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Entrevista de Domingo

Não existe tratamento precoce para Covid-19, reforça Fabio Mesquita

De férias no Brasil, ele disse ao BS9 que, além da vacina, o uso de máscara e o distanciamento social são medidas fundamentais no combate à Covid-19

Por Adriana Martins - Redação BS9

13/06/2021 - domingo às 07h00

Mesquita também criticou contraexemplo do presidente Jair Bolsonaro e acredita em julgamento internacional - (foto: BS9)

Entrevistar o médico epidemiologista Fabio Mesquita, que é membro do corpo técnico do Departamento de HIV e Hepatites Virais da Organização Mundial da Saúde (OMS), é ter o privilégio de assistir a uma grande aula de saúde pública.

Atuando em Mianmar, na Ásia, desde 2019, ele está em férias no Brasil. Em passagem pela Baixada Santista, visitou a redação do Portal BS9. “Tenho uma ligação enorme com Santos, uma cidade que me adotou e que eu adotei. Essa ligação é importante na história da minha vida. São quase 12 anos fora, mas nunca perdi o contato com a cidade, seja por meio da imprensa, amigos, colegas médicos, família... É minha cidade adotiva”, conta o médico, que já coordenou os programas municipais de DST/aids em Santos, São Vicente e São Paulo, além de ter dirigido o Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde (de 2013 a 2016).

Nessa conversa - um relato pessoal, e não como porta-voz da OMS -, o tema não poderia ser outro: a pandemia de Covid-19. “Não dá para ser contraexemplo, uma pessoa que aglomera, não usa máscara, que não mantém distanciamento social, que faz exatamente o contrário do que a Ciência está falando para fazer”, afirma o médico sobre o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Leia mais na entrevista a seguir:
 
1- O senhor foi vacinado no Brasil, com as duas doses da Coronavac. Qual a mensagem para quem ainda tem medo ou dúvida a respeito da eficácia da vacina?
A gente sabe que as vacinas salvam vidas. De toda natureza. E essas vacinas contra a Covid-19 têm uma taxa de eficácia espetacular, ainda mais porque foram desenvolvidas em um curto espaço de tempo. Tenho ouvido muito que ‘fulano de tal tomou as duas doses e pegou o coronavírus’. Em nenhum momento a gente disse que a vacina impede a pessoa de pegar. O que a gente diz, e o que os estudos mostram, é que as vacinas vão proteger a pessoa de ser hospitalizada, de ter um caso sério e de morrer da doença. A vacina tem essa capacidade de proteção. E toda vacina, como qualquer medicamento, pode ter efeito colateral. Mas o mais importante é que a proteção acontecerá com a maioria das pessoas vacinadas. As gerações mais antigas lembram bem do desastre que era a poliomielite, o sarampo, e que foram todas as doenças infectocontagiosas que passaram a ser protegidas com vacina. A pólio foi praticamente erradicada do planeta. O sarampo tinha sido controlado no Brasil, mas os casos voltaram porque houve descuido com a vacinação. A solução para o que estamos vivendo é de saúde coletiva. E o que às vezes sinto é que que aqui, no Brasil, esse espírito não funciona, porque as pessoas pensam muito nelas, de maneira individual.

2- Como o senhor, com toda sua experiência como epidemiologista, avalia essa pandemia?
Houve um processo de globalização nunca visto antes, que foi mudando de região para região numa velocidade impressionante. Essa foi a novidade para a gente. Não foi a primeira, mas foi a maior e mais rápida pandemia em termos de disseminação e de impacto. Conforme a gente foi aprendendo, trocando o pneu enquanto o carro estava andando, porque era tudo muito novo, a gente percebeu que só 20% dos casos requeriam hospitalização e, desses 20%, 5% requeriam UTI. Mas essa proporção, em razão da globalização, dava para a gente a conta de qual era o problema que precisava ser administrado pelo setor de saúde.
 
