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Entrevista de Domingo

Dr. José Carlos Clemente fala sobre o câncer de próstata e as medidas a serem tomadas

O médico radiologista comenta sobre os sinais e sintomas da doença masculina

Por Matheus Rodrigues - Redação BS9

28/11/2021 - domingo às 07h00

O especialista comentou sobre o tema do Novembro Azul - (foto: BS9)

A próstata é uma glândula, um órgão não essencial, que os homens possuem e se localiza na parte baixa do abdômen. A sua função é produzir um fluído líquido que se agrega ao sêmen, protegendo e nutrindo o espermatozóide. Além disso, mantém o fluxo urinário regular e auxilia no ato da ejaculação.
 
Principal tema do Novembro Azul, o câncer de próstata geralmente afeta homens adultos, a partir dos 40 anos. Vale destacar que tanto homens negros quanto quem tiver antecedente familiar tem mais chances de ter a doença, entretanto, após os 50 anos, frequentar o urologista deve se tornar hábito. De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), há 65.840 novos casos da doença em um período de três anos, contudo, há uma alta chance de cura se for o problema for diagnosticado precocemente. 
 
A fim de tratar o assunto mais profundamente, o entrevistado deste domingo do Portal BS9 é o Dr. José Carlos Clemente, médico da clínica Mult Imagem, que esclareceu como deve ser a rotina do público masculino diante o cuidado com a próstata, além de revelar quais são os exames mais comuns e os sinais e sintomas da doença.
 
1 - Sobre o câncer de próstata, qual seria a mensagem mais importante que você registraria?
Bem, a primeira coisa que poderia dizer é em relação ao homem. Colocar como uma rotina, da mesma forma que a mulher, a partir dos 50 anos de idade uma visita ao urologista. Por que isso é importante? Porque assim como a mulher faz a prevenção da parte pélvica e da parte mamária dela, o homem deveria fazer o preventivo da parte prostática. Isso não quer dizer que ele não possa fazer um preventivo mais abrangente ou outros tipos de exames. Mas eu diria que a ultrassonografia de próstata acima dos 50 anos ou a partir dos 40 anos, para quem tem antecedente familiar. Isso é um aspecto importante, porque quem tem esse antecedente familiar, em geral o câncer acontece antes de quem não tem. E onde esta esse antecedente genético? No irmão, pai, tio ou avô. Qualquer um desses que tiveram câncer de próstata, ele te implica em um risco oito vezes maior de desenvolver a doença. Então, veja a importância de se fazer um diagnóstico precoce, a gente não está fazendo prevenção porque não sabemos a causa, mas há como fazer um diagnóstico precoce de um eventual câncer que possa aparecer. Tem que ser feita essa rotina, isso é fundamental para o homem caso queira ter uma chance de curar.
 
2 - Quando o paciente deve ligar o alerta em relação ao tratamento de próstata?
A primeira coisa seria em relação a idade. Se o homem tiver antecedente familiar de câncer de próstata já deve começar aos 40 anos. Não importa os sintomas, importa a idade, pois, ele já poderia ter problemas. Agora que não tem antecedente, a partir dos 50, mesmo que ele não tenha sintomatologia, é importante que se faça os exames.
 
3 - Quais são os principais sintomas que possam preocupar o homem?
O homem deve ficar em alerta quando há alteração no ritmo urinário dele. Quando ele está fazendo muito mais xixi do que o comum, tanto em quantidade, como em frequência. Em quantidade, não necessariamente é um problema de próstata, por exemplo, pode ser diabetes, que faz com que a pessoa beba mais água, coma mais e, por consequência, faça mais xixi. Mas pode estar relacionada a próstata sim, a chamada poliúria (muitas vezes urinando), ou as vezes, o homem vai ao banheiro com mais frequência, mas faz pouco xixi, ou seja, ele aumentou o números de micções mesmo com a bexiga praticamente vazia, faz poucas gotas e depois tem vontade de novo e de novo. Isso também é um sinal de problema na próstata. A pessoa com diabete não vai tanto no banheiro, mas quando vai faz muito. O que acontece na próstata, quando se tem hiperplasia benigna ou quando se tem câncer de próstata mais avançado, pode ser que o paciente faça xixi agora e a bexiga não seja totalmente esvaziada, daqui a pouco, ele tem a necessidade de ir ao banheiro novamente. A próstata está aumentada, ela aberta e não permite que esvazie tudo, é algo que chamamos de resíduo urinária. 
 
4 - Existe um protocolo de atendimento para quando o homem se apresenta ao consultório?
Normalmente há um protocolo. Por exemplo, habitualmente o médico irá fazer um histórico clínico onde o paciente vai comentar quais são os sintomas que está sentindo. Se não tiver sintoma nenhum, continua o protocolo segue, mas se tiver sintoma, irá ter uma orientação para o que pode ocorrer. Depois disso o paciente é interrogado. Se a pessoa tiver mais de 50 anos o médico vai acabar fazendo o toque retal como rotina. A partir disso, o doutor pede um exame da PSA (antígeno prostático específico) e avalia em conjunto com o toque retal. Em muitos países desenvolvidos, normalmente o médico pede a ultrassonografia, que no Brasil é feita em cima do abdômen, mas que não é um bom método para fazer diagnóstico de tumor, ele é um bom método para avaliar volume e o peso da próstata, mas não avalia detalhe fino. Neste caso, o importante é a ultrassonografia transretal, ele vai dar um detalhe muito fino, capaz de detectar lesões milimétricas, é o exame mais perfeito que existe, é o computador que analisa, não tem erro. Além disso, checa se a próstata está sendo nutrida por vasos corretamente e tira o fragmento para que seja analisado se é benigno ou maligno.
 
