Terça, 14 de julho de 2026

DólarR$ 5,09

EuroR$ 5,82

Santos

18ºC

ENTREVISTA DE DOMINGO

Luiz Fernando Almeida luta para viver em uma sociedade mais humanitária

Dia Nacional do Orgulho Gay, comemorado na última sexta-feira, dia 25 de março, levanta a bandeira da luta pelo reconhecimento LGBTQIA+

Por Lucas Campos - Redação BS9

Por Lucas Campos - Redação BS9

26/03/2022 — sábado às 18h00

Luiz Fernando Almeida luta para viver em uma sociedade mais humanitária

Ator e produtor cultural, Luiz precisou ser forte desde cedo para ser quem é e enfrentar os desafios da vida - (foto: Thiago Santanna)

"A taxa de jovens LGBTQIA+ que tentam se suicidar é significativamente mais alta do que aquela dos jovens heterossexuais".

"Jovens rejeitados por sua família por serem LGBTQIA+ têm 8,4 vezes mais chances de tentarem suicídio".

"Dentre os adolescentes, aqueles/as que são lésbicas, gays e bissexuais têm até cinco vezes mais chances de tirarem a própria vida do que seus colegas heterossexuais".

"A cada 26 horas uma pessoa LGBTQIA+ é vítima de homicídio".

Qual sentimento que essas informações geram em você? Empatia? Solidariedade? Revolta? A população LGBTQIA+ vive de uma luta constante por conquistas ao custo de lutas por igualdade, justiça e acesso a direitos. Mas ainda existem muitos desafios quando o quesito é a defesa e a representatividade.

A realidade da comunidade LGBTQIA+ no Brasil está longe de ser perfeita. Isso é mostrado, principalmente, pelos dados sobre a violência que esse grupo enfrenta como uma consequência da LGBTfobia. Levantando essa pauta contra a discriminação da comunidade gay, a falta de oportunidades igualitárias, e a violência contra pessoas LGBTQIA+, o Dia Nacional do Orgulho Gay, comemorado na última sexta-feira, dia 25 de março, levanta a bandeira da luta pelo reconhecimento dos direitos civis dos homossexuais, bissexuais, pessoas travestis e transexuais.

A data mobiliza há alguns anos milhares de pessoas em todo o País em prol da luta contra a homofobia e apoia os gays, lésbicas, bissexuais e transexuais a ter orgulho da sua orientação sexual. Orgulho este que o ator e produtor cultural santista Luiz Fernando Almeida mostra em cada uma de suas palavras, já que precisou ser forte desde muito cedo para ser quem é e enfrentar tantos desafios durante sua vida.

"Eu não saí do armário, 'fui saído'. Foi uma situação muito difícil pois nasci numa família evangélica, muito conservadora e preconceituosa. Sai de casa cedo, fui morar sozinho em São Paulo em busca da minha individualidade e tive que amadurecer precocemente para encarar a vida. Não me arrependo de nada porque tudo o que vivi me tornou quem sou hoje", se orgulha Luiz Fernando.

Ele lembra que, com exceção de sua mãe, que sempre o acolheu embora acreditasse que era uma fase, sofreu muito preconceito, sendo criticado, humilhado, maltratado e desprezado por muitos parentes. "Gente religiosa que prega o amor ao próximo desde que o próximo viva de acordo com o que julgam correto", diz. Diante de tudo isso, carregou muitos traumas e precisou de muita terapia para lidar com tudo o que passou. Hoje, aos 47 anos, mantém uma ótima relação (muito aberta) com sua mãe e a sexualidade já não é mais um grande problema.

E muito desse amadurecimento se deve a sua carreira. Desde cedo, Luiz dizia que seria ator. E a verdade é que o teatro foi o lugar que lhe salvou, acolheu e projetou suas potencialidades valorizando o fato dele ser "diferente" desde pequeno. "O teatro é o local dos excluídos e encontrar um ambiente onde tudo que afirmavam ser errado em mim jogava ao meu favor, foi mágico". 

