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Entrevista de Domingo

A importância do Novembro Azul para detectar o câncer de próstata

O médico urologista Fábio Atz Guino fala sobre a doença que corresponde a aproximadamente 33% dos cânceres masculinos

Por Lucas Campos - Redação BS9

07/11/2021 - domingo às 07h00

Ele atua no Atz Day Hospital, além de ser coordenador de urologia dos hospitais Ana Costa de Santos, Casa de Saúde de Praia Grande e Hospital de Cubatão - (fotos: arquivo pessoal)

O câncer de próstata está entre as três principais doenças de câncer no homem. Ele responde por aproximadamente 33% dos cânceres masculinos. E essa taxa aumenta progressivamente com o avanço da idade. Por isso, a Sociedade Brasileira de Urologia orienta que seja feito o acompanhamento anual com urologista a partir dos 45 anos para os que têm algum fator de risco, como hereditariedade e pacientes negros, ou aos 50 anos para todos os outros homens.
 
Pensando nisso, o Instituto Lado a Lado pela Vida criou há 10 anos a campanha Novembro Azul, com o intuito de conscientizar todos os homens para a importância de ir ao médico urologista. Principalmente porque as chances de cura são muito maiores quando a doença é descoberta logo no início.
 
O acompanhamento médico anual se torna ainda mais essencial no câncer de próstata, pois não é possível fazer o autoexame como no câncer de mama, que é uma doença tão frequente quanto o de próstata em relação à população feminina. Isso porque a próstata está em uma posição anatômica interna na pelve masculina. Então, os homens dependem de análises de toque feitas pelo médico e de um exame de sangue chamado PSA. Com o cruzamento desses dois dados é possível utilizar outras ferramentas tecnológicas, como ressonância, pet scan e biópsias para tentar confirmar quando há suspeita de câncer.
 
Para falar sobre esse assunto, o Portal BS9 entrevistou o médico urologista de Santos Fábio Atz Guino, de 50 anos. Formado pela Fundação Lusíada em 1997, ele atende no Atz Day Hospital, que é um hospital de cirurgias eletivas, no qual ele realiza cirurgias de câncer de próstata, e outras patologias. Ele é também coordenador de urologia nos hospitais Ana Costa de Santos, Casa de Saúde de Praia Grande e Hospital de Cubatão.
 
1- Qual a importância da campanha Novembro Azul para a saúde do homem?
É uma campanha nacional e essas campanhas sempre têm o objetivo de alertar a população sobre as principais doenças que acometem nossa população e o câncer de próstata não é diferente, está entre elas. Óbvio que o homem ainda tem uma cultura social que é o provedor da família e ele na verdade não se cuida, não se faz prevenção e na maioria das vezes ele acaba tratando apenas doenças que aparecem ou quando se tornam sintomáticas. Só que o câncer de próstata tem um comportamento diferente e não permite esse tipo de conduta. Então a gente aproveita o Novembro não só para falar e abordar o câncer de próstata, mas a saúde masculina como um todo. E essa é a visão e a responsabilidade que o urologista tem que ter quando atende um paciente do sexo masculino que vem para o exame de rotina. Não só abordar, única e exclusivamente a parte do câncer de próstata, mas tantos outros assuntos importantes que podem ser diagnosticados em uma consulta de rotina.
 
2- Esse tipo de câncer tem tratamento? Quais as chances de cura e do que ela depende?
O câncer de próstata tem sim tratamento. Nós como urologistas temos que tentar estratificar esses pacientes, porque tem doenças de baixo, médio e alto risco. Definimos, também, o perfil do paciente. Porque você pode ter pacientes jovens que precisam de tratamento ou pacientes muito idosos que não necessariamente vão necessitar tratar a patologia. Como tratamento, há a cirurgia de extração da próstata, seja ela aberta, laparoscópica ou robótica. Depois, pode ser necessário passar por radioterapia, em casos de câncer localizados da próstata, ou seja, quando no diagnóstico inicial dela você determina ou preconiza que a doença está nas fases iniciais. Agora, se a doença já está localmente avançada ou metastática, quando ela progride e extravasa da próstata, os tratamentos são muitas vezes paliativos e não curativos. Hoje a oncologia caminha a passos largos para a cura e nós temos inúmeras terapias que vão tentar controlar o avanço da doença. Dentro dessas terapias, inicialmente, a gente tenta bloquear a ação de hormônios com a ação da testosterona sobre o câncer prostático, porque ele inicialmente se alimenta da testosterona e depois ele se torna refratário ao bloqueio hormonal. Então, a gente entra com quimioterapia, imunoterapia, e assim vai. Então, nós temos sempre que estratificar e escolher o melhor paciente para o melhor tratamento. As chances de cura da doença estão intimamente relacionadas à precocidade no diagnóstico. Porque quando a gente diagnostica um câncer de próstata nas fases iniciais, temos mais de 90% de cura do câncer de próstata. Já quando é diagnosticada em uma fase mais tardia, quando a doença já está um pouco mais avançada, o tratamento passa a não ser mais curativo. A chance de sobrevida do paciente acaba reduzindo, por você não conseguir atingir todos os focos de onde a doença está. Então você vai fazer um tratamento mais paliativo, e ele tem um tempo estimado de acordo com cada perfil de cada paciente.
 
