SAÚDE
Entre diagnósticos, desafios e recomeços, mulheres compartilham experiências com o câncer de mama; em São Paulo, carretas da mamografia ampliam acesso ao exame
DA REDAÇÃO
04/11/2026 — quarta-feira às 09h00
Neste Outubro Rosa, as histórias ajudam a lembrar que o cuidado precisa ser permanente - Divulgação
Em setembro de 2021, a recepcionista Lucimar Santos, conhecida como Lucy, enfrentava um dos períodos mais difíceis de sua vida. Enquanto iniciava o tratamento contra o câncer de mama, acompanhava o agravamento do estado de saúde da mãe. No dia 12 daquele mês, poucos dias depois da primeira sessão de quimioterapia, perdeu a mãe. Dois dias depois, começou a perder os próprios cabelos.
A sequência de acontecimentos poderia ter feito Lucy interromper seus planos e se afastar de tudo. Mas ela decidiu enfrentar o tratamento, que incluiu 16 sessões de quimioterapia, cirurgia e radioterapia, sem abrir mão de viver dentro de suas possibilidades.
"Eu não nasci com esta doença, pretendo não morrer dessa", relembra sobre o que disse ao médico quando recebeu o diagnóstico.
Foi justamente por conhecer o próprio corpo que Lucy percebeu um nódulo na mama e decidiu procurar atendimento. Ex-atleta de ginástica olímpica, sempre teve o hábito de observar as mudanças físicas e acredita que essa atenção faz diferença. Para ela, olhar para si não significa viver preocupada com doenças, mas reconhecer os sinais de que algo pode estar diferente.
"Às vezes, parece que as pessoas têm vergonha de olhar no espelho, de observar o próprio corpo. Mas se tocar é se conhecer. Precisamos perceber quando alguma coisa muda, porque é o nosso corpo que nos mantém de pé", reflete.
Hoje, aos 59 anos, Lucy trabalha, mantém os cuidados com a saúde e continua realizando exames de acompanhamento. Todo o tratamento oncológico foi realizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), experiência que também a fez conhecer direitos e serviços dos quais, até então, pouco sabia.
Neste Outubro Rosa, mês dedicado à conscientização sobre o câncer de mama, relatos de mulheres que enfrentaram a doença ou acompanharam de perto o tratamento de alguém querido reforçam a importância do diagnóstico precoce e do acesso aos serviços de saúde.
Quando o diagnóstico chega cedo
A jornalista Carol Ushirobira tinha apenas 34 anos quando descobriu o câncer de mama, em 2018. Na época, vivia um momento de descobertas pessoais e começava a fazer as pazes com suas próprias escolhas, especialmente em relação à maternidade. A notícia trouxe medo e incertezas, além de despertar uma lembrança dolorosa: a perda da mãe por um câncer de pulmão, quando tinha apenas dez anos.
O caminho teve novos desafios. Em 2022, Carol recebeu outro diagnóstico e precisou passar por uma mastectomia bilateral. Posteriormente, descobriu uma metástase no fígado. O tratamento trouxe mudanças importantes, como a menopausa induzida aos 38 anos, e exigiu adaptações na rotina e na vida profissional.
Com o apoio dos amigos, da família e da terapia, Carol encontrou maneiras de atravessar os momentos difíceis e construir uma nova relação com o próprio corpo. Hoje, segue em tratamento e acompanhamento médico, priorizando a qualidade de vida e o bem-estar emocional. "A minha maior preocupação é a saúde mental", conta. Para ela, aprender a pedir ajuda e receber o carinho das pessoas próximas foi uma das grandes transformações dessa trajetória.
Assim como Carol, a analista de faturamento Laís Gonçalves também descobriu a doença antes dos 40 anos. Aos 35, com um filho de apenas um ano e meio, percebeu um nódulo na mama depois de sentir algo diferente no seio. O diagnóstico foi confirmado em janeiro de 2025, dando início a uma jornada de tratamentos e mudanças inesperadas.
Desde então, Laís passou por cirurgias e enfrentou metástases, além dos efeitos das medicações e das transformações na aparência. A perda dos cabelos foi um dos momentos mais delicados, especialmente pelo impacto na autoestima. Ainda assim, procurou manter sua rotina, o trabalho e as atividades físicas dentro de suas possibilidades.
O filho se tornou uma de suas maiores motivações para continuar. O desejo de acompanhar seu crescimento, participar de suas conquistas e compartilhar os pequenos momentos em família ajuda Laís a enfrentar os dias mais difíceis. Hoje, segue em tratamento, com esperança, planos para o futuro e o apoio das pessoas queridas.
"Aprendi que não precisamos dar conta de tudo sempre e que pedir ajuda não é sinal de fraqueza", afirma Laís, que também passou a valorizar ainda mais o presente e as pequenas alegrias do cotidiano.
As histórias de Carol e Laís mostram que o câncer de mama também atinge mulheres jovens e que, mesmo diante de tratamentos prolongados, a vida continua acontecendo. Entre consultas, exames e adaptações, permanecem os projetos pessoais, os vínculos afetivos e a esperança de boas respostas aos cuidados médicos.