Assim, após 28 anos se dividindo entre atuação e produção, onde teve a oportunidade de trabalhar com grandes artistas nacionais e internacionais, produzir todo tipo de evento (cultural, corporativos, social), Luiz ainda tem a oportunidade de aprender, começar e sempre recomeçar porque o que o move é a paixão pelo seu ofício. "Sou um homem que nunca teve medo de ser quem sou. Eu sempre fui assim. Sempre falei abertamente sobre tudo porque foi isso que me deu segurança para andar de cabeça erguida e encarar essa sociedade hipócrita e preconceituosa. Me posicionar desde cedo reforça meu senso de justiça e a luta para viver em uma sociedade mais humanitária".

Luiz é o grande personagem da entrevista deste domingo, dia 27, no Portal BS9. A importância do Dia Nacional do Orgulho Gay, a criminalização da homofobia no Brasil e a luta pelos direitos LGBTQIA+ estão entre os assuntos comentados por ele. Aproveite!

1- O monólogo "Dama da Noite", baseado no conto do escritor e jornalista Caio Fernando Abreu está prestes a completar 11 anos. Você acredita que ele ainda retrata a realidade dos dias de hoje?
O conto Dama da Noite, foi publicado nos anos 80. Eu montei a adaptação há onze anos atrás e ainda hoje, infelizmente, ele continua atual. A história fala sobre um ser humano que não se sente inserido no mundo que vê, sobre exclusão, preconceito, minorias e também sobre a AIDS. Embora a população LGBTQIA+  tenha conquistado alguns direitos nos últimos anos, não podemos negar que vivemos no país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo e onde a LGBTfobia é crime, mas não se faz boletim de ocorrência na maioria dos estados. Eu acredito que Dama da Noite é um texto atemporal e que a mensagem deixada por Caio Fernando Abreu, ainda será propagada por muito tempo. 

2- Qual a importância de comemorar o Dia Nacional do Orgulho Gay?
A data tem como objetivo conscientizar sobre a importância do combate à LGBTfobia para a construção de uma sociedade livre de preconceitos e mais igualitária, independente do gênero. As conquistas  acontecem num ritmo lento, mas é preciso comemorar. A adoção de casais gays e o uso de nomes sociais por transgêneros ou travestis podem ser enfatizados. No Brasil, o último “marco” veio em 2019, quando o Supremo Tribunal Federal aprovou a criminalização da LGBTfobia em 13 de junho. Podemos dizer que esse é um debate melhor apresentado pela mídia, pelo próprio movimento social. Mas quando falamos sobre o conteúdo da celebração, ainda há muitas áreas que queremos avançar, e não podemos avançar por causa das condições nacionais pelas quais estamos passando. Ainda cabe sonhar. O sonho possibilita o combate à barbárie, o combate à tirania. Eu insisto em dizer que os tiranos não aguentam sobreviver ao combate contra os sonhos das pessoas boas, das pessoas que querem viver, que anseiam mudanças. Quem sonha nunca será covarde. A luta é difícil, ela precisa ser organizada, coletiva e a gente precisa se alinhar.

3- Desde 2019, a homofobia é criminalizada no Brasil. Mudou alguma coisa de lá pra cá? O que ainda falta para uma melhora efetiva?
O básico. A maioria dos estados não emite boletins de ocorrência para o crime de LGBTfobia no país. Então, na prática, a criminalização não acontece porque nós não temos como legitimar nossas queixas nesse sentido para que a justiça possa penalizar esses crimes. Recentemente, participei de  uma campanha chamada “Resolve esse B.O.”, realizada pela ONG  ALL & OUT e pela  marca de sorvete Ben and Jerris, coletando assinaturas na internet para que os estados comecem a fazer os boletins de ocorrência. Nada no Brasil, com este governo, é fácil. Sobretudo a luta por direitos LGBTQIA+.

