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Remake de 'Cor Púrpura' se equilibra entre a graça e a ilusão do musical

A trama segue embalada por músicas que, além daquelas religiosas, passam pelo soul, blues e R&B, cantadas pelo elenco estrelado que tem Fantasia Barrino, Taraji P. Henson, Danielle Brooks, Colman Domingo e Jon Batiste

da Folhapress/Catarina Ferreira

da Folhapress/Catarina Ferreira

07/02/2024 — quarta-feira às 21h01

Remake de 'Cor Púrpura' se equilibra entre a graça e a ilusão do musical

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Este "A Cor Púrpura", que estreia nesta quinta-feira (8) nos cinemas, trata de um tema difícil -a vida de uma mulher negra marcada por episódios duros de machismo e racismo. Mas logo nos primeiros minutos a produção já dá indícios de que a violência não será o centro da trama, mas a amizade entre as protagonistas.

As jovens Celie, papel de Phylicia Mpasi, e Nettie, sua irmã, vivida por Halle Bailey, aparecem cantando, sentadas em um galho, no alto de uma árvore. Em seguida, Nettie guia a irmã, enquanto correm na orla de uma praia. A canção é leve e fala da forte conexão entre elas.

Depois, homens e mulheres, com roupas coloridas, dançam e entoam uma canção gospel, enquanto caminham para a igreja.

A trama segue embalada por músicas que, além daquelas religiosas, passam pelo soul, blues e R&B, cantadas pelo elenco estrelado que tem Fantasia Barrino -como Celie, na fase adulta-, Taraji P. Henson, Danielle Brooks, Colman Domingo e até o vencedor do Grammy Jon Batiste.

Quem dirige o musical é o cineasta ganense Blitz Bazawule, codiretor do álbum visual "Black Is King" (2020), de Beyoncé. Seu desafio agora é trazer uma perspectiva nova para uma história que já foi contada de diferentes formas desde o lançamento do livro homônimo de Alice Walker, há 42 anos. Desde então, o enredo ganhou projeção nos cinemas em 1985, com Steven Spielberg, e foi adaptado para a Broadway em duas ocasiões.

Na sua versão, Bazawule põe em primeiro plano a cumplicidade entre as protagonistas femininas, uma espécie de contraponto à violência e à solidão que marcam a vida das personagens.

A história acompanha o amadurecimento de Celie, de 1909 até o início dos anos 1950. A jovem negra perdeu a mãe ainda criança e vive uma rotina de abusos constantes. Violentada pelo pai, ela engravida duas vezes, e tem seus filhos levados pelo abusador. A menina de poucas palavras e olhos tristes tem na amizade com a irmã, Nettie, sua relação mais valiosa.

Celie é obrigada a casar-se com Mister, personagem de Domingo. Com ele, ela encara uma nova série de violências, entre agressões físicas e sexuais. Além de perder o contato com a irmã, que havia se hospedado com o casal para fugir dos abusos do pai.

Outras duas mulheres entram em cena na vida da protagonista, a cantora Shug Avery, personagem de Henson, e a destemida Sofia, vivida por Brooks, esposa de um dos filhos de Mister. Shug é amante e a paixão declarada de Mister, e se envolve também com Celie.

A conexão entre o trio se torna um pilar importante para o desenvolvimento da personagem de Fantasia. As músicas acompanham a evolução da protagonista, tornando-se mais alegres e com voz mais marcante a cada passo dado por ela, como ao deixar para trás o marido violento.

A cantora de R&B já havia interpretado Celie, em uma das duas adaptações da história para o teatro.

Spielberg, diretor da primeira versão do filme, faz parte da equipe de produção do remake, junto da atriz e apresentadora Oprah Winfrey, que esteve no elenco de 1985. À época, uma jovem Whoopi Goldberg deu vida à protagonista da história em sua estreia no cinema -a atriz faz uma aparição breve no remake, como parteira.

A solidão de Celie e as violências sofridas por ela são marcantes no filme da década de 1980. Elas conduzem a trama e são mostradas com dureza, em tom de denúncia.

Na história de Bazawule, as agressões seguem expressivas, como quando o personagem de Domingo bate pela primeira vez na esposa, ainda criança. Porém, a brutalidade da história é suavizada pelo desenvolvimento da relação entre as protagonistas e pelos alívios causados pelas músicas e coreografias.

O musical transforma alguns diálogos presentes no clássico em canções que, por vezes, se encaixam bem na narrativa, refletindo o estado de espírito das personagens, ou dando o tom festivo das cenas de um casamento.

Causa estranhamento, porém, que algumas das músicas sejam ambientadas apenas na imaginação de Celie, que é transportada para cenários fantásticos para fugir de seu sofrimento -como quando ela dança em uma vitrola gigante, durante um de seus encontros com Shug.

Mas, o potencial de sua imaginação não parece ser totalmente aproveitado, já que outras músicas não exploram tão bem a profundidade da personagem.

O filme estreou nos Estados Unidos em dezembro passado, com grande expectativa do público e boas críticas. A atuação de Brooks, no papel de Sofia, uma mulher negra que se impõe e teve a vida destruída por um casal branco, lhe rendeu uma indicação ao Oscar deste ano, de melhor atriz coadjuvante.

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