O câncer também transforma a vida de quem está ao lado
Para a publicitária Ana Luiza Batah, o câncer de mama chegou à família há cerca de 15 anos, quando sua mãe recebeu o diagnóstico. Foi o primeiro caso da doença entre os familiares e a notícia trouxe medo e apreensão. Mas, desde o início, a família decidiu enfrentar a situação unida.
A mãe de Ana Luiza passou por sessões diárias de radioterapia, sempre acompanhada pelo marido. Para a filha, assistir a mulher que sempre foi sua referência de força e cuidado enfrentando uma doença tão temida foi marcante.
Hoje, com a mãe recuperada, Ana Luiza guarda não apenas as lembranças dos momentos difíceis, mas também a certeza de que o apoio de quem está por perto faz toda a diferença. "Enfrentar essa doença já é um grande desafio. Ter a família e os amigos por perto, oferecendo carinho e apoio, ajuda a tornar a caminhada mais leve. Ninguém deveria passar por isso sozinha", destaca.
A experiência também mudou sua maneira de olhar para a própria saúde. Depois de acompanhar a mãe e conhecer outras mulheres que enfrentaram o câncer, passou a prestar ainda mais atenção aos sinais do corpo e à importância do acompanhamento médico.
Com a maternidade, essa preocupação ganhou outro significado. Ana Luiza reconhece que, entre trabalho, filhos e responsabilidades, muitas mulheres acabam deixando os próprios cuidados para depois. Para ela, o Outubro Rosa é um lembrete de que a saúde precisa ocupar um lugar de prioridade.
"A gente tem que se cuidar, porque se não formos nós mesmas, quem é que vai cuidar da gente?", questiona.
Informação e acesso ao diagnóstico fazem a diferença
As experiências dessas quatro mulheres reforçam a importância de conhecer o próprio corpo, observar alterações e procurar atendimento médico sempre que notar algo diferente. Embora o risco de câncer de mama aumente com a idade, a doença também pode atingir mulheres mais jovens, como aconteceu com Carol e Laís.
Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar cerca de 78,6 mil novos casos de câncer de mama por ano entre 2026 e 2028. A mamografia é um dos principais instrumentos para identificar alterações precocemente, inclusive antes do aparecimento de sintomas.
Atualmente, o Ministério da Saúde recomenda o rastreamento mamográfico a cada dois anos para mulheres entre 50 e 74 anos. Já qualquer alteração suspeita deve ser investigada, independentemente da idade, conforme avaliação médica.
Para o diagnóstico precoce e a chance de cura, a conscientização precisa vir acompanhada de acesso. Em São Paulo, uma das estratégias para facilitar a realização dos exames são as Carretas de Mamografia do programa Mulheres de Peito, do Governo do Estado, que percorrem municípios paulistas oferecendo atendimento gratuito.
"Quando falamos sobre câncer de mama, estamos falando de mulheres que têm famílias, trabalho, rotinas em que, muitas vezes, acabam deixando a própria saúde para depois. Levar a mamografia a diferentes regiões do estado é uma forma de aproximar esse cuidado das mulheres e ampliar as oportunidades de diagnóstico precoce. Queremos reforçar que a atenção à saúde precisa fazer parte da vida delas durante todo o ano, não apenas em outubro", destaca a secretária de Políticas para a Mulher, Adriana Liporoni.
Somente em 2025, as unidades móveis realizaram 60.831 mamografias em 117 municípios, um crescimento de 76% em relação ao ano anterior. Entre 2023 e 2025, mais de 120 mil mulheres foram atendidas em 253 cidades.
Mulheres entre 50 e 74 anos podem realizar o exame gratuitamente apresentando RG e cartão SUS, sem necessidade de pedido médico. Já aquelas de 35 a 49 anos e acima de 74 anos precisam apresentar solicitação médica, conforme os critérios do programa. O atendimento é realizado por ordem de chegada, sem agendamento prévio, e o itinerário pode ser consultado pelo site SP Por Todas (Link) ou aplicativo do Poupatempo.
Um cuidado que vai além de outubro
Embora tenham vivido experiências diferentes, Lucy, Carol, Laís e Ana Luiza compartilham uma percepção: a saúde não deve ficar em segundo plano. Para quem enfrenta a doença, o cuidado envolve tratamento, acompanhamento médico e apoio emocional. Para quem acompanha alguém em tratamento, significa também oferecer presença, compreensão e carinho.
Neste Outubro Rosa, as histórias ajudam a lembrar que o cuidado precisa ser permanente. Mais do que uma campanha, a conscientização deve se transformar em informação, acesso aos exames e atenção à saúde das mulheres em todas as fases da vida. Afinal, como resume Laís, "prevenir é um gesto de amor".
SP Por Todas
O SP Por Todas é um movimento do Governo de São Paulo que amplia a visibilidade e o acesso às políticas públicas destinadas às mulheres. A iniciativa reúne ações de segurança, proteção, saúde, qualificação profissional e autonomia financeira, além de fortalecer a rede de acolhimento e enfrentamento à violência contra a mulher em todo o Estado. Mais informações: www.spportodas.sp.gov.br
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