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'O Sequestro do Voo 375' é blockbuster à brasileira que quer bombar com crime real

"O Sequestro do Voo 375" acompanha o piloto Fernando Murilo de Lima e Silva. Em 1988, ele conduziu uma série de manobras arriscadas para tentar desestabilizar Raimundo Nonato Alves da Conceição, que queria sequestrar um voo comercial da Vasp

da Folhapress/Leonardo Sanchez

07/12/2023 - quinta às 00h01

O caso foi estudado à exaustão, já que o comandante teria feito um tonneau - Reprodução

Foi ainda com pistas de aeroporto que pareciam simuladores de voo do início dos anos 2000 e paisagens pouco verossímeis no abrir da janelinha que "O Sequestro do Voo 375" começou a ser exibido para a imprensa. O filme, que chega agora aos cinemas, teve uma pós-produção onerosa, em relação a tempo e dinheiro.

Ficou pronto na iminência de ser exibido no último Festival do Rio, já com pistas de pouso e céus críveis o suficiente para que o público achasse que o avião no qual a trama se passa levantou voo. Pode até não ser o caso, mas as gravações ocorreram, de fato, dentro de uma aeronave, emprestada de um colecionador que manteve o Boeing dos anos 1980 preservado em sua fazenda.

Após um acordo de restaurá-lo em troca de montar ali um set de filmagem, outro desafio se impôs. A aeronave foi desmontada, colocada em uma frota de caminhões e levada de Goiás aos históricos estúdios Vera Cruz, na Grande São Paulo.

"O Sequestro do Voo 375" acompanha o piloto Fernando Murilo de Lima e Silva. Em 1988, ele conduziu uma série de manobras arriscadas para tentar desestabilizar Raimundo Nonato Alves da Conceição, que queria sequestrar um voo comercial da Vasp para arremessá-lo contra o Palácio do Planalto, numa resposta à crise vivida pelo Brasil e às políticas do então presidente José Sarney.

O caso foi estudado à exaustão, já que o comandante teria feito um tonneau, como é chamado o giro completo sobre o próprio eixo, manobra de caças que em teoria uma aeronave de grande porte jamais conseguiria realizar.

No set, uma das partes do avião foi acoplada a um maquinário que a girava em 360° durante as filmagens. Assim, atores precisaram tomar remédio para enjoo e ficar de ponta cabeça para gravar o clímax da história, enquanto jornais, bolsas e itens com o logo da Vasp, recriados a partir de imagens da época, voavam ao redor.

Parcialmente esquecido, o caso foi estudado à exaustão pelo diretor Marcus Baldini e a produtora Joana Henning, da Escarlate, que também se arriscou ao assumir um projeto do tamanho de "O Sequestro do Voo 375". O orçamento na casa dos R$ 15 milhões fica próximo dos recordistas do cinema nacional, e a expectativa é que o longa leve um público volumoso às salas de cinema.

"Esse é um filme que pensamos com o potencial de ter audiência grande. Vindo de uma época em que dois, três, quatro, cinco milhões aconteciam com certa frequência [nas bilheterias nacionais], adoraríamos contribuir para essa escadinha de retomada da confiança no cinema brasileiro", diz Baldini.

"É um filme que subiu um patamar de investimento e assumiu um risco, com um cinema-catástrofe, que não tem cultura no Brasil, então é um projeto que merece fazer parte dessa retomada. Seria importante para a indústria", acrescenta Henning.

Desde a pandemia, o cinema nacional não emplaca um grande hit do tamanho das comédias que, antes, não precisavam de muito esforço para rodar o Brasil com salas cheias. Há grande expectativa no setor, agora, para saber que título vai alçar voo para romper com a sensação de que há resistência na volta do brasileiro aos cinemas para ver suas próprias produções.

Para o diretor e a produtora, o trunfo de "O Sequestro do Voo 375" é ser um filme de gênero, nos moldes de uma grande trama de ação hollywoodiana. O projeto em si é faustoso o suficiente para ser comparado ao cinema americano, e tem dedo do Star+, braço da Disney, no financiamento.

Tentou fugir, no entanto, de um maniqueísmo encontrado sem grande esforço nos grandes espetáculos de ação produzidos lá fora. Não é como se o sequestrador fosse puramente um vilão. No filme, o espectador é levado a compreender que sua situação de abandono social o levou ao sequestro -mas ele é claramente despreparado para isso, está emocionalmente abalado e mal sabe o que está fazendo.

"Esse aprofundamento da complexidade das relações entre os personagens, dentro de um thriller, é uma coisa que me agradou, porque deu um lugar brasileiro, uma conexão emocional para o filme, para além da espetacularização que a ação oferece", diz o diretor.

"Baldini trouxe para o projeto o conceito de traição. