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MEMÓRIA E LEGADO

Histórias das revoluções de São Paulo

Da defesa da Constituição aos episódios pouco conhecidos da Revolução de 1932, uma viagem pelos fatos, personagens e curiosidades que marcaram um dos capítulos mais importantes da história paulista.

Robson de Castro

Robson de Castro

10/07/2026 — sexta-feira às 19h24

Histórias das revoluções de São Paulo

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O dia 9 de julho ocupa um lugar especial na memória paulista. Foi nessa data, em 1932, que teve início a Revolução Constitucionalista, o maior conflito armado ocorrido no Brasil durante o século XX.

 

O movimento surgiu em oposição ao Governo Provisório de Getúlio Vargas, instalado após a Revolução de 1930. Naquele momento, o país estava sem Constituição e os estados haviam perdido boa parte de sua autonomia política. A principal reivindicação dos constitucionalistas era a convocação de uma Assembleia Constituinte que devolvesse ao Brasil a normalidade institucional e o Estado de Direito.

 

Ao longo das décadas, surgiram interpretações diferentes sobre o conflito. Alguns historiadores destacam também os interesses políticos e econômicos das elites paulistas da época. Porém, não há evidências de que a separação de São Paulo do Brasil tenha sido o objetivo oficial do movimento. O lema que mobilizou milhares de voluntários era a defesa de uma nova Constituição para o país.

 

A mobilização foi gigantesca. Homens e mulheres participaram do esforço de guerra. Fábricas foram adaptadas para produzir equipamentos militares, campanhas de arrecadação foram organizadas e cidades inteiras se envolveram no conflito.

 

Um dos símbolos do movimento foi o MMDC, sigla formada pelas iniciais de Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo, jovens mortos durante manifestações contra o governo federal em maio de 1932. A morte dos estudantes aumentou a indignação popular e ajudou a impulsionar o levante que começaria semanas depois.


AS MULHERES NA REVOLUÇÃO

Embora não tenham participado dos combates em grande escala, as mulheres exerceram papel fundamental durante a Revolução Constitucionalista.

 

Milhares de voluntárias atuaram como enfermeiras, costureiras, arrecadadoras de recursos e organizadoras da retaguarda, além de trabalharem na produção de uniformes, medicamentos e suprimentos destinados às tropas paulistas. Diversas cidades organizaram ligas femininas para apoiar o esforço constitucionalista.

 

Entre os nomes mais conhecidos está o da médica Carlota Pereira de Queirós, que coordenou equipes de atendimento aos feridos durante o conflito. No ano seguinte, ela seria eleita a primeira deputada federal do Brasil e integraria a Assembleia Nacional Constituinte responsável pela elaboração da Constituição de 1934.

 

A participação feminina foi essencial para manter a estrutura de apoio da Revolução e tornou-se um dos capítulos mais importantes — e menos lembrados — da história de 1932.


CRUZEIRO, A CIDADE DA LINHA DE FRENTE

Entre os municípios paulistas mais ligados à Revolução Constitucionalista, poucos têm uma relação tão forte quanto Cruzeiro.

 

Localizada na divisa entre São Paulo e Minas Gerais, a cidade tornou-se uma das principais frentes de combate do conflito. Sua posição estratégica e a presença da ferrovia fizeram do município um importante centro logístico para transporte de tropas, armamentos e suprimentos.

 

Muitos dos combates mais intensos ocorreram na região do Vale do Paraíba, transformando Cruzeiro em um dos principais símbolos da resistência paulista.


SANTOS, SÃO VICENTE E O LITORAL NA GUERRA

O litoral também teve participação importante na revolução.

 

Santos enviou milhares de voluntários para os campos de batalha e promoveu campanhas de arrecadação para sustentar o esforço de guerra. São Vicente e outras cidades da Baixada Santista também contribuíram com combatentes e apoio logístico.

 

O envolvimento da população foi tão grande que praticamente todas as regiões do estado acabaram representadas nos batalhões constitucionalistas.

 

A BALEIA GRÁVIDA DE PRAIA GRANDE

Entre os episódios mais curiosos - e também mais tristes - da Revolução de 1932 está a história da chamada Baleia Grávida.

 

Na região da atual Praia Grande, uma baleia grávida encalhou na costa durante o período do conflito. O animal acabou sendo confundido por aviadores federais com um possível alvo militar e foi bombardeado.

 

O episódio entrou para o folclore histórico do litoral paulista e permanece como uma das passagens mais inusitadas ligadas à revolução.

 

O BOMBARDEIO DA USINA HENRY BORDEN

Outro alvo importante foi a Usina Henry Borden, em Cubatão.

 

Responsável por fornecer energia para grande parte da atividade econômica paulista, a usina possuía valor estratégico para os constitucionalistas. Durante o conflito, instalações da região sofreram ataques das forças federais, que buscavam enfraquecer a capacidade de resistência do estado.

 

SANTOS DUMONT E A TRAGÉDIA NO GUARUJÁ

Poucos dias após o início da revolução, o Brasil perdeu um de seus maiores nomes.

 

Em 23 de julho de 1932, Alberto Santos Dumont tirou a própria vida enquanto estava hospedado no Guarujá.

 

Abalado por problemas de saúde e profundamente entristecido pelo uso militar dos aviões em um conflito entre brasileiros, o inventor não resistiu ao sofrimento emocional. Sua morte ocorreu em meio aos acontecimentos da revolução e se tornou um dos episódios mais marcantes daquele período.


O OBELISCO E O SIGNIFICADO DO NÚMERO 9

O principal monumento da Revolução Constitucionalista é o Obelisco do Ibirapuera, em São Paulo.

 

Ali estão sepultados combatentes de 1932, incluindo integrantes do MMDC.

 

A própria concepção simbólica do monumento mantém relação com o número 9, referência direta ao dia 9 de julho, data de início do movimento. O obelisco tornou-se um dos maiores marcos da memória constitucionalista paulista e um dos monumentos mais importantes do estado.


A REVOLUÇÃO ESQUECIDA DE 1924

Quando se fala em guerras ocorridas em São Paulo, quase toda a atenção costuma ficar com 1932. Mas oito anos antes aconteceu um conflito igualmente marcante.

 

Em julho de 1924, militares ligados ao movimento tenentista iniciaram uma revolta contra o governo federal e ocuparam a capital paulista.

 

A reação foi violenta. A cidade de São Paulo sofreu bombardeios de artilharia e ataques que atingiram áreas urbanas, provocando centenas de mortes e milhares de desabrigados. Muitos historiadores consideram esse episódio um dos mais graves ataques já sofridos pela capital paulista.

 

O movimento acabou dando origem à Coluna Miguel Costa-Prestes, que atravessaria o Brasil nos anos seguintes.

 

Apesar de sua enorme relevância histórica, a Revolução de 1924 acabou sendo ofuscada pela memória da Revolução Constitucionalista de 1932 e hoje é pouco conhecida pela maioria dos brasileiros.

 

 

UM LEGADO QUE PERMANECE

Militarmente, São Paulo foi derrotado em 1932. No entanto, o movimento ajudou a pressionar o governo federal pela convocação da Assembleia Constituinte que elaboraria a Constituição de 1934.

 

Mais de nove décadas depois, a Revolução Constitucionalista continua presente em monumentos, museus, nomes de avenidas, memoriais e na identidade histórica paulista.

 

Mais do que uma guerra, ela se transformou em símbolo da defesa das instituições, da participação popular e da busca por representação política em um dos períodos mais conturbados da história do Brasil.
 

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