Maurício Juvenal
08/06/2026 - segunda às 00h01
Há momentos em que uma pesquisa de opinião mede apenas satisfação ou insatisfação com um governo. Há outros em que ela captura algo mais profundo: uma ruptura política. O levantamento realizado pelo Instituto Badra em Mongaguá, entre os dias 2 e 4 de junho, parece pertencer a esta segunda categoria.
A prefeita Cristina Wiazowski chegou ao comando da Prefeitura em circunstâncias incomuns. Eleita em eleição suplementar, depois da inelegibilidade de Paulo Wiazowski, seu marido e principal liderança política do grupo, ela venceu amparada por uma forte expectativa de renovação. Era a primeira mulher eleita para chefiar o Executivo municipal. Era também a aposta de parte expressiva da cidade em uma virada de página após o desgaste da administração anterior.
Mas a curva de opinião mostra que essa expectativa se desfez com velocidade rara.
Em agosto de 2025, Cristina tinha 57,1% de aprovação e 23,5% de reprovação. Em dezembro, o quadro já havia se invertido: 23,4% aprovavam e 64,0% reprovavam. Em abril de 2026, a reprovação chegou a 76,2%. Agora, em junho, alcança 84,1%, enquanto a aprovação recua para apenas 12,2%.
Não se trata, portanto, de oscilação conjuntural. Trata-se de deterioração contínua.
O dado mais grave, porém, não é apenas a reprovação. Governos podem ser mal avaliados. O ponto politicamente decisivo é que a população parece ter passado a questionar a própria permanência da prefeita no cargo. Segundo a pesquisa, 78,0% dos moradores-eleitores entendem que Cristina deveria pedir afastamento voluntário da Prefeitura. Em outra pergunta, 79,5% afirmam que os vereadores deveriam propor seu afastamento.
Aqui, a crise muda de natureza. Ela deixa de ser apenas administrativa e passa a ser institucional.
Também chama atenção a transversalidade do desgaste. A defesa do afastamento aparece em patamar elevado entre homens e mulheres, jovens e idosos, menos e mais escolarizados. Entre os homens, 79,0% defendem que Cristina se afaste; entre as mulheres, 77,2%. Entre os eleitores de 25 a 44 anos, o índice é de 79,6%; entre os de 60 anos ou mais, 76,7%. Ou seja: não há um único segmento isolado puxando o resultado. O sentimento atravessa praticamente toda a cidade.
O recorte mais expressivo aparece na ocupação. Entre a população ocupada, 86,5% defendem o afastamento voluntário, contra 65,0% entre os não ocupados. No pedido de afastamento pela Câmara, a diferença também é forte: 87,3% entre ocupados, contra 67,6% entre não ocupados. Isso sugere que o desgaste do governo é especialmente intenso entre aqueles que estão mais diretamente conectados à rotina econômica da cidade.
Outro dado é ainda mais revelador. Caso a prefeita se afaste ou seja afastada, 70,1% preferem nova eleição, enquanto apenas 18,0% defendem que o vice-prefeito assuma. Essa resposta indica que a insatisfação não está restrita à figura pessoal de Cristina. Ela atinge o arranjo político que governa Mongaguá.
O eleitor parece dizer: não basta trocar a pessoa na cadeira; é preciso devolver a decisão às urnas.
Mas há uma contradição importante. Quando perguntados espontaneamente em quem votariam se houvesse nova eleição, 46,6% respondem “ninguém” e 43,5% dizem não saber. Quase nove em cada dez eleitores não indicam espontaneamente uma alternativa de poder.
Este talvez seja o ponto mais sofisticado do levantamento. Mongaguá vive, ao mesmo tempo, uma crise de governo e uma crise de representação. O governo perdeu sustentação social. A oposição, por sua vez, ainda não converteu esse colapso em liderança natural.
Cristina Wiazowski venceu como símbolo de renovação. Menos de um ano depois, a cidade parece não discutir mais como seu governo deve continuar, mas se ele deve continuar.
Essa é a mensagem central da pesquisa. E ela é politicamente contundente.

*Maurício Juvenal é jornalista, mestre em Letras, mestrando em Ciências Políticas e Relações Internacionais pelo IDP – Brasília e consultor em análise de dados do Instituto Badra
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