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O preço da proximidade: o que Milei “ensina” ao Brasil

As concessões econômicas da Argentina aos Estados Unidos levantam uma questão que também interessa aos brasileiros

18/10/2026 — domingo às 10h39

O preço da proximidade: o que Milei “ensina” ao Brasil

Reprodução

As concessões econômicas da Argentina aos Estados Unidos levantam uma questão que também interessa aos brasileiros, ou seja, até que ponto a aproximação entre governos pode favorecer interesses estrangeiros sem assegurar benefícios equivalentes à população nacional?

 

Em economia, assim como na política, nem toda aproximação representa convergência de interesses. Dois governos podem compartilhar convicções ideológicas, celebrar acordos comerciais e anunciar uma parceria estratégica sem que os benefícios dessa relação sejam distribuídos de maneira equilibrada. A experiência recente da Argentina, sob a presidência de Javier Milei, oferece uma oportunidade para refletir sobre essa questão. E o Brasil, diante das propostas econômicas em discussão na eleição presidencial, tem razões para acompanhar atentamente suas consequências.

 

Desde que assumiu a Presidência, em dezembro de 2023, Milei promoveu uma transformação profunda na economia argentina. Adotou um programa de ajuste fiscal, reduziu subsídios, ampliou a abertura comercial, flexibilizou regulações e estabeleceu incentivos para grandes investimentos privados. Os resultados apresentam contrastes importantes. A inflação recuou expressivamente, as contas públicas registraram avanços e a economia voltou a crescer em 2025. Entretanto, setores produtivos enfrentaram dificuldades, empresas deixaram de integrar o cadastro de empregadores e os indicadores sociais continuaram revelando vulnerabilidades significativas. A estabilização macroeconômica, embora necessária, não resolve automaticamente a questão de como seus benefícios são distribuídos.

 

Uma dimensão menos discutida dessa experiência é a relação econômica estabelecida com os Estados Unidos. Em fevereiro de 2026, os dois países assinaram um acordo de comércio e investimentos que prevê ampliação do acesso de produtos norte-americanos ao mercado argentino, incluindo automóveis, máquinas, medicamentos e produtos agrícolas. O entendimento contempla também propriedade intelectual, comércio digital e reconhecimento de padrões regulatórios. Para as empresas norte-americanas, são oportunidades concretas de expansão comercial, redução de obstáculos e maior segurança para suas operações.

 

Não há irregularidade intrínseca nessas concessões. A abertura comercial pode favorecer consumidores, ampliar a concorrência e estimular investimentos. A questão fundamental é saber quais contrapartidas são oferecidas, quais setores são beneficiados e quem suporta os custos de adaptação. Afinal, um acordo comercial não deve ser avaliado apenas pelo volume de negócios que promete gerar, mas também por sua contribuição efetiva ao desenvolvimento econômico e social dos países envolvidos.

 

É nesse ponto que a experiência argentina merece atenção. Em 2025, suas importações cresceram 24,5%, enquanto diferentes segmentos da produção nacional enfrentaram dificuldades diante da concorrência externa. Entre novembro de 2023 e julho de 2026, o país registrou redução de aproximadamente 32 mil empregadores cadastrados. Esses números não demonstram que as empresas norte-americanas tenham provocado diretamente tais perdas, nem que o acordo bilateral, assinado posteriormente, seja responsável por elas. Revelam, contudo, que o processo de abertura e reorganização econômica ocorreu em um ambiente de pressões relevantes sobre parte da estrutura produtiva nacional.

 

Outra iniciativa merece exame. É o caso do Regime de Incentivo para Grandes Investimentos, conhecido como RIGI. Instituído em 2024, ele oferece benefícios tributários, aduaneiros e cambiais para projetos de grande porte, além de estabilidade fiscal por três décadas. Empresas estrangeiras, inclusive norte-americanas, podem beneficiar-se dessas condições. A lógica é atrair capital, ampliar investimentos e estimular atividades estratégicas. Mas o regime também suscita uma pergunta legítima pra lá de legítima. Qual parcela da riqueza produzida permanecerá na Argentina, sob a forma de arrecadação, empregos qualificados, inovação e desenvolvimento de fornecedores locais? Incentivos fiscais podem ser instrumentos de crescimento. Sua qualidade depende dos resultados que proporcionam à sociedade.

 

Há ainda uma dimensão particularmente sensível e que trata da autonomia das decisões econômicas. O acordo entre Argentina e Estados Unidos prevê compromissos de alinhamento em determinadas medidas relacionadas à segurança econômica e nacional norte-americana. Também estabelece regras para o comércio digital e limita a adoção de tributos discriminatórios contra empresas dos Estados Unidos. Não se trata de uma renúncia integral à soberania argentina, mas de compromissos que podem reduzir a liberdade de formular certas políticas futuras. E essa é uma questão central para qualquer país, isto é, perceber até onde vale conceder vantagens imediatas em troca de restrições duradouras à capacidade de decidir.