4- Segundo a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), cerca de 20 milhões de brasileiras e brasileiros (10% da população), se identificam como pessoas LGBTQIA+. Dessas, cerca de 92,5% relataram ter sofrido algum tipo de violência. Na sua visão, como reduzir esse número de criminalidade?
Precisamos fazer o trabalho de formiguinha diariamente. Garantir direitos e lutar contra a intolerância através da conscientização, educação e criminalização. É importante ressaltar que a violência lgbtfóbica vai muito além da violência física. A maior parte das denúncias da comunidade LGBTQIA+ diz respeito à violência psicológica. Essa categoria inclui atos de ameaça, humilhação e bullying. Além disso, a Pesquisa Nacional sobre o Ambiente Educacional no Brasil  apontou que 73% dos e das estudantes LGBTQIA+ já relataram terem sido agredidos verbalmente e outros 36% fisicamente. A intolerância sobre a sexualidade levou 58,9% dos alunos que sofrem agressão verbal constantemente a faltarem às aulas pelo menos uma vez ao mês. Essas questões, que impactam diretamente no desempenho de tais estudantes, são agravadas pela falta de preparo dos professores. A formação de tais profissionais é essencial para combater a LGBTfobia e outros tipos de preconceito dentro das salas de aula. Em segundo lugar nas denúncias de LGBTQIA+ ao Disque 100 estão os crimes de discriminação – por conta do gênero e/ou sexualidade de um indivíduo em diversas esferas, como na da saúde e do trabalho. Já em terceiro lugar está a violência física – que inclui desde a lesão corporal até o homicídio. Outra questão preocupante é o suicídio na comunidade LGBTQIA+. O relatório da organização Grupo Gay da Bahia (GGB) aponta que a taxa de jovens LGBTQIA+ que tentam se suicidar é significativamente mais alta do que aquela dos jovens heterossexuais. Jovens rejeitados por sua família por serem LGBTQIA+ têm 8,4 vezes mais chances de tentarem suicídio Essa estatística se traduz em outra: dentre os adolescentes, aqueles/as que são lésbicas, gays e bissexuais têm até cinco vezes mais chances de tirarem a própria vida do que seus colegas heterossexuais. Além disso, ao falar especificamente de pessoas trans, a violência sexual recebe destaque no Disque 100 e está diretamente ligada ao alto número de mortes de tal grupo. Amplamente marginalizadas pela sociedade, as trans muitas vezes recorrem à prostituição como forma de sobrevivência. Nessa realidade, tais indivíduos tornam-se mais vulneráveis à violência sexual, que acaba sendo um dos principais motivos para a expectativa de vida das trans ser de 35 anos.

5- Muitas pessoas se dizem não homofóbicas mas não entendem a necessidade de falar sobre orientação sexual e identidade de gênero de forma aberta. O que você diria para essas pessoas?
No Brasil ninguém homofóbico, racista, xenofóbico, gordofobico, misógino. O brasileiro tem muita dificuldade com a empatia e o péssimo hábito de normatizar o preconceito em forma de "piadas" . Quem nunca ouviu um "é brincadeira" após uma fala preconceituosa? Conceituar sexualidade consiste em uma tarefa bastante complexa, sobretudo pelo fato de ser frequentemente reduzida à genitalidade e reprodução. Herança da educação cristã que recebemos e que tem sido perpetuada até hoje. A escola, enquanto instituição responsável pela transmissão do patrimônio cultural da humanidade, possui um papel relevante na socialização dos saberes e das práticas relacionadas à diversidade. No entanto, no contexto educacional, temas como sexualidade, diversidade e relações de gênero ainda são regulados por preceitos morais e, portanto, mantidos sob uma ótica sexista e heteronormativa, em que prevalece o caráter biológico aos aspectos sociais e culturais, que tanto influenciaram as relações de gênero. É nesse sentido que é tão importante iniciar este tema desde cedo. São várias as instâncias sociais que, por meio de estratégias sutis, refinadas e naturalizadas, vão moldando os modos de viver em sociedade. As instituições escolares, estruturadas em julgamentos construídos a partir de valores pré-estabelecidos, vão desvalorizando a figura do outro, daquele que é diferente, que não foi moldado. Então, os indivíduos que não estão adequados ao padrão de normatividade e não seguem a lógica sexo/gênero/sexualidade são colocados à margem também na escola, cujo currículo não os contempla ou não tem a intenção de contemplá-los; ainda que estes sujeitos marginalizados sejam necessários para circunscrever os contornos dos considerados normais. Quanto mais normatizarmos esse debate a partir da infância, a longo prazo, teremos uma sociedade mais justa, inclusiva e igualitária.

