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Entrevista de Domingo

"Gordofobia é muito mais do que ser xingado, é restrição de direitos, falta de respeito"

Ativista há mais de dez anos, Flávia Durante fala das várias formas de preconceito que as pessoas gordas sofrem na sociedade

Por Adriana Martins - Redação BS9

12/09/2021 - domingo às 07h00

Aos 44 anos, Flávia diz que já enfrentou preconceito trabalhando na noite - (foto: arquivo pessoal)

Paulistana criada em Santos, Flávia Durante, 44 anos, é comunicadora, DJ, empresária, professora e ativista. Desde 2012, produz em São Paulo o Pop Plus, feira de moda e cultura plus size com média de público de 12 mil pessoas por evento – atualmente um hub de conteúdo com edições on-line, uma forma de se reinventar durante a pandemia. Mas o retorno do evento presencial já tem data marcada: 4 e 5 de dezembro, na Capital.

Há mais de dez anos, Flávia fala sobre como a moda pode trazer dignidade para pessoas gordas. Mais do isso, ela escancara o preconceito que existe contra mulheres e homens gordos nas lojas, no transporte público e até mesmo nos consultórios médicos e hospitais, ou seja, mostra como a gordofobia está enraizada em toda a sociedade.

E precisamos falar sobre isso. Nesta entrevista, que vai ao ar no mês da Visibilidade Gorda e Combate à Gordofobia, Flávia conta como enfrentou e enfrenta o preconceito e lança luz a um tema ainda desconhecido por boa parte das pessoas, inclusive as pessoas gordas.
 
1- De que forma a gordofobia se manifesta no dia a dia das pessoas?
De várias formas. A que a gente mais conhece ultimamente são os ataques pessoais, virtuais ou não, o cyberbullying e o bullying, praticados nas escolas ou na vida familiar. E se manifesta quando a pessoa é chamada de gorda de maneira ofensiva, embora gordo não seja um xingamento. A gente reconstruiu essa palavra, ressignificou o papel dessa palavra, mas muita gente ainda a usa como um xingamento. Então a gordofobia se manifesta nesses ataques pessoais e na acessibilidade, ao tirar o direito das pessoas gordas de viver em sociedade de forma normal, tanto na moda, quanto no mobiliário ou no transporte público. A gente tem dificuldade de passar numa catraca, de encontrar roupas com facilidade. Embora existam cada vez mais no mercado marcas plus size e eventos como o Pop Plus, ainda não podemos encontrar roupas acima do 46 em qualquer shopping ou qualquer esquina como uma pessoa magra encontra roupas em qualquer esquina. Temos que nos programar para fazer essas compras em lojas on-line, eventos e ruas especializadas. Além disso, há a gordofobia médica, afetiva – de pessoas que querem pessoas gordas para satisfazer sua sexualidade, mas não assumem relacionamento com mulheres gordas, principalmente porque têm medo do que os amigos e a família vão falar. No trabalho, a pessoa gorda é vista como preguiçosa, incompetente e incapaz. E há o estigma do peso, que diz que se ela não cuida do próprio corpo, não cuida do trabalho. Enfim, a gordofobia é muito mais do que ser xingado, é, sim, a restrição de direitos na sociedade, uma invisibilidade, é falta de respeito.
 
2- Ela atinge homens e mulheres da mesma forma? Ou a mulher, pelos padrões de beleza impostos desde sempre, sofrem mais?
A gordofobia atinge homens e mulheres da mesma forma. Todos os homens e mulheres vão passar por todos esses problemas que eu falei. O homem vai ter problema com gordofobia médica, vai ser visto como incapaz, como preguiçoso, mas a mulher é sempre mais julgada, enquanto o homem vai esconder isso. Por conta do machismo presente na sociedade, o homem gordo não quer mostrar que ele está sofrendo com algum tipo de preconceito, então, geralmente faz a piada antes. Por experiência própria, de observar outros ataques virtuais, a gente vê que a maioria dos ataques é feito por homens gordos. Ele costuma atacar e fazer a piada antes, mas isso não quer dizer que não esteja sofrendo, que não passe por todos esses problemas que as mulheres estão passando também. Mas, por conta do machismo, ele vai esconder todo esse sofrimento, todos esses problemas.