3- A previsão de colapso, certo?
Sim. Todas as recomendações iniciais eram evitar as aglomerações e tomar todas as medidas de precaução para evitar um impacto que pudesse levar ao colapso do sistema de saúde. Não havia medicamentos, tratamentos, nada. Para pensar em colapso, a gente não considera só os 5% que vão requerer UTI ou os 20% que vão exigir hospitalização. Mas leva em conta que todas as outras doenças continuam existindo. Não parou de ter UTI para acidentes, para infarto, para AVC. O que ocorreu foi a adição de uma doença infectocontagiosa, que se espalhava muito rápido e poderia colapsar o sistema de saúde. Vimos colapsar sistemas de saúde poderosíssimos, como o da Itália, o da Espanha, da Grã-Bretanha, que é um modelo mundial. A gente aprendeu que, para controlar a epidemia, precisávamos adotar medidas de saúde pública não farmacológicas: distância social, não aglomerar, lavar as mãos em todas as situações e, quando não for possível, usar álcool gel, além de ter uma postura ética ao espirrar ou tossir, levando o braço à frente do rosto, não deixando espalhar gotículas, que eram responsáveis pela transmissão do vírus. E tudo isso é necessário até hoje.
 
4- Como o senhor avalia a discussão atual, no Brasil, em torno da utilização ou não das máscaras?  
No comecinho da pandemia, não recomendamos máscara para a população geral, não porque não achávamos importante, mas porque não tínhamos capacidade de produção. O mundo não estava preparado para ter máscaras para 7,8 bilhões de habitantes. As máscaras, naquela época, eram para os profissionais de saúde. Quando a capacidade produtiva se espalhou rapidamente no mundo inteiro, aí sim pode-se recomendar o uso para a população geral. De todas as máscaras. E hoje há estudos que demonstram que, com duas máscaras, a proteção é de 95% e que, se usar uma de pano com outra descartável, há melhora da proteção. Há uma série de questões que fomos progredindo ao longo do tempo. Temos nas farmácias, hoje, desde a N95, que é usada nas UTIs, até as mais simples. Outro passo importante foram estudos e iniciativas globais como o Covax, iniciativa da OMS que reúne outras organizações internacionais, consórcios, fundações e governos, e que hoje provê vacina para o mundo todo. E pensar que o Brasil desdenhou dela no começo e hoje recebeu só 10% (das doses de vacinas) quando tínhamos um potencial de 40%. Além da vacina, o Covax também tinha outras duas frentes: medicamentos para prevenção e para tratamento.

 5- A conclusão é que, de fato, não temos medicamentos de prevenção?
Foram feitas dezenas de milhares de estudos com esses recursos do Covax. E a conclusão de todos esses estudos, sem exceção, é que não temos um medicamento para prevenção.  Essa ideia maluca de que invermectina, cloroquina e todas essas coisas poderiam ser usadas para prevenção foi descartada, porque todos esses estudos sérios chegaram à conclusão de que não beneficiavam, não preveniam, não ajudavam. Mais do que isso, pioravam alguns quadros, principalmente a cloroquina, quando utilizada na fase inicial.
                                                 
6- Como funcionam os medicamentos usados no tratamento?
Muitos estudos foram feitos e dois deles, globais, chegaram à conclusão de que havia duas medidas importantes a se tomar: uma era curiosa, porque não estamos acostumados a usar corticoide em viroses. Parece uma contradição deprimir o sistema imunológico com corticoide, sendo que você precisa do sistema imunológico para reagir ao vírus. Mas, na verdade, um dos problemas detectados com o coronavírus é a violência com que o organismo responde ao vírus. E viram que, se você acalmasse o organismo, se não o deixasse responder com toda essa violência, se ele não tivesse essa capacidade, a doença poderia ser manejada com mais facilidade. Uma segunda questão que se viu em vários estudos é que o principal problema da mortalidade relacionada ao pulmão era associado a uma microcoagulação, que fazia a respiração ficar impossível e, na maioria dos casos, levava à morte. Dessa forma, foi instituído o uso do anticoagulante. Não conseguimos nenhum remédio específico contra o coronavírus ainda, mas conseguimos fazer com que o organismo reaja melhor com o uso dessas duas medicações. E não foi algo que aconteceu do dia para a noite, nem estudos pequenininhos, mas grandes estudos coordenados por universidades superimportantes e respeitadas, que a gente absorveu mundialmente e viraram protocolos da OMS. Por fim, temos o principal pilar de prevenção, a vacina, que teve um investimento global inusitado, nunca tivemos uma vacina desenvolvida em um espaço tão curto de tempo. Cerca de 150 vacinas foram testadas no mundo. Hoje, temos um número limitado para uso, que inclui a Coronavac (Sinovac/Butantan). E, no ano passado, o mundo começou a se preparar para a vacinação.
 
