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Profissionais da educação destacam os prejuízos da pandemia na aprendizagem e buscam soluções

Professoras e psicólogas escolares descrevem apatia e falta de autonomia; apoio dos pais é fundamental

Por Lucas Campos - Redação BS9

Por Lucas Campos - Redação BS9

15/03/2022 — terça-feira às 05h07

Profissionais da educação destacam os prejuízos da pandemia na aprendizagem e buscam soluções

Alunos apresentam uma desesperança e não acreditam que as coisas vão melhorar tão cedo - (foto: Freepik)

Um dos setores mais afetados pela pandemia de Covid-19 foi a Educação. De uma hora para a outra, em março de 2020, as escolas foram fechadas pela necessidade de isolamento social e as aulas precisaram de adaptação para o ensino remoto. E mesmo com todo o esforço - tanto da parte dos alunos como dos professores - para minimizar a inevitável perda, o modelo não substitui o presencial e acarretou diversos problemas para os estudantes.

Em abril de 2021, as escolas foram abertas com presença de até 35% dos alunos e somente em novembro a volta às aulas foi obrigatória para todos. E agora, no ano letivo de 2022, os reais prejuízos desses estudantes começam a ser sentidos por parte do corpo docente de instituições de ensino municipais, estaduais e particulares.

"Quando as aulas eram totalmente online nós não sentimos tantos prejuízos. Ano passado houve um momento de escolha da família para permanecer em casa e a grande maioria decidiu retornar para escola. Nesse caso, os alunos conseguiram minimizar um pouco o prejuízo, mas para quem ficou em casa, ele é enorme. E mais ainda para quem ficou exatos dois anos afastados. Principalmente na escrita, porque as crianças não escreveram e não treinaram a escrita manual. Só digitavam. Então, hoje esse está sendo o maior desafio para cumprir", afirma Tathiana França Paraguassú, coordenadora pedagógica do Colégio Integração, em São Vicente.

Indra Justino é professora de educação básica II na Escola Estadual Pastor Alberto Augusto, também em São Vicente, e tem absoluta certeza que todos perderam com a pandemia. Para ela, o prejuízo no nível educacional foi aumentar ainda mais a defasagem que os alunos de escolas públicas já tinham. 

"Muitas crianças vinham para a escola apenas para comer, havendo muita resistência quanto à volta da rotina”. 

Dois anos de ensino remoto trouxeram prejuízos sociais, emocionais e de aprendizgem para a maioria dos alunos (foto Freepik)

No que se refere ao ensino, a professora explica que, como muitos não conseguiram participar, mesmo a escola estando aberta para receber quem precisasse, os professores tentaram garantir as interações sociais, o ensino do mais urgente e dar ritmo e rotina escolares novamente. 

Ela conta que foi necessário fazer muitas escolhas, pois as defasagens são muitas. Por isso, buscaram garantir o essencial que, muitas vezes, era mais emocional.

"A maioria dos meus alunos tem uma desesperança. Trabalho com os alunos do ensino médio e eles não acreditam que as coisas vão melhorar tão cedo. E, de certa forma, nós também não acreditamos. Uns estão mais agressivos, outros mais ansiosos, outros ainda apáticos. Não há uma perspectiva positiva no momento", complementa Indra.

Tathiana mostra, ainda, uma outra consequência disso tudo: a grande dependência que existe hoje para que os professores ouçam eles e os ajudem em certas tarefas que antes não precisavam, pois já tinham adquirido certa autonomia nos estudos. 

"Se a gente parar para pensar, hoje quem está no primeiro ano do Ensino Médio fez presencialmente o sétimo ano. Então o oitavo e nono foram feitos dentro de casa e hoje eles já estão dentro de um universo de Ensino Médio. Hoje temos um primeiro ano dependente do professor, o tempo inteiro pedindo, o tempo inteiro querendo ajuda. E isso abala emocionalmente, não só os adolescentes, mas também as famílias, porque elas querem que a gente atenda a todo minuto e a todo segundo".

Na volta às aulas, estudantes mostraram estar ainda mais dependentes dos professores (foto: Freepik)

Prejuízos emocionais
E não foi só a parte educacional que foi afetada. Ficar tanto tempo sozinhas em casa, apenas com os pais, sem poder ter um relacionamento com amigos, também causou nas crianças e nos adolescentes um prejuízo na questão da interação. 

O ser humano é sociável e precisa do outro para não acarretar esse e outros problemas em relação a autonomia, tolerância e irritabilidade, todas características que se tornaram muito presentes por conta da pandemia.