 "As faculdades de Medicina já ensinam a odiar o corpo gordo e a ver o corpo gordo como uma bomba-relógio"

3- A gordofobia médica é realmente frequente nos consultórios? E de que maneira ela impacta na saúde de quem passa por isso?
Infelizmente, é frequente tanto nos consultórios públicos quanto particulares, porque as faculdades de Medicina já ensinam a odiar o corpo gordo e a ver o corpo gordo como uma bomba-relógio desde sempre. Então, a gordofobia médica impacta a saúde fortemente, porque se você é maltratado em um consultório ou pronto-socorro, isso faz com que você não volte tão cedo ou nunca mais. Isso é comum e escrevi muito a respeito quando tinha um blog no Uol, onde relatei casos horríveis. Não é simplesmente falar: “Você tem que emagrecer dez quilos” - isso pode acontecer e não é gordofobia dependendo do jeito que se fala. Mas casos assim: “Você está gorda como uma porca, desse jeito seu marido não vai querer transar com você e você não vai engravidar nunca”. Ou, então, anestesista médica falando para a paciente na hora do parto: “Você está gorda como um hipopótamo, vou ter que dar duas anestesias”. Isso na hora que a mulher está no momento mais feliz da vida dela! Ou então você vai tratar de uma espinha, de uma unha encravada, e o médico mal te olha na cara e fala: “Você tem que fazer uma bariátrica, isso daí aconteceu porque você está gorda”. Muitas vezes não tem nada a ver com o fato de estar gorda ou não.

4- Tem a ver com respeito.
O ativismo gordo não luta para que todo mundo seja gordo e não cuide da saúde. Pelo contrário. A gente quer que todo mundo seja tratado com respeito e dignidade em todos os lugares. A saúde é direito de todos. E é algo tão cobrado da pessoa gorda, mas quando ela vai procurar saúde, é maltratada nos consultórios. Não há equipamentos médicos adequados, desde a aferição de pressão, com aparelhos que caibam no braço dela, até a ressonância magnética ou tomografia computadorizada, porque às vezes só cabem corpos de até 120 quilos nesses equipamentos. Acima disso, o paciente é encaminhado, inclusive, para hospitais veterinários e hípicos. Quem quer passar por isso, ser comparado a um animal? A pessoa gorda acaba se resguardando e não pisando tão cedo em um consultório médico. Então, acho que esse assunto deve ser falado cada vez mais em todas as faculdades de Medicina, para que as pessoas sejam tratadas de maneira humanizada, e não só como número, como uma bomba-relógio. O mínimo que a gente pede é respeito.
 
5- Passamos pelo Dia do Gordo (10) e estamos no Mês da Visibilidade Gorda e Combate à Gordofobia. Essas ações ajudam a combater o preconceito?
Acho que essas ações ajudam as pessoas a saber o que é a gordofobia, porque ainda é algo muito desconhecido. As próprias pessoas gordas ainda não sabem o que é direito. A gente está acostumado a ser maltratado na sociedade, em todos os lugares, todos os âmbitos. Às vezes não sabe nem se defender, acha que tudo isso é normal, que é normal um médico falar “você está gorda igual uma porca”. Aí vai embora chorando, mas acreditando que está errada mesmo. Não, você não pode ser tratado desse jeito em lugar algum. Por isso acho que ajuda, não sei se a combater o preconceito, que é mais difícil, algo que deve ser trabalhado desde muito cedo, mas pelo menos ajuda a informar, para que as pessoas gordas aprendam a se defender, saber o que é a gordofobia e não aceitar mais esse tipo de tratamento. É importante falar cada vez mais sobre isso.

 "A gente tem que atacar a gordofobia no mercado de trabalho, na moda, na saúde. Não é um assunto só, temos que atacar em todas as frentes"

6- A moda, que por muito tempo foi uma barreira e ainda é excludente, também ajudou a trazer o combate à gordofobia à tona, com a ampliação do segmento plus size e a abertura do mercado para modelos plus size?
Com certeza a moda ajudou a trazer esse assunto à tona, sim. Foi o primeiro grito das mulheres gordas para serem vistas como são, foi o início da busca dessa identidade, não só como consumidoras, mas da busca da personalidade, autoestima, pertencimento no mundo da moda, que para muita gente é futilidade, mas é identidade, é cultura, é dignidade. Sem roupa você não faz nada numa sociedade como a nossa. Então, a moda com certeza foi o primeiro degrau para muita gente se encontrar e abrir os olhos para essa população. Afinal, quem é considerado acima do peso ou veste moda plus size representa quase 60% da população, e apenas 17% do mercado de varejo no Brasil atende esse público. Tem muita gente de fora, sendo excluída, mesmo agora com o mercado crescendo, porque ainda é restrito aos grandes centros e só para a população com mais poder aquisitivo. Para quem está fora e sem dinheiro, é muito difícil esse acesso. Não é raro eu receber mensagens de mulheres que têm apenas uma camiseta, uma calça jeans, uma calça de algodão ou outro tecido, ou, pior ainda, que só se vestem com um lençol, uma canga ou toalha, porque ou não têm dinheiro para comprar, porque não têm trabalho e não são contratadas porque são gordas, ou porque não encontram roupa do tamanho delas na cidade onde moram. Enfim, é um trabalho que ainda precisa ser feito em várias frentes. A gente tem que atacar a gordofobia no mercado de trabalho, na moda, na saúde. Não é um assunto só, temos que atacar em todas as frentes.

