Quinta, 15 de outubro de 2026

Santos

22ºC

ARTIGO DO DIA

Antes da inteligência artificial, houve um professor

A afirmação está longe de ser apenas uma homenagem

14/10/2026 — quarta-feira às 21h01

Antes da inteligência artificial, houve um professor

Antes da inteligência artificial, houve um professor

Há algo de extraordinariamente simbólico em celebrar o Dia dos Professores justamente quando a humanidade experimenta uma das maiores transformações de sua história, ou seja, a ascensão da inteligência artificial. Nunca tivemos tanto conhecimento disponível, tantas respostas ao alcance das mãos, tamanha capacidade de processar informações. Mas, em meio a essa revolução, talvez estejamos diante de uma oportunidade singular de reconhecer uma verdade que a velocidade das inovações pode fazer passar despercebida. Antes de qualquer inteligência artificial, houve a inteligência humana. E, na formação dessa inteligência, houve sempre um professor.

 

A afirmação está longe de ser apenas uma homenagem. É também uma constatação histórica. As grandes conquistas da humanidade, da medicina à engenharia, da filosofia à computação, são resultados de conhecimentos construídos, compartilhados e aperfeiçoados ao longo de gerações. Nenhum cientista começou sua trajetória sabendo interpretar o mundo. Nenhum pesquisador nasceu dominando a linguagem matemática. Nenhum engenheiro chegou à universidade sem antes aprender a ler, escrever, perguntar e raciocinar. Por trás das descobertas que transformaram a civilização, existe uma imensa e frequentemente anônima sucessão de professores.

 

No Brasil, essa presença assume dimensões monumentais. São milhões de profissionais dedicados à educação básica, responsáveis por uma tarefa que ultrapassa em muito a transmissão dos conteúdos escolares. Ensinam matemática e língua portuguesa, mas também convivência, respeito, responsabilidade e pensamento crítico. Ajudam crianças e jovens a compreender não apenas como o mundo funciona, mas como podem participar dele. A educação, afinal, não é somente um instrumento de qualificação profissional. É uma das principais condições para o exercício da cidadania, para a mobilidade social e para a construção de uma sociedade democrática.

 

É nesse contexto que a inteligência artificial precisa ser compreendida. Não como antagonista da escola, tampouco como concorrente do professor, mas como uma nova e poderosa expressão da capacidade humana de produzir conhecimento. A tecnologia pode organizar conteúdos, personalizar exercícios, traduzir idiomas, identificar dificuldades de aprendizagem e oferecer caminhos alternativos para a compreensão de temas complexos. Pode, inclusive, liberar tempo dos educadores para aquilo que exige maior atenção individualizada. Trata-se de um avanço extraordinário, cujas possibilidades merecem ser exploradas com entusiasmo, responsabilidade e inteligência pedagógica.

 

A própria comunidade acadêmica vem reconhecendo esse potencial. Em seu relatório sobre perspectivas da educação digital de 2026, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) observa que a inteligência artificial generativa pode favorecer a aprendizagem quando orientada por objetivos pedagógicos claros. O documento distingue, contudo, a capacidade de produzir respostas da efetiva construção do conhecimento. Realizar uma tarefa com auxílio tecnológico não significa, necessariamente, compreender aquilo que foi realizado. É justamente nessa diferença que a presença do professor se torna decisiva.

 

A Unesco, por sua vez, sustenta que a tecnologia educacional deve fortalecer a interação humana, e não ocupar seu lugar. Em 2024, a organização apresentou um referencial de competências em inteligência artificial para docentes, contemplando conhecimentos técnicos, fundamentos pedagógicos e dimensões éticas. O reconhecimento é significativo ao propor que a transformação digital da educação não prescinde dos professores. Ao contrário, exige que sejam preparados, valorizados e incorporados às decisões sobre como as novas ferramentas devem ser utilizadas.

 

Existe, portanto, uma complementaridade promissora. A inteligência artificial pode ampliar o repertório de quem ensina e de quem aprende. O professor, por sua vez, oferece direção, contexto, interpretação e sensibilidade. Uma ferramenta pode apresentar diferentes explicações para um mesmo problema matemático. Mas é o educador quem percebe que determinado aluno não precisa apenas de outra explicação, muito mais, precisa recuperar a confiança na própria capacidade de aprender. A tecnologia pode disponibilizar milhares de textos sobre democracia. Mas é na experiência educativa, no debate respeitoso e no confronto de argumentos que o estudante começa a compreender o significado de viver democraticamente.

