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Preto planta

Clau Moreira Ramos - Trabalha com políticas culturais e nas horas vagas escreve sobre o que vê e sente

23/08/2021 — segunda-feira às 13h05

Preto planta

A confusão começou porque encontraram no chão do edifício do congresso um papel e no papel estava escrito “preto planta”.
 
Preto planta, nobres colegas!
 
Mano, preto planta...!
 
Fala sério... Preto planta?!
 
Ninguém nunca mais se entendeu.
 
A galera do preto-ativismo em peso taxou: preconceito!! Tem de apurar e multar e prender para dar exemplo.
 
O povo preto-moda disse que era a afirmação do pretismo-raiz.
 
Sem noção isso, disse um crítico feicebuquíco dos mais influencers. Óbvio que é sobre abusos da bancada agrária.
 
Os agro rebateram que preto planta, mas branco também. “E amarelo!”, gritaram em coral os do cinturão.
 
Só pode ser coisa da corrente eco, disse outro expert, ao que os verde-sustentabilistas rebateram: nem vem; devastação é obra de todas as cores humanas.
 
O professor de arte da escola primária com pendor para o romantismo arriscou: E se for uma nova cor?
 
O curador artístico-conceitual inviabilizou: não cabe neste zeitgeist.
 
Começou como discussão.
 
Depois correu solta a verbo-porradaria.
 
À especulação julgatória em todas as mídias seguiu-se a tardia e duvidosa investigação policial de costume.
 
As manchetes acusatórias muito imparciais da imprensa de situação demonstravam claros incontestáveis indícios da culpa da oposição.
 
As manchetes acusatórias muito imparciais da imprensa de oposição demonstravam evidentes inquestionáveis indícios da culpa da situação.
 
A polícia, sem recurso e pressionada, prendia de um tudo.
 
A justiça, regiamente comprometida, a todos e todas e todes soltava.
 
No fundo, todo mundo sabia, inocentes ali, não havia – então para que o risco de prender e vai quê...?
 
Na internet foi a barbárie.
 
A barbárie sem sangue e sem músculos é boa de ocupar tempo.
 
Barbárie entretenimento.
 
Preto planta virou acusação gravíssima.
 
Meme.
 
Motivo de textão, rompimento e bloqueio.
 
O mundo, como sempre, nunca mais foi o mesmo. Por um tempo.
 
Cido, faxineiro sanfoneiro sexagenário que aprendia a escrever e perdera, numa distração no trabalho, um dos papeletes do bloquinho que tinha comprado para fazer a nem bem começada tarefa de lição de casa da videoaula construtivista – “escrever as palavras que conhecia com a letra p” – nunca soube da investigação nem da discórdia.
 
Analfabeto que fora a vida toda, não houve quem suspeitasse que pudesse aprender e ser autor do que quer que fosse, quanto mais algo assim, tão polêmico, tão subversivo. Afinal era velho. Era nortista. Era aluno de educação à distância. Nem sequer tinha tempo para tevê e o mais básico absurdo: sequer tinha rede social.

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