7- Como teve início sua atuação no combate à gordofobia?
De forma mais intensa no Pop Plus, que eu criei em 2012. Mas desde antes, eu já falava sobre o assunto nos lugares onde trabalhei, ou nas minhas redes sociais, embora ainda nem se falasse muito em gordofobia. Levava sempre essas pautas para o portal Vírgula ou para o site da Revista TPM, da qual fui editora. Eu e outras jornalistas ou blogueiras, que também atuam na área há muitos anos, como a Ju Romano, Kally Fonseca, Renata Poskus, porque ninguém faz nada sozinho. Com várias vozes, o assunto começou a ser falado no Brasil de forma mais organizada por volta de 2008, 2009, levantando a questão da moda plus size.

8- Como a pandemia afetou o Pop Plus? E quais os próximos passos para fortalecer o segmento?
A pandemia afetou fortemente o Pop Plus, porque são eventos presenciais, aglomerações, ou seja, tudo que não podia ser feito. Nosso diferencial sempre foi justamente trazer as marcas on-line para o off-line, até porque, como a mulher gorda ainda não conhece totalmente seu corpo, precisava desse contato pessoal, experimentar as roupas, conhecer as marcas pessoalmente. Foi muito difícil ficar um ano e meio sem os eventos. A gente acabou se transformando em uma plataforma de conteúdo, fazendo mais matérias, lives e eventos on-line, tudo isso para continuar sobrevivendo, embora o faturamento tenha caído bruscamente. Mas a gente não desistiu, e os próximos passos são continuar investindo no conteúdo – estamos participando de algumas publis para ajudar no faturamento – e nos preparar finalmente para a volta dos eventos presenciais. Em 4 e 5 de dezembro, faremos a edição presencial no Clube Homs, na Av. Paulista, em São Paulo, mas ainda sem a programação paralela que envolvia o Pop Plus, com dança, shows e debates. Será mais um evento de venda mesmo, de rápida circulação, por não sabermos como vai estar a pandemia até lá, né? Vai ser um negócio mais dinâmico.

9- DJ, jornalista, empreendedora, enfim, uma mulher de sucesso, que conquistou um baita espaço. Mas você já se sentiu alvo de preconceito? De que tipo? E como lida com isso?
Por incrível que pareça, já me senti alvo de preconceito na noite, teoricamente um ambiente mais liberal, mas muito machista. Por ser uma mulher que gosta de música e de tocar, e que entende de música, muitas vezes minha competência e meu conhecimento foram colocados à prova, em dúvida. E só fui perceber isso mais para frente, quando fui me tornando mais feminista. Em orçamentos para eventos, por exemplo, pediam foto e não era aprovada. Quando via quem tinham chamado para tocar, era sempre uma DJ mais novinha, modelo, padrão modelete. Hoje em dia, passo muito por uma situação de invisibilidade de idade. Estou com 44 anos, e acham que depois dos 40 você deve seguir um determinado padrão ou só falar de trabalho, de filhos, de divórcio. Sou casada, mas não tive filhos, e continuo gostando da noite, de tocar, de viajar para festivais de bandas – não na pandemia, claro –, enfim, gosto de me montar, de me maquiar, coisas que teoricamente não estão destinadas a mulheres com mais de 40. Eu não me vejo representada. Em um publi de festival, não vão chamar uma mulher de mais de 40, vão chamar gente de 20 anos, que às vezes nem sabe o que está fazendo ali. Não querendo desmerecer, claro, mas não respeitam o background de mulheres mais velhas, porque acham que todo mundo tem que gostar da mesma coisa. E lido com isso do jeito que sempre lidei com tudo: metendo o pé na porta e continuando sendo do meu jeito. Lógico que não é todo mundo assim, por isso a gente tem que ouvir e acolher a pessoa que tem mais dificuldade de ser quem ela é.

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