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Uma mensagem ao nosso presidente

Clau Moreira Ramos - Trabalha com políticas culturais e nas horas vagas escreve sobre o que vê e sente

23/05/2021 — domingo às 08h41

Uma mensagem ao nosso presidente

Oi, senhor presidente, dá licença de dar uma palavrinha?
 
O senhor primeiro desculpe não dizer Excelentíssimo, Vossa Excelência e outros tratamentos assim. Todos sabem que o senhor tem um jeitão mais informal e vou tomar a liberdade de tratá-lo mais ou menos da mesma maneira com que o senhor tem se comunicado. Mas com todo respeito e sem ofensa, tá?!
 
Desculpe também não começar perguntando “como vai?” ou “tudo bem?” Tem sido difícil perguntar isso ultimamente sem se sentir meio tonta, sabe? Não conheço ninguém normal que esteja bem de verdade hoje...
 
Não se preocupe, não acho que o senhor tenha culpa de tudo, tudo o que acontece. Esta não será uma daquelas mensagens para acusar, xingar e ofender. Não fui educada assim.
 
Aliás, aqui duas informações importantes: eu não votei no senhor nem em nenhum apoiador seu, mas minha mãe votou. Meu irmão mais velho também. Uma parcela enorme da minha família. Sabe aquela famosa treta da família nos grupos de WhatsApp, que muita gente comenta? No nosso caso, foi um clássico. Eu sou uma das pessoas que deixou o grupo da família depois de brigar com uma porção de gente que defendia o senhor. Mas isso são águas passadas. Até porque – e aí acho que o senhor me entende bem – família é importante demais para a gente ficar brigada por causa de política, né?!
 
Família a gente defende, apesar dos defeitos. Família a gente ama e quer preservar. Eu sou dessas. E por mais diferente que eu acho que eu seja do senhor, penso que nisso somos um pouco parecidos.
 
É por isso que lhe escrevo hoje. Não como uma eleitora que quer criticar o candidato que ela não elegeu, e ainda assim se saiu vitorioso. Mas como uma brasileira, uma filha e uma mãe de família, que precisa da atenção do seu presidente.
 
Esse é o ponto, seu Jair. Eu querendo ou não, seus aliados e defensores querendo ou não, a verdade é que o senhor é meu presidente também. Não é só presidente dos seus eleitores ou daqueles que concordam com o senhor.
 
O senhor é presidente de todas as mulheres e de todos os homens e de todas as crianças nesse país, seu Jair.
 
Então, não vou lhe perguntar sobre a sua responsabilidade na ocorrência de mais de 430 mil mortes por covid-19. Não vou pedir que explique como o senhor fala em aumentar a verba contra o desmatamento, enquanto o desmatamento bate recorde a cada dia. Nem vou lhe pedir nada, além de uma única coisa: seja presidente de todos os brasileiros a partir de agora, seu Jair. Porque o Brasil está mal, seu Jair. Nós estamos mais pobres, estamos mais tristes e estamos mais chateados do que nunca antes na história desse país, tá ok?!
 
A gente precisa que o governo federal funcione minimamente para podermos seguir com a nossa vida. A gente pode fazer o Brasil dar certo, se os políticos pararem de nos atrapalhar. Nós, brasileiros de esquerda, de direita e de centro, juntinho com aquele montão de brasileiros que não querem nem saber de rótulo político nenhum, somos um povo trabalhador e alegre. A gente consegue superar essa crise, se o governo fizer simplesmente o básico. E ninguém está pedindo nada de graça não: a gente paga muito caro para que vocês prestem esse serviço. Vocês têm que prestar!
 
Também ninguém está pedindo milagre nenhum não: por favor, apenas garanta que a vacina chegue a todos nós o mais rápido possível. Pare de falar mal dos chineses ou de criar caso com qualquer um que possa ajudar a gente a ter logo vacinação para todos. Só isso.
 
E se quiser um conselho, por favor, pare de criticar quem lhe critica e de elogiar quem lhe elogia. Isso só está aumentando as brigas de família, sem trazer benefício para ninguém. Nesse momento, o Brasil precisa voltar a funcionar. O Brasil precisa de vacina. E o senhor hoje é a pessoa que pode mudar essa realidade. Para melhor ou para pior.
 
Faça isso não para ficar bem na pesquisa; não para ganhar eleição. Faça isso por amor ao próximo. Faça isso por respeito ao cargo e ao compromisso que o senhor assumiu. Faça isso para honrar a sua palavra. Pare de estimular ações que colocam em risco as poucas pessoas que continuam a confiar e a acreditar no senhor. Como a minha mãe. Como o meu irmão mais velho.
 
Não vem dizer que não depende do senhor... por favor! Não peça que a gente acredite que é “coincidência” o senhor fala mal dos chineses e a gente ficar sem vacina na sequência (enquanto a China segue entregando no prazo os insumos dos outros países). Sem ofensa, lembra?
 
Com todo respeito: resolva isso, presidente. Garanta vacinas para todos já. Resolva isso logo e definitivamente. Porque o senhor pode, porque o senhor deve e porque é sua obrigação. E enquanto o senhor não fizer direito o seu trabalho, por favor reze bastante para que a minha mãe, o meu irmão mais velho, esse povo simples e bom que acreditou no senhor, a família simples de gente como a gente... fique bem. A gente não vai esquecer, nem perdoar, senhor presidente. Nada pessoal, mas o senhor sabe bem, né?! Com a família da gente não se mexe.

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