ENTREVISTA DE DOMINGO
Visto que são uns dos órgãos mais sensíveis do corpo humano, é importante tratar a saúde ocular
Por Gabriella Domingos - Redação BS9
08/05/2022 - domingo às 00h00
Dra. Cristiane Andrade Coelho Ruiz alerta para os cuidados com a saúde ocular desde a primeira infância - Foto: arquivo pessoal
Os olhos são uns dos órgãos mais sensíveis do corpo humano. Além disso, descobrir se tem algum problema nesta região muitas vezes não é visível, o que dificulta no tratamento se tardio.
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2019, cerca de 285 milhões de pessoas estão visualmente prejudicadas no mundo, dos quais, entre 60% a 80% dos casos podem ser evitados e tratados.
Doenças oculares são provocadas por inúmeros motivos, sejam causas genéticas ou hábitos e estilos de vida. A médio e longo prazo podem causar, entre dificuldade na visão e, em casos mais graves, a cegueira.
Visto isto, no Dia do Oftalmologista, comemorado no último sábado, dia 7, em homenagem aos profissionais responsáveis pelo estudo, cuidado e prevenção de doenças ligadas aos olhos, o Portal BS9 entrevista a médica oftalmologista Cristiane Andrade Coelho Ruiz, de Santos, que explica a importância dos cuidados com a visão desde a primeira infância, bem como na vida adulta.
1- Mais do que apenas visitar um médico oftalmologista, alguns cuidados básicos de rotina podem fazer a diferença na hora de cuidar da nossa visão. Quais são eles?
Os cuidados básicos com os olhos incluem: ir ao oftalmologista, ao menos uma vez no ano ou mais, se o profissional te recomendar ou se você já tiver uma doença instalada. A importância de ir a um oftalmologista é, especialmente, para que você possa diagnosticar doenças silenciosas como glaucoma, bem como doenças no fundo dos olhos que só sente no futuro, muitas vezes em uma fase mais avançada.
É importante manter uma boa higiene dos olhos, usar óculos escuros, evitar o uso excessivo de aparelhos eletrônicos -especialmente celulares e computadores-; aos pacientes que têm olhos secos, manter o uso de colírios lubrificantes; não coçar os olhos e ao menor sinal de alarme, como olho vermelho, irritação ocular, dor, alteração da visão, é importante procurar um oftalmologista imediatamente.
2- Muitas doenças são silenciosas e podem provocar perdas visuais sem o acompanhamento de um médico de forma regular. Quais seriam essas principais doenças?
As doenças silenciosas são a maior preocupação de um médico oftalmologista, por isso reforço a importância de consultas anuais a um consultório, não só para ver o seu grau do óculos, mas para fazer um check-up da saúde ocular.
As duas doenças mais importantes pela sua prevalência do nosso meio são: o glaucoma e as doenças de retina. O glaucoma é uma doença silenciosa pois a pressão do olho só irá dar um sintoma de dor, quando estiver pelo menos três vezes acima do normal. Então um paciente com essa doença, ao contrário do que muitos pensam, mais de 90% não possui queixa de dor. Outro problema do glaucoma é que a perda de visão se dá da lateral para o meio, ou seja, acaba perdendo a visão periférica. Existem pacientes que dizem enxergar muito bem, porque realmente em linha reta são capazes de observar objetos em boa definição a uma alta distância, mas se fizermos um exame chamado "campo visual", essa visão está em uma forma de 'visão tubular' (como se estivesse enxergando através de um tubo), ou seja, o paciente só tem visão em linha reta. A visão periférica vai se perdendo, até que chega um momento em que a visão em linha reta também se perde. A função do profissional em relação a doenças silenciosas como esta, é de início medir a pressão, depois saber o quanto o olho do paciente aguenta, há pessoas que aguentam a pressão um pouco maior do que outras. As vezes sua pressão está um pouco aumentada, mas esse pouco pode ser suficiente para levar um dano irreversível do seu nervo ótico.