"Com a retomada das aulas, no ano passado, muitos alunos foram recuperando seu espaço. Eles começaram a voltar, a interagir e se aproximar. Então isso trouxe pra eles uma nova possibilidade de relação. Isso foi muito bacana. Hoje começo a perceber que foi extremamente importante essa retomada das escolas e que a gente tem um grande desafio por conta do que eles viveram. Afinal, se relacionar com o outro, hoje, tem sido desafiador", explica Alethéa Gouveia Dias Cabral, psicóloga do Colégio Integração, em São Vicente.

Ela conta que muitos alunos começaram a ter crises de pânico e de ansiedade. E são estudantes que antes da pandemia não apresentavam nenhuma patologia Mas a dinâmica de ficar isolado, não poder sair e até mesmo o risco de vida iminente, inclusive, entre seus familiares, gerou sintomas de ansiedade, stress, pânico, nervosismo e medo.

A volta obrigatória dos alunos aconteceu apenas em novembro do ano passadoA volta obrigatória dos alunos aconteceu apenas em novembro do ano passado (foto: Freepik)

Estratégias usadas para reverter isso
A coordenadora do Colégio Integração explica que por lá há um laboratório de inteligência de vida para trabalhar a parte socioemocional do aluno, onde eles têm 50 minutos por semana para aprender estratégias para lidar com seus problemas.

"É maravilhoso poder trabalhar esse lado do aluno, da importância de estar perto, de dividir, de compartilhar, não só os ensinamentos, mas os comportamentos. Como falar, rir, se divertir e sociabilizar".

Alethéa conta que a porta de sua sala tem ficado sempre aberta, mostrando total disponibilidade para eles. Isso tem trazido muitas crianças e adolescentes para pensar sobre si mesmo e para falar o que estão sentindo.

"E eu tenho percebido que eles gostam e sentem essa necessidade. Eu percebo que sentiram falta desses momentos enquanto estavam em casa".

Dentro da sala de aula, Indra também vem adotando medidas que vão além do ensino escolar, procurando conversar com os alunos o tempo todo, mostrando que também foi afetada pela pandemia e que é solidária às perdas que eles tiveram.

"Muitas famílias não têm emprego e do que se alimentar. Outros só estão desanimados. E eu tento viver um dia de cada vez com eles. Demonstro que, apesar de tudo, estamos juntos 'no mesmo barco', tentando sobreviver a tudo isso", explica.

Durante o tempo em casa, os alunos sentiram falta de se divertir e sociabilizar com os colegas (foto: Freepik)

Importância dos pais
Os pais são fundamentais nesse processo de retomada da vida escolar. Para Alethéa, eles podem ajudar muito na questão da autonomia, pois muitas vezes nem percebem o quanto deixam de dar autonomia para seus filhos.

"E isso tem refletido muito na escola. Crianças que há tempos atrás conseguiam, por exemplo, amarrar sapatos, hoje não fazem isso. Ou abrir a mochila e se organizar com seu material. Então uma dica que eu dou aos pais é deixem seus filhos fazerem. Encoraje eles. Eles são capazes de produzir, de fazer aquilo que precisam. Os pais e responsáveis precisam estar ali para orientar, para estar do lado, mas encorajar para que eles façam". 

E outra dica que Alethéa acha importantíssima é tirar um tempo para o filho, só para ele. "Não é estar no celular, não é estar fazendo comida. É poder sentar do lado dele, andar na praia, jogar bola. O tempo de qualidade é essencial para o bom desenvolvimento, não só das crianças, mas da família como um todo".

O fato é que não dá para saber, ao certo, quanto tempo será preciso para recuperar tudo o que foi perdido. Por isso, Indra procura não criar expectativas de alto nível de conhecimento que são impossíveis de serem alcançadas no momento. 

"Por exemplo, muitos alunos dos sextos e sétimos anos precisam, urgentemente, concluir o processo de alfabetização. Então o foco é este. No que se refere aos demais, insistimos na leitura e interpretação textuais em todas as áreas do conhecimento, porque entendemos que dominar a linguagem fará os alunos avançarem em suas aprendizagens".

"O apoio emocional e pedagógico são fundamentais para compreender e ajudar nossas crianças nesse momento. Temos tempo e vamos tentar o máximo possível sanar tudo o que foi perdido com as ferramentas que temos aqui na escola", complementa Thatiana.

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