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Valter Batista

Tá difícil comer

Valter Batista - Professor, especialista em gestão pública

20/06/2021 — domingo às 12h19

Tá difícil comer

Para milhões de brasileiros tá difícil comer. O preço dos alimentos disparou e não há previsão de retorno. O desemprego é recorde e também não sabemos se haverá mudança nesse cenário. Estão caros os preços do gás, do combustível, da energia elétrica e, da mesma maneira, não há no horizonte uma tendência de mudança neste triste quadro.

O desenho dessa realidade é doloroso, porque a classe trabalhadora segue como sempre, punida pelos fatos. Enquanto isso tudo acomete duramente a parcela mais pobre da sociedade, do lado de cima, os ricos ficam ainda mais ricos. Acumulam mais ganhos nas Bolsas de Valores e concentram ainda mais riqueza, sendo notícia que enquanto milhões voltaram a viver na miséria, meia dúzia de brasileiros tornaram-se bilionários.

Isso não acontece por acaso. A questão é que o sistema econômico vigente está estruturado para que o resultado seja sempre o mesmo, com os pobres massacrados e os ricos favorecidos. Nossa moeda perde valor frente ao dólar, e com isso, os alimentos produzidos aqui, com nosso Sol, nosso solo e nossa água, ficam supervalorizados para serem exportados. Em vez de termos mais arroz e feijão na mesa, os barões do agronegócio, muitos deles com mandatos em Brasília ou lá representados por deputados e senadores que os defendem, embarcam toneladas de alimentos para a China e Europa. Ganham muito dinheiro com isso. E a gente paga mais caro no supermercado, como se também tivéssemos dólares para isso.

Não tá fácil. O petróleo que encarece no mercado internacional faz com que a Petrobrás, que foi criada pra facilitar nosso desenvolvimento, venda seus produtos a valores astronômicos, porque isso garante ganhos aos seus investidores, e lasquem-se os brasileiros, que têm encarecidos todos os produtos que consomem, porque o frete aumenta na proporção do aumento da gasolina e do diesel. E o gás? Da promessa de que seria mais barato, para a realidade de pessoas optando por cozinhar com lenha, não pelo romantismo do fogão caipira, mas pela impossibilidade de comprar um botijão a quase cem reais.

Se esse sistema fosse mais voltado pra necessidade do povão, certamente o governo reagiria, preservando ao menos em parte a capacidade da gente consumir. O que a gente precisa não é muito, minimamente, dois pratos de comida todos os dias, o que seria garantia de dignidade para todas as pessoas. A questão é que muita gente não sabe mais o que é isso, de modo que fica claro e evidente o quanto a vida tá ficando pior do que antes. E se isso não sinaliza a necessidade de uma mudança urgente, certamente escancara que o projeto deste governo não está conduzindo o país pra um patamar melhor, ao menos pra maioria dos brasileiros, que vivem o pesadelo da piora da qualidade de vida, com o fantasma da fome batendo em suas portas.

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