Clau Moreira Ramos - Trabalha com políticas culturais e nas horas vagas escreve sobre o que vê e sente
23/07/2021 — sexta-feira às 09h40
A obsolescência programada que precisamos combater
e a obsolescência necessária que precisamos programar
Nem oito nem oitenta. Qualquer bom coach hoje em dia fala das virtudes do equilíbrio. Nenhuma novidade. Quantos de nós não aprendemos desde a infância que um doce pode ser uma vontade que cria tristeza se nunca estiver ao seu alcance; uma delícia que deixa alegria e saudade, se comer na medida certa; ou garantia de uma baita dor de barriga, se você exagerar?
Mas essa é daquelas típicas lições que todo mundo decora, mas é tão difícil por em prática!... Especialmente nesses tempos complicados, de pandemia matando, isolamento e protocolos impedindo abraços, crise econômica aumentando carências e precariedades.
Nesse cenário doloroso, um aspecto da realidade produtiva tem chamado cada vez mais a atenção. Você certamente já notou. Com tudo cada vez mais caro e essa dificuldade crescente para conseguir ganhar dinheiro, a gente observa com desânimo que, além de todas as despesas obrigatórias da vida – as contas de água, luz, gás, comida e afins – cada vez mais surgem novas contas com coisas que não deviam durar tão pouco.
Sabe aquela máquina de lavar que nem completou dois anos e já precisa trocar a placa digital que custa quase a metade de uma lavadora nova? Aquele celular que, assim que fez o primeiro aniversário, começou a ficar lento e a travar “do nada”...? Sem falar de tantos outros utensílios em geral que quebram, pifam e dão defeitos variados... “do nada”. Ah, e a maioria dos problemas começa, nessas “coincidências” da vida, logo depois que expira o prazo de garantia... (Mas, sejamos justos, em muitos casos, até antes!)
É a chamada obsolescência programada. Muitos aparelhos, equipamentos e bens diversos são produzidos e testados para durar exatamente um pouquinho mais do que a garantia dada. Assim, você fica obrigado a comprar um novo logo. No mundo dos celulares, isso é agravado pelo fato de que os fabricantes inserem novidades que valem apenas para os novos modelos e que se tornam “imprescindíveis” para quem quer ter uma boa comunicação. Ou status... Ou a sensação de estar em dia... São fábricas de desejo que nos levam a acreditar que não viveremos bem sem aquela novidade!...
Tudo isso torna ainda mais difícil a vida da trabalhadora e do trabalhador. Não bastam os boletos que nunca param de chegar, vêm as parcelas de crediário de coisas que antigamente duravam dez anos ou mais! Era assim que a gente calculava se um aparelho era bom antigamente. “Durou dez anos? A marca compensa. Menos que isso, nem pensar” – minha mãe calculava assim. Imagine aplicar essa lógica hoje em dia...
Mas e se gente quiser aplicar essa lógica hoje em dia?
E se a gente recusar bens feitos para não durar?
Com certeza, não é falta de tecnologia o que impede as empresas de fabricarem produtos melhores e mais duráveis. É nossa aceitação de que “é assim mesmo; não tem jeito” que facilita tudo para elas. E se nós começarmos a prestar mais atenção no tempo de duração das coisas?
Muitos de nós temos o hábito de pesquisar com amigos e familiares antes de comprar uma nova tv, um guarda roupa... E se incluirmos o quesito “durabilidade” nessas consultas? E se a gente levar em conta a duração dos bens antes de fazer novas compras? Imagina se vira moda juntar esforços para que essa seja cada vez mais uma reivindicação/reclamação na hora de consumir!?
É preciso mudar essa ideia de que só é lindo ter tudo “novinho”. Precisamos voltar a valorizar bens que duram e nos servem por anos e anos, porque esses sim são produtos feitos por empresas que nos respeitam e que sabem que nossa vida não se resume a ser um catálogo ambulante das últimas marcas da moda.
Todo mundo sabe que beleza é essencial; design, inovação também é. Claro que a gente gosta de ter acesso a novidades. Mas sejamos sinceros: já parou para pensar em quantos botões existem em vários aparelhos, que a gente até aprende a usar, mas... nunca usa? Na maioria das vezes, o que a gente precisa é mesmo do básico, do simples. Pode ser super legal uma geladeira que pisca e fala, mas o que a gente usa de verdade nela é a função gelar.
Vivemos num tempo de muitas tristezas e chateações, onde a gente se sentem muitas vezes obrigado a se conter, quando, na verdade, queria mesmo era fazer tanta coisa diferente e boa, ou extravagente ou ruim até, sei lá... quem sabe inclusive correr, fugir, gritar... Muitas vezes, parece que o consolo que “sobra” é ter alguma coisa nova e super descolada. Só que não é muito esperto transformar consumo em tábua de salvação. Nem é por nada... é que não funciona. Só engana. No fim, a tristeza e a chateação continuam lá e você tem um troço novo que vai durar pouco e no fim nem faz tanta diferença mesmo, porque a maioria das funções dele você nunca sequer vai procurar aprender a usar...
Equilíbrio tem vários significados. Em certo sentido, tem a ver com moderação. Pode ser harmonia também. Juízo. Outro jeito de dizer é bom senso. Comprar bugiganga aparentemente descolada não faz a gente ser melhor nem mais feliz. Na melhor hipótese, dá mais dinheiro para quem vende isso. Talvez essa pessoa fiquei mais feliz; nem isso é tão garantido.