5 - Há preconceito em relação ao tratamento?
Existe muito preconceito, podemos citar o primeiro deles que é o toque retal, que o homem de uma certa forma cultural, especialmente no Brasil, tenta evitar o médico. Posso comentar isso abertamente para todos, por exemplo, na Alemanha, Japão ou demais países desenvolvidos, não se tem esse aspecto levado em conta na hora de fazer o exame. A pessoa vai, se necessário fazer, para ele tudo bem, culturalmente ele não tem esse preconceito. Já no Brasil, o preconceito existe e é maior quando menos esclarecido para a pessoa. De qualquer forma, é aconselhável que, mesmo que o homem não deseja fazer o toque retal, existem outros exames que são complementares e muito importantes, por exemplo, o PSA. Na verdade, ele não é específico, ele acontece quando você tem uma prostatite e ela aumenta muito. Quando você faz um exercício físico extenuante, sexo, anda de bicicleta ou qualquer movimento que cause impacto na próstata, ele aumenta um pouco o índice, que na verdade é um falso positivo. Outra coisa muito comum que eleva bastante o PSA é a hiperplasia (crescimento) benigna da próstata, ou seja, como o próprio nome diz, é algo benigno. A próstata aumenta com a idade, quase todos os anos acima dos 80 anos tem hiperplasia de próstata em maior ou menos grau e ela vai aumentar o PSA, mas não significa obrigatoriamente que a pessoa tem um câncer isolado ou associado.
 
6 - Qual a importância do homem estar conversando com a família sobre o tratamento?
Nós precisamos tirar uma vidraça, uma barreira, da sua frente. Eu diria que o homem brasileiro deveria ser como, por exemplo, o japonês ou o alemão, que não tem esse preconceito. Ou seja, não se admite na Alemanha que você fala uma ultrassonografia que não seja a transretal, ela é mandatória e o homem não questiona. Você vê como o aspecto é cultural? Eu diria para o brasileiro que procedesse da mesma forma, isso não tem nada a ver com masculinidade o fato de você fazer um diagnóstico, seja pelo toque retal ou pela ultrassonografia transretal (que é muito mais sensível) ou até pela ressonância magnética. Se o homem vê que tem a lesão, tem que largar o preconceito de lado e fazer os exames necessários. Além disso, a família tem que participar, a família que vai ser o apoio mais importante que o homem vai ter nessa hora complexa. O tumor na próstata é muito menos agressivo do que, por exemplo, o tumor da mama. Tanto é que, quando você faz um diagnóstico precoce de câncer de próstata, praticamente a possibilidade de cura é entre 90% a 100%, é quase total. Diferente do câncer de mama, onde as chances de cura são menores se estiver numa fase mais avançada. Em relação ao câncer de próstata, mesmo atrasando um pouco, o paciente ainda tem chance de cura. Um comparativo: Em média, o câncer de mama dobra de tamanho em um período de seis a sete meses, o câncer de próstata demora três anos para fazer a mesma coisa, ou seja, o homem tem uma chance maior de cura se eu for precocemente ao urologista.
 
7 - A pandemia atrapalhou os exames preventivos ao câncer de próstata?
Com certeza, a pandemia atrapalhou muito, inclusive o número de cirurgias de próstatas que reduziram em mais de 20%. Veja só em que enrascada nós nos encontramos só porque o foco ficou na pandemia, enquanto as outras doenças foram esquecidas. O próprio câncer de mama acabou ficando em segundo plano e isso dificultou tanto o diagnóstico precoce quanto o tratamento dessas doenças. Isso foi muito grave, acho que o foco maior para um setor (que no caso era para Covid-19), não implicaria, obrigatoriamente, de você esquecer dos demais.
 
8 -  Muitas pessoas acabaram falecendo por causa da atenção voltada apenas ao coronavírus?
No Brasil foi aconteceu por interesses políticos, ideológicos e econômicos. Focaram apenas na pandemia para dizer "olha, estou te atendendo". Existem doenças cardíacas que matam muito mais gente, a própria aids mata extremamente mais, no entanto, parece que só existe coronavírus no mundo todo. Muitas pessoas acabaram morrendo do outras doenças por conta de negacionismo. Os hospitais focaram apenas na pandemia, evitando que as pessoas fossem para lá, mandando as pessoas ficarem em casa. Com isso, as doenças foram agravadas e o índice de morte, em geral, de câncer, acabou aumentando muito. Morreram pessoas que em hipótese alguma poderiam morrer se fizesse a rotina que estava acostumada a fazer anteriormente.
 
9 - Qual é o recado final desse novembro azul que fica para que os homens procurem apoio?
Essa consideração é extremamente importante, eu diria para que todos os homens, para quem tem antecedente familiar, ir rotineiramente ao urologista a partir de 40 anos e se não tiver antecedente, tem que ir obrigatoriamente a partir dos 50 anos (anualmente) e realizar os exames que o médico considerar importantes. Até porque existem protocolos específicos que são fundamentais para o diagnóstico precoce e consequentemente haverá uma chance de cura quase total para todos os homens que fazem esse diagnóstico. É fundamental esquecer esse preconceito e ir rotineiramente, mesmo sem sintomas, ao urologista.

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