3- Você acredita que o exame de próstata ainda é um tabu?
Essa questão do tabu do exame de próstata vem caindo ao longo do tempo. A gente ainda utiliza o exame de toque, que talvez seja o exame que exista mais brincadeiras, piadas e preconceito. Mas, sempre que algum paciente nos procura já vem conscientizado da importância de fazer o exame preventivo, porque a doença só se cura nessas fases iniciais. Normalmente vem estimulado pela família ou aqueles pacientes que têm realmente uma consciência muito grande da prevenção na saúde. Mas quando um amigo ou um parente adoece e ele vê o sofrimento que é perder alguém por câncer de próstata, se torna um pouco mais ativo, proativo na pesquisa e no rastreamento. E essas campanhas anuais servem para isso, uma vez que se trata de uma doença extremamente incidente na população masculina e que tem uma chance de cura. Então, a gente tem que abordar e chamar realmente os pacientes para que façam seus exames preventivos.
 
4- Há algum sintoma específico para o câncer de próstata?
O câncer de próstata não dá sintomas na fase inicial da doença. Por isso é tão importante esta campanha, que estimula os homens a procurar o exame preventivo para evitar que a doença se alastre e manifeste sintomas da doença metastática, que é a doença já quando ela não está dentro da próstata. Enquanto ela está localizada, não há sintomas clínicos para você suspeitar da doença.
 
5- Agora falando um pouco sobre sua vida como médico, você sempre soube que seguiria essa carreira?
Eu descobri a medicina quando eu era criança. Mas foi uma coisa espontânea, porque eu não tenho ninguém na família que é médico. Eu me lembro, acho que foi a primeira vez que eu assisti uma cirurgia do coração quando criança nos primórdios da televisão. Eu vi aquilo e me atraiu bastante. Então, ali que eu descobri minha vocação, vamos dizer assim. Eu já estou com 50 anos e me lembro que quando vi isso eu era bem criança. Foi o primeiro instinto que eu tive, e depois eu já sabia o que eu queria e não tive muitas dúvidas, não passei por dramas de saber o que eu queria na vida.
 
6- E por que você escolheu urologia pra se especializar?
A urologia aconteceu no transcorrer da faculdade. A gente passa por praticamente todas as matérias dentro da faculdade, e teve uma colega que estava um ano na minha frente e disse que eu devia pensar em urologia. E aí eu comecei a amadurecer a ideia. Porque inicialmente eu queria fazer cirurgia oncológica, que é para tratar de câncer. Mas, ao longo do tempo, eu fui percebendo que a urologia me possibilitaria também tratar de câncer. Tanto que o câncer de próstata é uma das principais doenças oncológicas, e ela acaba ficando na mão do urologista hoje. E é uma especialidade que me possibilita atender ambos os sexos. Apesar de algumas pessoas acharem que o urologista é o médico do homem, assim como o ginecologista é o da mulher, isso não é verdade. Atendemos homens, mulheres, crianças, adultos, jovens, idosos, então ela te dá um amplo campo de trabalho. E a parte cirúrgica é muito forte, que é o que eu gosto de fazer.
 
7- E quais são os maiores desafios que você enxerga nessa profissão?
Eu acho que o maior desafio é a técnica. Além disso, é compreender realmente o paciente e ser um profissional humano. A humanização na medicina é muito importante. Você se sensibiliza a vida inteira, independente da faixa etária que a gente tenha, independente do tempo de profissão, eu acho que o mais importante é entender e ter a empatia do paciente. Entender aquilo que o paciente está esperando de você. Que ele está depositando toda a confiança naquilo que você pode ajudá-lo. E muitas vezes a gente não consegue curar, mas a gente consegue amenizar o sofrimento. Então eu acho que o maior desafio é a parte psicológica da medicina, que acho que nem todo mundo consegue compreender e lidar com isso.
 
8- Ao longo dos seus 24 anos de profissão, acha que os casos de câncer de próstata aumentaram?

O que acontece é que a população envelheceu. E o câncer de próstata é uma doença, assim como outros tipos de câncer, que acomete em maior incidência indivíduos de idade mais  avançada. E as campanhas, como o Novembro Azul, junto com o acesso à informação e tratamento médico fazem com que se aumente o nível de detecção. Porque se você não pesquisa, não acha. À medida que você começa a procurar e fazer seu check up, você acaba detectando mais. Então eu acho que esse é o principal motivo. Não é que passamos a ter mais câncer. Eu acho que passamos a envelhecer mais, a viver mais e a detectar mais câncer.
 
9- Qual mensagem você deixaria para os nossos leitores homens sobre o assunto?

Acho que a mensagem mais importante que fica é realmente o alerta da alta incidência e prevalência dessa doença na população masculina. Houve uma época que esse exame foi desestimulado, por simplesmente acharem que o tratamento trazia mais danos do que a própria doença. Isso se provou ineficaz porque aumentou muito a mortalidade quando se tentou fazer apenas o tratamento quando os sintomas apareciam, sendo que a gente já havia conseguido um controle melhor da mortalidade pelo câncer de próstata. Essa decisão de tratar ou não e em que fase tratar precisa ser esmiuçado e detalhado, cabendo ao médico urologista que está acompanhando o caso passar os detalhes e as decisões do tratamento. Acho que o mais importante é fazer a sua prevenção e buscar uma vida saudável.

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