Um jeito de lidar com a obsolescência programada é procurar bens mais duráveis e reclamar aos quatro cantos da rede de fornecedores que vendem bens de vida útil muito limitada. Outro jeito é focar no equilíbrio das próprias necessidades. Ver de verdade o que realmente lhe faz falta. Não usar compras como muletas. E se realmente precisar de uma muleta, escolha uma causa maior do que o próprio espelho. Quem sabe, por exemplo tentar ajudar o entorno a ser melhor? Tem mil maneiras de fazer isso. Isso resolve os problemas mais íntimos? Provavelmente não. Mas é melhor que torrar dinheiro em porcaria. E com sorte, pode até fazer bem a alguém de verdade. Tornar o consumismo obsoleto pode afinal ser útil e bom.
E quando precisar comprar, exigir que a durabilidade seja um componente das novas tecnologias fará bem aos nossos bolsos, que não são árvores de dinheiro, e também para o mundo, que não tem recursos infinitos para sustentar tanta produção de supérfluos e descartáveis.
E se não quisermos mais os males que nunca se acabam?
Mas se buscamos o equilíbrio, é preciso lembrar também que há produtos que duram muito mais do que deviam. Plástico por exemplo. Quem produz essas coisas precisa assumir uma responsabilidade com a destinação depois. É muito assustador ter uma quantidade de plásticos no oceano do tamanho da França. Ok, a França é pequena se pensamos em Brasil, mas é como se existissem 260 Baixadas Santistas de plástico boiando... A gente precisa do que mais para se mexer?
As tecnologias precisam avançar para fazer bens úteis serem mais duráveis e para acabar com processos e produtos que não fazem mais sentido, porque eles fazem mal ao planeta e porque nós temos capacidade de fazer coisa melhor.
Na mesma lógica, sabemos que algumas profissões vão deixar de existir em poucos anos, assim como muitas já deixaram. Precisamos aproveitar o embalo e garantir que outras acabem também. As pessoas que puxam carroças nas ruas merecem viver com mais dignidade. Se a educação pública for melhor, se as políticas sociais forem mais inclusivas, essas pessoas podem ter chance de novas escolhas. Nada contra catadores de latinhas etc. – pelo contrário: se algo devemos a essas pessoas é reconhecimento, gratidão e um redondo pedido de desculpas. Elas só estão nas ruas porque não têm opções melhores. E porque nós jogamos lixo para todo lado. Enquanto a educação não melhora etc., as empresas que fabricam plástico, por exemplo, podem investir bem mais na indústria de reciclagem, começando por contratar e capacitar catadores, para que tenham novas qualificações, mais renda e mais dignidade. Parte deles poderia inclusive ser preparada para atuar na educação ambiental urbana, para ver se aprendemos finalmente quão absurda é esse mal hábito de não saber descartar. Essa é apenas uma ideia.
Podemos reunir inúmeras. O engenheiro Carlos Alberto Telles, em seus Artigos do Dia, publicados aqui no BS9, em 31 de maio e em 3 de julho, abordou a necessidade de mudar ou descartar padrões de lavagem de roupa hospitalar que estão ultrapassados e aumentam os riscos de infecções hospitalares. Em tempos de covid-19, esse é um assunto seríssimo. Em tempos de necessárias inovações para o combate ao desperdício de água e energia idem. Também em seu Artigo do Dia aqui no BS9, a jornalista Ana Patrícia Arantes, em 4 de junho, deixou bem clara a urgência de uma política integrada de saneamento na Baixada para evitar que a sede se agrave na região. Juntando essas duas necessidades, vemos que a inovação no processo de lavagem de roupa hospitalar pode unir mais saúde e menos gasto de água e energia; talvez até menor produção de esgoto. Um projeto de pesquisa e desenvolvimento das empresas que atuam com saneamento ou energia poderia indicar novas técnicas nessa direção, melhorando a situação para todos. Quem poderia começar a discussão? Os hospitais ou as empresas de água e energia da Baixada? De repente a composição de esforços pode ser organizada pelas prefeituras ou pela AGEM; ou mesmo pelas universidades públicas de SP. Quem se habilitará? Existem as carências; existem recursos para ações desse gênero (por exemplo: as verbas para uso obrigatório em P&D nas concessionárias de serviços públicos); existem evidentes ganhos potenciais e especialistas que podem ser mobilizados. O que falta?
Não se trata de nenhuma invenção da roda. Há muito que cada pessoa pode fazer, individual e coletivamente. Começa pela reflexão, pela economia, mas passa pela reclamação, por demandas de bens melhores, mais duráveis, e certamente avança pela exigência de que o governo defina, execute e fiscalize as políticas públicas necessárias e pela exigência de que as empresas façam sua parte, não só parando de prejudicar consumidores e meio ambiente, mas começando a ajudar a resolver os problemas que elas também contribuíram para criar.
Existe hoje uma perversa obsolescência programada pelos produtores, para nos obrigar a comprar de novo e de novo, infinitamente. Precisamos romper essa prisão ao novo, exigindo cada vez mais produtos com qualidade e durabilidade. Ou a gente torna obsoletas as empresas que fabricam coisas descartáveis ou elas tornam inútil o nosso suado esforço para viver com dignidade.
Há também uma obsolescência necessária a ser perseguida, que é uma necessidade de tornar fora de uso um conjunto de bens, processos e funções que causam mais danos do que benefícios, para que seja possível garantir mais sustentabilidade com qualidade de vida para todas as pessoas.
Equilíbrio tem a ver com tudo isso. Que aquilo que é importante dure muito e dure bem. Que aquilo que já não serve mais possa ser substituído por algo melhor e mais útil, sem descartar pessoas, mas antes, pelo contrário, contribuindo para que elas possam fazer parte dignamente de um presente-futuro melhor.
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