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CINEMA

A Estética do Vazio: O Legado de Paris, Texas

Como o clássico de Wim Wenders usa o deserto americano para traduzir a solidão e a busca por redenção.

Pedro Juvenal

Pedro Juvenal

08/09/2026 — terça-feira às 20h44

A Estética do Vazio: O Legado de Paris, Texas

Paris, Texas

Paris, Texas. Um filme dirigido por Wim Wenders em 1984, um filme sobre pessoas que se perderam em si mesmas, e que mesmo se amando acabaram se destruindo justamente por não saberem lidar com esse amor. A história começa quando Travis, depois de desaparecer completamente por quatro anos, é encontrado andando sozinho no meio do deserto do Texas. Ele está completamente mudo, distante e anestesiado. Seu irmão Walt o leva de volta para Los Angeles, a cidade onde ele sempre morou e onde seu filho, Hunter, está morando com os tios. Aos poucos, Travis consegue reconstruir sua relação de pai e filho e decide ir procurar Jane, sua ex-mulher, com o menino. O mais interessante sobre o filme é que ele não trata esse reencontro como uma história tradicional de amor. Travis não está tentando recuperar Jane ou reviver um antigo amor. Ele está tentando entender o que aconteceu com ele mesmo. Ele está tentando lembrar o que fez com que ele abandonasse o próprio filho e sumisse por tanto tempo. Conforme a história avança, fica claro que o relacionamento dos dois foi ficando cada vez mais sufocante, enquanto ela se sentia presa e ele tinha constantes ataques de ciúmes, chegando até a manter ela amarrada com medo de que ela fugisse dele. Ele realmente a amava, mas transformou esse amor incontrolável em uma doença e se tornou um monstro que só machucou quem ele queria proteger, e é justamente quando ele percebe o que fez que a culpa se torna tão grande que ele desaparece da vida dela e do próprio filho.

 

E é justamente aí que Paris, Texas se distancia de um dos milhares de filmes de romance sobre um homem atrás de um amor, ele se torna um exemplo claro de que nem sempre amar significa que você deve ficar. E uma busca que no começo parecia por um antigo amor, se mostra uma busca para reconectar um filho e uma mãe que foram separados pela doença de um pai. Durante o filme inteiro Wim Wenders usa as cores para mostrar o que cada personagem representa, a presença constante do azul ao redor de Travis, transmite a distância, silêncio e solidão que ele sente. Jane, por outro lado, aparece sempre cercada por cores quentes. Isso é para mostrar justamente o quão diferente eles são, e que os dois não fazem parte do mesmo universo. Ela carrega a lembrança de tudo aquilo que Travis perdeu: amor, desejo, família e também o trauma. Essa diferença fica clara na cena final dos dois, quando Travis finalmente encontra Jane e os dois estão separados por um vidro que faz com que só ele a veja. Eles estão próximos fisicamente, mas continuam separados emocionalmente. Ela não consegue enxergar ele, e ele a enxerga o tempo todo, talvez até por tempo demais. E é ali, sem ser enxergado que Travis fala com ela depois de quatro anos, ela percebe que é ele e entrega um dos melhores monólogos da história do cinema: “Eu costumava fazer longos discursos para você depois que você foi embora. Eu costumava conversar com você o tempo todo, mesmo estando sozinha. Passei meses andando por aí conversando com você. Agora eu não sei o que dizer. Era mais fácil quando eu apenas imaginava você. Eu até imaginava você respondendo. Tínhamos longas conversas, nós dois. Era quase como se você estivesse aqui. Eu podia te ouvir, te ver, sentir seu cheiro. Eu podia ouvir sua voz. Às vezes, sua voz me acordava. Me acordava no meio da noite, como se você estivesse no quarto comigo. Então... aos poucos, foi desaparecendo. Eu não conseguia mais te imaginar. Tentei falar em voz alta com você como fazia antes, mas não havia nada. Eu não conseguia te ouvir. Então... eu simplesmente desisti. Tudo parou. Você simplesmente... desapareceu. E agora estou trabalhando aqui. Ouço sua voz o tempo todo. Todo homem tem a sua voz.”

 

Depois de tudo, Travis avisa que Hunter está em um hotel na cidade, e que eles deveriam ficar juntos, ele se vira e nunca mais a vê. Nem por um segundo ele tenta transformar aquele momento em algo sobre os dois. O reencontro entre Jane e Hunter acontece, mas Travis não participa dele. Ele observa de longe e depois vai embora sozinho. O filme acaba justamente como começou: com Travis sozinho. Mas agora ele sabe o porquê está onde está, e sabe que as pessoas que ele mais fez sofrerem, encontraram paz. No fim, Paris, Texas é um filme sobre culpa, dor, dúvida e solidão. Travis reencontra várias pessoas, mas o verdadeiro reencontro não é entre ele e nenhum outro personagem, é entre ele e aquilo que ele se tornou depois de perder tudo.

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