7- E o Brasil demorou para adquirir as vacinas.
Exatamente. Nós sempre tivemos uma tremenda moral fora do Brasil. Não fomos trabalhar com aids para a OMS porque a gente é legalzinho. Fomos para lá porque tínhamos uma tremenda experiência de como trabalhar com aids em um país como o Brasil, de renda média, mas cheio de problemas sociais. Uma segunda área que a gente era um arraso no mundo era a vacinação. O Programa Nacional de Imunizações (PNI) era um dos mais respeitados da Terra. O Brasil é um país enorme, com todas as dificuldades, e tínhamos a capacidade de vacinação de quase 100%. Não dá para entender que, com tudo isso pronto, com toda essa experiência, com todas as pessoas treinadas, capacitadas, com toda a capacidade de cadeia de frio, em todos os lugares, até no fundo da Amazônia, como entender por que não nos preparamos para esta vacina? Ao contrário, o que a gente viu foi não negociar vacina, negar a importância da vacina, brigar politicamente com o Butantan e apostar numa alternativa completamente impossível, que é uma única organização, a Fiocruz, para produzir vacina para o Brasil inteiro. E ainda tiveram as questões diplomáticas, envolvendo a China, que tem sido um grande provedor para várias partes do mundo. Não é uma discussão técnica, passou a ser uma discussão político-ideológica. E isso isolou o Brasil do ponto de vista político e isolou o Brasil da possibilidade de comprar vacina quando o mercado tinha vacina para oferecer.
 
8- A posição de um governo define o sucesso do combate à doença?
É perceptível quando a liderança política faz diferença, e não vou entrar na discussão se ela é de direita ou de esquerda. O México está um desastre e é uma liderança política de esquerda; Israel tem uma liderança política de extrema direita e tem sucesso no controle da pandemia. Essas coisas não estão associadas ao fato de ser de direita ou esquerda, mas à liderança política, sem dúvida nenhuma. O exemplo mais explícito são os Estados Unidos, que mudaram com a transição de Donald Trump para Joe Biden, que chegou na posse com um plano de ação contra a Covid. Um país que está vacinando adolescentes enquanto no Brasil temos uma percentagem de segunda dose baixa. E nos Estados Unidos não têm esquerda: há republicanos e democratas, todos são capitalistas. A diferença é de liderança. Aqui, o presidente sai às ruas, com quase 500 mil mortes, para andar de moto sem máscara e aglomerar. A liderança tem que dar exemplo. Não dá para ser contraexemplo, uma pessoa que aglomera, não usa máscara, que não mantém distanciamento social, que faz exatamente o contrário do que a Ciência está falando para fazer, que trabalha contra a vacina, que não compra vacina na hora certa, que coloca durante quase toda a crise da pandemia um não médico para dirigir o Ministério da Saúde. E isso ficou tão sério que hoje o Brasil é extremamente malvisto fora do País.

 9- Qual é a perspectiva? Temos uma CPI em andamento, mas o senhor acredita que ela terá impacto, de fato, na mudança de comportamento do governo no enfrentamento do coronavírus?
Se a gente continuar nesse ritmo de resposta, nessa falta de compromisso com a Ciência, as estimativas é que consigamos vacinar toda a população em meados de 2023. Estou no Brasil e duas coisas me impressionaram. Uma é andar na rua e ainda ver pessoas sem máscara, ou com a máscara abaixo do nariz, tampando somente a boca. A outra é o distanciamento social, que não existe. E estou otimista em relação à CPI. Pode ser um pouco inocência de minha parte, mas acredito que, ainda que não ajude muito numa solução institucional local, ela vai ser um tremendo elemento para um julgamento político histórico, muito mais sério, em tribunais internacionais. Você pega os depoimentos de dois ministros da Saúde (Luiz Henrique Mandeta e Nelson Teich) e fica claro que eles saíram por causa da imposição da cloroquina. E por uma imposição, que é a mais séria, de imunidade de rebanho, uma teoria defendida por um filho do Bolsonaro e Osmar Terra. Nunca usamos em saúde pública que a imunidade de rebanho se adquiria com a disseminação do vírus. O que sempre falamos é que a imunidade de rebanho se adquire com o uso dos protetores ao vírus, com a vacinação de 70% a 80% da população. Nesse quadro, todo mundo vai ficar imunizado, mesmo quem não tomou a vacina. Isso é imunidade de rebanho. Essa fala na CPI foi muito mais séria, muito mais grave do que a fala da cloroquina, que já é um absurdo.

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