As doenças da retina alertam especialmente em caso de pacientes diabéticos, pois podem ter várias lesões de retina -parte do fundo do olho-, que está diretamente conectada com o nervo ótico, logo com o cérebro, onde leva toda a transmissão da imagem. E podem ser hemorragias, rasgaduras nos cantos dos olhos (que podem ser despercebidas, porque o centro da visão não foi afetado, sendo a área de visão nítida) e isto prejudica muito no futuro.
3- Qual a importância de utilizar óculos de sol?
Existem algumas doenças que estão relacionadas à exposição da luz solar, por exemplo, a maculopatia solar (quando há o contato direto da visão com o sol), o que acontece muito nos casos de eclipse e pode levar a uma lesão rápida e definitiva. A luz solar também pode aumentar a presença de catarata e de uma lesão da retina chamada degeneração macular relacionada a idade. Da mesma forma que acontece com as doenças de pele, que são mais frequentes em pacientes com pigmentação baixa (brancos), as doenças pela exposição solar também acometem nestes pacientes, principalmente com olhos muito claros. Então a importância do óculos de sol é vital atualmente, até porque existe muitas coisas que aumentam a prevalência de doenças relacionadas a exposição solar, como o aumento da expectativa de vida: existem doenças degenerativas -que afetam mais os idosos-; a destruição da camada de ozônio, onde há uma incidência da luz solar mais direta.
Por causa da conscientização do uso do protetor solar, conseguimos ficar mais tempo na praia nos dias de hoje, logo ficamos mais tempo expostos ao sol pois nossa pele suporta mais tempo com o uso de protetor solar, mas não podemos esquecer que os olhos não tem a mesma proteção, por isso a necessidade de óculos escuros.
4- É sempre comum ver pessoas coçando os olhos uma ou várias vezes por dia. Qual o risco dessa prática?
Não é 'chatice' do seu médico ou da sua mãe! Ao coçar os olhos, principalmente as crianças, muitas vezes não estão com as mãos limpas. Então pode levar doenças, e logo a conjuntivite. Outras doenças que podem levar a sujeira e obstrução dos canais da lágrima e causar um hordéolo (terçol).
Existe uma doença em especial chamada "ceratocone", que nem todo mundo a tem. Há uma pré-disposição pessoal, familiar. Mas ela acontece por volta dos 8 anos de idade e 100% dos pacientes que a possuem, coçaram muito os olhos. Como não se sabe quem tem essa pré-disposição, é melhor prevenir.
Ou seja, não devemos coçar os olhos para não levar infecções.
5- Estamos no outono onde acontece a transição de um período quente e úmido para um clima frio e seco. Os cuidados com os nossos olhos nessa época do ano devem ser redobrados? Por quê?
Esta estação é marcada pela exarcebação dos processos alérgicos. Vemos um aumento da incidência de conjuntivite alérgica, que se estende até a primavera. Estes processos acompanham outros como rinite, sinusite, bronquite etc. Isto atinge bastante as crianças e podem causar desconforto na área dos olhos com coceira, sensação de olho seco, areia, inchaço das pálpebras, embaçamento da visão. Elas são diagnosticadas por um médico oftalmologista e tratadas adequadamente com colírios antialérgicos e as vezes é necessária a medicação via oral. É recomendável às crianças que já possuem antecedentes alérgicos, que cuidem de sua saúde geral com pediatras ou alergologista, pois faz parte de um todo. Além da atenção vinda dos pais aos gatilhos para o início de conjuntivite ou outros quadros alérgicos.
Trata-se de uma época em que retiramos os casacos que ficaram muito tempo no armário, com isso é importante lavar todas estas roupas, manter a casa o mais arejada possível, evitar bichos de pelúcia, tapetes no quarto da criança ou qualquer pessoa que já é alérgica.
6- Quais cuidados são recomendados para quem tem os olhos mais secos?
É a queixa mais frequente. Estima-se que cerca de 25% dos pacientes têm alguma queixa de olho seco. Existem alguns fatores internos e externos que podem exarcebar a esta queixa. É mais frequente em mulheres após a menopausa, pela deficiência dos hormônios. Também é associada a doenças reumatológicas como a Síndrome de Sjögren.
Com o advento dos eletrônicos, e as pessoas que trabalham 8h, 10h por dia, acabam piscando menos pela necessidade de atenção. Quem já tem tendência a olho seco, vai piorar com o uso do computador, e quem não tinha, pode desenvolver sintomas leves. A síndrome do olho seco é um desconforto que incomoda muito no dia-a-dia, então é importante tratar adequadamente, com colírios leves ou moderados, dependendo do caso. Fora isso, corrigir alguns vícios de postura e atividades que podem melhorar.
7- Muitas pessoas, por terem os olhos mais secos, utilizam bastante colírio em casa mesmo, comprando em alguns casos sem prescrição médica. Há algum risco para essa prática e como escolher um bom colírio?
Lavar os olhos com água não alivia o olho seco. O filme lacrimal tem três camadas. É 90% feito de água, mas tem uma camada de mucina que é responsável por aderir a lágrima na sua córnea. Isso evita que a lágrima ficasse escorrendo. Por cima da parte acuosa da lágrima existe uma camada lipídica. É como se tivéssemos um copo d'água e pingasse por cima uma gota de óleo para evitar a evaporação. Ou seja, o olho seco evaporativo é quando você tem uma produção adequada da lágrima, mas ocorre a evaporação porque não há uma camada de gordura por cima. Por isso é preciso avaliar qual o tipo de deficiência do filme lacrimal que o paciente tem.
Existem colírios que são mais completos, que corrigem tudo, e outros que corrigem apenas a parte acuosa. É importante que o paciente não se automedique, pois existem colírios com substâncias vasoconstritoras, elas eram muito utilizadas nos anos 70 por artistas, modelos, pois deixava o olho bem branco e bonito na foto, entretanto isso causava problemas crônicos, visto que o colírio tinha efeitos colaterais sérios. Um deles é o olho vermelho crônico, onde havia o risco de desenvolver varizes, e ficar com os vasos estufados e grossos, e ficar com o olho vermelho. Em raros casos, é possível que alguém que já tenha pré-disposição familiar ou individual adquirirem glaucoma pelo uso de colírio inadequado. Isso torna importante a atenção na prescrição de colírios, logo precisa de um médico para auxiliar.
Algo muito importante no uso a longo tempo, é que os colírios não tenham conservantes. Pois não agridem a parte de cima do olho, chamada epitélio. Podemos encontrar no mercado, pelo menos seis ou sete marcas de colírios sem conservantes, excelentes e com recomendação boa para o uso crônico.
8- E sobre as crianças. Quais são os cuidados que é preciso ter com a saúde ocular delas?
Os cuidados dos olhos começam na primeira infância. A criança quando nasce, enxerga tão bem quanto anda ou fala. A visão começa atinge visão em nível de adulto entre os sete ou oito anos de idade. Atá os dois anos de idade, o cérebro ainda não entende que dois olhos formam uma única imagem, ele alterna. Ou seja, ao nascimento, o "teste do olhinho" precisa ser feito na maternidade. Se o pediatra não se sentir habilitado a fazê-lo, precisa encaminhar a um oftalmologista e o ideal é que seja feito nas primeiras 72h de vida. Este teste visa diagnosticar especialmente doenças congenitas, entre elas a catarata congenita. Depois é importante fazer um exame completo entre os dois ou três anos de idade. Pois a criança já informa o que consegue ver os desenhos. Depois é realizado um exame na fase pré-escolar, entre os cinco ou seis anos de idade, e a partir dessa idade é preciso fazer avaliação todo ano.
Existem várias doenças que só são passíveis de correção enquanto os olhos estão em desenvolvimento. É importante o acompanhamento do desenvolvimento dos dois olhos. A maioria das doenças na infância não dá sintomas.
Se o seu filho enxerga em um olho e no outro, não vai conseguir identificar ou verbalizar esse acontecimento. Então o médico irá avaliar e corrigir esse problema para que o olho mais preguiçoso acompanhe o olho com maior desenvolvimento.
9- Com as crianças cada vez mais conectadas a dispositivos tecnológicos desde a infância, muitos afirmam que as próximas gerações vão sofrer ainda mais de miopia. Quais são os riscos tecnológicos para a visão?
