenal é jornalista, mestre em Letras, mestrando em Ciência Política e Relações Internacionais, pelo IDP de Brasília, e consultor em análise de dados do Instituto Badra.

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