6- Como as empresas podem sair do discurso de serem aliadas da comunidade LGBTQIA+ e partirem para práticas reais? Quais são as mudanças que precisam ser vistas?
As empresas precisam trabalhar para uma cultura mais inclusiva, começando pela conscientização dos líderes e gestores. Muitas vezes, o comportamento inadequado de fazer piada e brincadeira é realizado pela própria liderança. As práticas mais eficientes para as empresas são: conscientização da liderança, treinamentos internos, participação em fóruns externos de inclusão e criação de grupos de afinidades formados por pessoas que  querem falar sobre a inclusão. Criar um Programa de Diversidade e Inclusão que  tem o compromisso de contribuir para promover uma cultura organizacional respeitosa e inclusiva para que cada colaborador possa se expressar de forma autêntica, criativa e inovadora em um ambiente aberto, seguro e colaborativo.

7- Você acredita que aprendendo mais sobre a importância da causa LGBTQIA+ na sociedade as pessoas agiriam de outra maneira?
Sem dúvidas. O ser humano é falho mas sabemos que a educação é a saída para todos os problemas. Aprender sobre a causa, auxilia a gerar mais empatia e acolhimento, dessa forma as pessoas passam a agir com mais humanidade.

8- Você acredita que a LGBTfobia acontece por questões arraigadas na cultura brasileira? Como é possível mudar esses empecilhos?
Nós fomos colonizados e ainda somos. Carregamos heranças culturais que nem são nossas. As definições de modelos culturais que levam a uma certa hierarquização e normatizações sociais não institucionalizadas são padrões construídos ao longo da história mundial. Deste cenário surge o personagem do homem branco, europeu, como referência em cultura, eclipsando as populações que fujam destas características. É importante rever o passado para olharmos o futuro sempre. Repito que a saída para tudo é a educação. Uma nação que tem acesso ao conhecimento e pode desenvolver o senso crítico, torna-se questionadora. Tem mais capacidade de olhar todas as pautas sociais de forma ampla, nas camadas, para além da superfície.

9- E como incentivar vítimas a denunciarem esses crimes? Qual a importância disso?
Como denunciar se o ambiente que deveria acolher, hostiliza ainda mais? Você já esteve numa delegacia tentando denunciar LGBTfobia? Eu sim, e posso afirmar que é uma situação constrangedora. Nem um boletim de ocorrência é feito. A denúncia só tem efeito se a lei de criminalização sair do papel e entrar em prática. Se as delegacias forem ambientes acolhedores e não de perpetuação de preconceitos. Até para denunciar, a população LGBTQIA+ tem medo. O número de denúncias vai aumentar somente quando o Estado fizer a sua parte e a população tiver a certeza do acolhimento.

10- Neste dia do orgulho, e diante da situação atual, o que você acha essencial destacar na luta pelos direitos LGBTQIA+?
As conquistas da população LGBTQIA+ são inegáveis no Brasil. Hoje, casais homossexuais podem oficializar a união no civil e adotar filhos, trabalhadores podem estender seus benefícios previdenciários e de plano de saúde aos seus cônjuges, transexuais podem mudar o nome no cartório sem a obrigação de terem passado por cirurgia de adequação sexual ou recebido autorização judicial, além de usar o nome social na Educação Básica. E a retirada do manual de doenças psiquiátricas mais importante do mundo não vê mais  transgêneros como pessoas com problemas mentais, entre outras conquistas.

11- Como você imagina o cenário das pessoas LGBTQIA+ daqui 5 anos? Acredita que conseguiremos erradicar o preconceito e a violência contra a comunidade?
Em cinco anos acho impossível. Acho que podemos avançar nas questões relacionadas aos direitos, mas erradicar o preconceito e a violência é um trabalho muito a longo prazo porque lidar com o ser humano não é uma tarefa fácil. Mas seguimos contribuindo para que um dia isso seja possível. O trabalho feito agora é para que as próximas gerações possam usufruir.

Leia Mais

ver todos

Abstenções em consultas médicas em Cubatão chegam a quase 25%

SAÚDE

Abstenções em consultas médicas em Cubatão chegam a quase 25%

Resistência e paixão: São Vicente celebra Dia Mundial do Rock através das memórias da cena local

CULTURA

Resistência e paixão: São Vicente celebra Dia Mundial do Rock através das memórias da cena local

Guarujá tem 42 ruas pavimentadas em um ano e meio

INFRAESTRUTURA

Guarujá tem 42 ruas pavimentadas em um ano e meio

2
Entre em nosso grupo