É uma questão recorrente em consultório tanto para criança quanto para adolescentes. Em vista da quantidade de horas que passam nos eletrônicos. A Organização Mundial de Sáude (OMS) preconiza que se dê um aparelho eletrônico para criança só após os cinco anos de idade, pois estruturalmente e funcionalmente o olho não está preparado para focalizar a imagem durante tanto tempo. Em qualquer idade, especialmente na adolescência, o que acontece de pior é o exagero. Estamos vivendo uma epidemia de miopia. Quanto maior a miopia, maior o risco de ter doenças graves na vida adulta como o descolamento de retina, rasgaduras, glaucoma entre outros. É importante evitar a progressão de doenças oculares e principalmente as que estão ligadas a aparelhos eletrônicos, que é algo que pode-se intervir diretamente.
Duas dicas importantes para dar aos pais: Fazer pausas. A OMS recomenda uma pausa de a cada 20 min para 20 seg olhando para a distância mais longe que puder. Pois a posição de repouso do olho é olhar ao longe. Outra dica é que quanto menor a tela e mais perto dos olhos, mais prejudicial será. Sempre que puder espelhar na televisão uma série ou desenho e evitar de olhar o celular é melhor.
10- Quem utiliza lentes de contato precisam ter quais cuidados?
As lentes de contato precisam ser usadas como uma opção para agregar ao óculos, e não uma substituição. Se você acordar com o olho vermelho, irritado ou com secreção, não vai poder colocar uma lente de contato em cima desse olho. É importante sempre ter um óculos.
As lentes são adequadas para sair de casa. Ela auxilia, especialmente, em pacientes que praticam esportes. Seu uso ideal é a partir dos 15 anos de idade. Mas em caso de crianças que praticam esportes e vão a competições, é necessário o consentimento dos pais.
O maior risco de lentes de contato são as infecções, pois costumam ser mais graves. É importante ter atenção a higiene.
Hoje em dia os produtos que existem no mercado, para esterilização e assepsia são excelentes e diminuíram muito o risco de infecção. Além disso existem as lentes de contato descartáveis, que levam quase a zero o índice de infecção.
É necessário saber os cuidados básicos, ser bem orientado pelo seu médico oftalmologista e se bem utilizada você terá uma saúde ocular muito boa.
11- E como funciona os procedimentos cirúrgicos para correção do grau do olho para quem não aguenta mais usar óculos mas não se adapta com as lentes? É uma cirurgia de alta complexidade?
Todos podem fazer exames para saber se podem operar. Existem exames pré-operatórios específicos, onde o médico avalia o que precisa ser feito nos olhos do paciente. Assim haverá uma estimativa de resultado e logo um acordo para ver se é o esperado para a cirurgia. As vezes o médico pode contraindicar terminantemente, colocando que pode haver um problema sério caso mexa nos olhos, então é importante procurar um bom cirurgião, pois uma boa cirurgia começa em um pré-operatório detalhado.
Cirurgias não devem ser feitas antes dos 18 anos, e mesmo após os 18, só podem ser feitas após pelo menos um ano de estabilização do grau. Quem tem indicação, é quem depende dos óculos, não é recomendável a cirurgia para quem tem graus menores. As cirurgias funcionam para tirar a dependência dos óculos.
É uma cirurgia extremamente tecnológica, a complexidade é em um grau de aprendizado é no grau de aprendizado do médico e no grau de tecnologia dos equipamentos. Mas ao paciente, no caso de miopia, é um procedimento rápido e seguro, não há desconforto ou dor.
12- Por fim, de quanto em quanto tempo é indicado visitar um médico oftalmologista, usando óculos ou não e qual a importância de tornar isso uma rotina?
Uma vez ao ano, após os sete anos de idade. Independente da queixa de queixa ou óculos. Visto que existem inúmeras doenças oftalmológicas como alterações de córnea, olho seco, extrabismo, que as vezes não aparece evidentemente etc.
Se você já tem uma doença instalada, ou uma pré-disposição familiar ou individual provavelmente o médico marcará mais vezes ao ano.
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