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O makuxi que encantou

Clau Moreira Ramos - Trabalha com políticas culturais e nas horas vagas escreve sobre o que vê e sente

23/11/2021 — terça-feira às 13h13

O makuxi que encantou

                                                                                                                                                                     Em memória de Jaider Esbell, encantador encantado num canto da gente,
                                                                                                                                                                         que nasceu em algum dia de 1979, e partiu em 2 de novembro de 2021.
 

Encantar tem sentidos diferentes para culturas diferentes. Para o povo da minha avó, se dizia que é preciso ser muito bom e forte para ter essa coragem. Morrer seria uma passagem de alegria para merecedores. Por isso quem fica chora a saudade, mas quem vai quase sempre deixa no rosto um semblante sereno como última imagem.
 
A maioria de nós sabe que não merece ainda, que precisa aprender mais da mata em torno. Outros apenas não sentem que são fortes o bastante para a passagem. Às vezes ela vem difícil, uma última chance para fortalecer quem precisa ir.
 
Ninguém sabe direito essa hora, mas o chão sabe; o ar sabe; as folhas e a vida que vive também; então a gente precisa aprender a ler o chão e o ar e as folhas e a vida que vive, para sentir o tempo nosso inteiro aqui e, quem sabe, um cadinho do que está por vir. Cada dia é um encontro de eternidades que pode ser imenso se a gente perceber. Cada unzinho – se diz, como se dizia.
 
Cada dia é um encontro com tudo o que vive e, se você tiver pele para sentir, também é um encontro com quem já foi, mas às vezes passa por aqui e te percebe. Às vezes é só um sopro de saudade porque o tempo nosso demora; às vezes é um filho do vento perdido e você precisa descobrir como ajudar, e tem vez que é aviso da hora de alguém chegando. Nem sempre a sua. De repente a sua.
 
É muita coisa que a gente não sabe de entender tudo, mas pode aprender a perceber, a sentir num pelo que estica ou num gostinho daquela fruta boa que chega num cheiro de mato do além, mesmo na cidade pedra. Tudo isso tem a ver com encantamento.
 
Não tem como a gente saber o tempo de cada um aqui, nem sei dizer de todas essas histórias mágicas o quanto podem ser consolo ou esperança. Talvez não possam. Não é para isso que servem mesmo. Elas contam daquilo que está no ar, no cheiro de chuva, na pedra topada, naquele besouro verde que pousou na janela inda agorinha e já voou. É ensinamento para aprender percebimento. Coisa de sonho. Essas coisas que fazem a gente saber de algum modo que a arte vida dessa pessoa – homem artista, ser humano indígena, conterrâneo nosso de Brasil, um contemporâneo que viveu até ontem no tempo da gente, irmão nosso de invernada – prossegue em outra lida agora.
 
Isso quer dizer que tudo bem? Isso explica? Justifica? Não tenho ganas de justificação. A vida acabar nunca parece algo compreensível de todo e, por mais que seja destino de cada um, sempre lhe falta a gentileza de não ser bem naquela hora, qualquer hora. A vida acabar pela própria mão, então… há quem diga que é pecado. Amaldiçoados, os julgadores já foram por eles próprios - o que podemos dizer disso, então? No mais, a gente nem sabe quase nada do que terá se passado. Esses são assuntos que a cultura da gente não conta nem explica muito, para não a(s)cender ideias...
 
O que sabemos da vida quando e como ela acaba? O que podemos saber na vida quando acaba assim?
 
Para quem não é o outro, talvez nada justifique a alheia decisão extrema. A conjuntura é só o agravante - a combater, a transformar, a modificar para honrarmos a todos nós e as nossas perdas – mas ainda assim, “apenas” o agravante.
 
É pouco?
 
Faz diferença?
 
O que lhe dizem a brisa e o céu pontilhado das nuvens desse hoje nosso, meu e teu, nosso? Há quem vá afirmar que, aqui acabada, a vida findou-se. Virou passado, história, rumando, quem sabe, para ser lenda; quem sabe, para ser página; quem sabe, para ser nada. Para mim, os sussurros dos mundos me dizem que a arte vida dele segue outra voada, outra toada, outros mistérios, enquanto a gente segue nesta luta. O encontro dele com a gente não acabou. Apenas mudou de lugar.

Para conhecer um pouquinho de Jaider Esbell:
http://www.jaideresbell.com.br/site/sobre-o-artista/
https://amazoniareal.com.br/morte-de-jaider-esbell/
http://34.bienal.org.br/artistas/7339
https://br.pinterest.com/areasanderson/jaider-esbell-makuxi/
https://www.youtube.com/watch?v=UCt6ioSD_2Y&ab_channel=RedeTVT

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal BS9
 

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