 

É importante reconhecer que a Argentina também negociou benefícios para suas exportações e que os efeitos definitivos do acordo ainda dependem de sua implementação. Portanto, não seria rigoroso concluir que o país sofreu prejuízo econômico líquido apenas porque concedeu vantagens a Washington. O que os documentos demonstram é a existência de benefícios específicos aos interesses norte-americanos e de escolhas que precisam ser examinadas à luz de suas consequências para a economia argentina.

 

Essa discussão ganha relevância no Brasil diante da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. Sua agenda econômica apresenta pontos de convergência com a orientação liberal adotada por Milei, especialmente nas propostas de ajuste fiscal, redução da intervenção estatal, privatizações e reformas administrativas. Isso não significa que exista um compromisso de reproduzir integralmente o modelo argentino ou de negociar com os Estados Unidos um acordo semelhante. A comparação pertinente não está na identidade dos programas, mas nas consequências possíveis de determinadas escolhas.

 

O Brasil possui características econômicas muito diferentes das argentinas. Dispõe de um mercado consumidor maior, uma estrutura industrial mais diversificada, uma agricultura altamente competitiva e relações comerciais relevantes com diferentes regiões do mundo. Essas características oferecem oportunidades, mas também tornam particularmente importantes as decisões sobre tarifas, investimentos, política industrial e acordos internacionais. Uma abertura comercial negociada com equilíbrio pode beneficiar a economia brasileira. Uma abertura assimétrica, sem contrapartidas adequadas e sem atenção à capacidade de adaptação da produção nacional, pode comprometer empregos, arrecadação e investimentos em determinados setores.

 

A experiência recente das relações comerciais com os próprios Estados Unidos recomenda prudência. Em 2025, os norte-americanos registraram superávit de US$ 14,4 bilhões no comércio de bens com o Brasil. Apesar disso, Washington adotou medidas tarifárias restritivas contra produtos brasileiros. O episódio demonstra que afinidade política, parceria diplomática ou mesmo uma balança comercial favorável aos Estados Unidos não garantem tratamento comercial privilegiado ao parceiro. Na economia internacional, interesses nacionais continuam exercendo influência decisiva sobre as escolhas dos governos.

 

Não se trata, portanto, de defender o isolamento econômico ou de atribuir aos investimentos estrangeiros uma natureza prejudicial. O capital internacional pode gerar desenvolvimento, transferir tecnologia, ampliar a produção e criar oportunidades. Tampouco se deve ignorar a importância da responsabilidade fiscal, da eficiência administrativa e da estabilidade monetária. A questão está em compreender que nenhuma dessas políticas constitui um fim em si mesma. Seu valor precisa ser medido também pela capacidade de melhorar as condições de vida da população.

 

Para o trabalhador, pouco importa se determinado programa econômico é apresentado como liberal, desenvolvimentista ou reformista. Importam as oportunidades de emprego, o poder de compra, a qualidade dos serviços públicos e a possibilidade de construir uma vida melhor. Para o empresário nacional, importam condições de concorrência, acesso a crédito, segurança jurídica e perspectivas de crescimento. Para o país, importa preservar a capacidade de transformar suas riquezas em desenvolvimento duradouro.

 

O caso argentino não autoriza conclusões simplistas. Milei obteve resultados relevantes na estabilização econômica, mas enfrenta desafios sociais e produtivos que não podem ser ignorados. Suas concessões aos Estados Unidos oferecem vantagens identificáveis a empresas e setores norte-americanos, embora ainda não esteja demonstrado que tenham produzido perdas líquidas equivalentes para a Argentina. Essa distinção é indispensável para uma avaliação responsável.

 

O debate brasileiro deveria começar exatamente aí, ou seja, identificar quais benefícios concretos uma política econômica oferece ao país, quem os recebe, quais custos impõe e quem os paga. São pontos que precisam ser analisados por qualquer governo, independentemente de sua orientação política.

 

A experiência de Milei ensina que a proximidade entre presidentes pode facilitar negociações, mas não substitui a defesa criteriosa dos interesses nacionais. O desafio de um governante não é escolher entre aproximar-se ou afastar-se de uma potência econômica. É negociar de modo que a relação produza benefícios efetivos para sua própria sociedade.

 

Porque, ao final, a qualidade de uma política econômica não se mede pelo entusiasmo dos investidores estrangeiros, pelos aplausos de outro governo ou pela afinidade entre seus presidentes. Mede-se também pela prosperidade que consegue produzir para a população que deverá conviver com suas consequências.

 

Maurício Juvenal é jornalista, mestre em Letras e mestrando em Ciência Política e Relações Internacionais pelo IDP de Brasília. É secretário nacional de Ambiente de Negócios, no Ministério do Empreendedorismo, e foi secretário estadual de Planejamento e Gestão do Estado de São Paulo.

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