 

Talvez seja essa uma das dimensões mais importantes e menos mensuráveis da profissão. Todos guardamos, em algum lugar da memória, a lembrança de um professor que nos apresentou uma possibilidade antes desconhecida. Às vezes, foi uma palavra de incentivo. Outras vezes, uma exigência que parecia excessiva, uma pergunta desconcertante ou uma demonstração de confiança quando ainda duvidávamos de nós mesmos. Há professores que nos ensinaram conteúdos que esquecemos. Mas há aqueles que nos ensinaram a pensar, e isso permanece.

 

Paulo Freire compreendia a educação como uma prática profundamente humana, fundada no diálogo e na construção da autonomia. Sua contribuição continua especialmente atual. Se o acesso à informação se tornou praticamente instantâneo, a capacidade de interpretá-la, questioná-la e transformá-la em conhecimento adquiriu importância ainda maior. Ensinar não é simplesmente oferecer respostas corretas. É desenvolver a capacidade de formular boas perguntas, reconhecer contradições, compreender diferenças e construir juízos próprios. É formar pessoas capazes de exercer a liberdade com responsabilidade.

 

Essa reflexão também impõe uma responsabilidade ao Brasil. Não basta celebrar professores uma vez por ano enquanto persistirem dificuldades relacionadas à valorização profissional, às condições de trabalho, à formação continuada e às desigualdades educacionais. Um país que deseja participar da economia do conhecimento precisa compreender que sua capacidade de inovação começa muito antes dos laboratórios de tecnologia. Começa na alfabetização bem realizada, na escola que acolhe, no professor que dispõe de condições para ensinar e no estudante que encontra oportunidades reais para desenvolver seu potencial.

 

A chegada da inteligência artificial torna esse compromisso ainda mais necessário. Quanto mais sofisticadas forem as ferramentas disponíveis, maior será a importância de preparar pessoas capazes de utilizá-las com discernimento, criatividade e consciência ética. O futuro da educação não precisa ser pensado como uma escolha entre professores e tecnologia. O caminho mais promissor está na combinação entre a extraordinária capacidade das máquinas de processar informações e a insubstituível responsabilidade humana de atribuir significado ao conhecimento.

 

Há, finalmente, uma justiça histórica que merece ser reconhecida neste 15 de outubro. Os cientistas que desenvolveram os sistemas de inteligência artificial tiveram professores. Também os tiveram os matemáticos que formularam seus fundamentos, os pesquisadores que aperfeiçoaram seus algoritmos e os profissionais que construíram a infraestrutura tecnológica que hoje surpreende o mundo. A mais avançada expressão da inteligência computacional é, em alguma medida, herdeira de incontáveis salas de aula, de livros abertos, de perguntas respondidas com paciência e de conhecimentos transmitidos de uma geração à seguinte.

 

Talvez nunca tenhamos disposto de tantas máquinas capazes de responder às nossas perguntas. Mas continuamos precisando, tanto quanto antes, de pessoas que nos ensinem a perguntar, a compreender e a pensar.

 

A inteligência artificial é uma das mais impressionantes realizações do nosso tempo. O professor é parte essencial da história humana que tornou essa realização possível.

 

E, se hoje as máquinas parecem capazes de nos ensinar tantas coisas, convém não esquecer quem primeiro nos ensinou a aprender.

 

 

Maurício Juvenal é jornalista, ex-professor universitário, mestre em Letras e mestrando em Ciência Política e Relações Internacionais pelo IDP de Brasília. É secretário nacional de Ambiente de Negócios, no Ministério do Empreendedorismo, e foi secretário estadual de Planejamento e Gestão do Estado de São Paulo.

Leia Mais

ver todos

Badra nas urnas: quando a técnica fala mais alto

ARTIGO DE OPINIÃO

Badra nas urnas: quando a técnica fala mais alto

Presidente assina decreto que recompõe benefícios do Bolsa Família em 15%

BOLSA FAMÍLIA

Presidente assina decreto que recompõe benefícios do Bolsa Família em 15%

Antes do voto, olhe além da tela do celular

ARTIGO

Antes do voto, olhe além da tela do celular

2
Entre em nosso grupo