Helquemim Maber
Helquemim Maber - Professor e diretor do Villa Mondo Espaço Cultural
08/07/2021 — quinta-feira às 08h13
Ainda muito cedo me acostumei com milagres. Foi uma das professoras do jardim de infância que, logo nos primeiros dias de aula, me fez pegar um copinho descartável e colocar nele um feijão no algodão, embebido de água.
Instalado na pequena janela da sala de aula, observei atentamente todo um processo que, na minha infância, pareceu enorme. Hoje, tenho a clareza do quão rápido foi. O feijão ganhou vida, cresceu em busca das alturas: verde, simpático e forte. Até nome recebeu naquela época. Ansiava chegar à escola só para ver como ele estava. Eu tinha o meu pé de feijão que pouco a pouco perdeu força, começando a tombar. Presenciei, assim, a primeira morte de todas. Jazia então minha descoberta: a vida.
Minha família jamais escondeu de mim o poder da vida e o poder da morte. Não me recordo exatamente quem foi o primeiro ser humano que vi morrer. Provavelmente o vizinho de porta que, ainda jovem, deixou a família em decorrência de um acidente de moto. Os anos 80 eram arriscados demais e o capacete não era um equipamento, à época, considerado de extrema importância, como é hoje.
É possível, também, que tenha sido a vizinha polonesa que morava no andar de cima, idosa, que foi apagando sua luz e partiu. Vítimas de acidentes eu vi muitas pela janela, assim como os telegramas anunciando o falecimento de parentes distantes. Sem contar o noticiário da televisão, dando conta da morte de famosos, para desconsolo geral.
Plantas, animais, pessoas e esperanças morrem. Hoje, aos 44 anos, contabilizo ter assistido várias passagens, mas todas elas muito espaçadas. Isso significa que tive tempo para perder partes e recompô-las dentro de mim. E olha, se há uma parte regenerável no ser humano essa parte é o coração. Gostaria de dizer que é a mente, porém não seria nem poético e muito menos concreto. Já na mente resta sempre um espaço que será o da memória. Na mente ninguém morre enquanto tivermos com clareza a visão do ser que se foi.
Pois bem, aos 44 anos eu assisto este fenômeno de pelo menos uma vez por dia receber a notícia de gente que se foi ou que está indo. Gente próxima ou próxima de meus próximos. E numa retrospectiva recordo que no primeiro momento da pandemia tudo estava tão distante de nós que até piadas foram feitas ou criadas. Agora não dá mais para rir.
Agora tem a fila da vacina, é verdade, mas os dias que a antecedem são justamente, muitas vezes, aqueles fatais. Assim como os dias após a primeira dose, ou seja, até que ela cresça neste algodão molhado, desta feita embebido por álcool.
Há muito para se fazer diante da morte. A ciência nos ensinou tanto que as professoras começaram a usar vasos de terra adubada. Os aparelhos desenvolvidos pela medicina podem nos manter até o ponto certo da passagem. As vacinas diminuem os riscos. A máscara virou armadura na guerra.
Vida e morte são milagres. Nos acostumamos com a vida. Devemos fazemos um esforço para nos acostumarmos também com a morte. Mas somente aquela da hora certa. Depois que fizermos tudo o que estiver ao nosso alcance e a hora definitiva chegar.
O que não podemos é nos anestesiarmos diante das injustiças. Todos nós conhecemos nacionalmente muitos casos brutais de vidas tiradas antes da hora natural. E muitos de nós já jogamos palavras no ar: já chega, não aguento mais falar nessa história.
Se eu agora te desse mais de 500 mil reais você certamente contaria cada nota e chegaria à última. Mas se eu te disser mais de 500 mil nomes você jamais saberá contabilizar a dor. Por uma razão muito simples: quando este número é falado, ninguém sabe exatamente quanta vida existia no entorno. Quantas pessoas morrem um pouco quando alguém morre.
Meu coração sentiu pouco a pouco a dor da passagem. Feijão, pessoas, animais de estimação, crimes nacionais, acidentes... 44 agora tem peso de uns 80 se observarmos ao redor e com amor a perda desta batalha que, ao final da história, não terá sequer um vencedor.
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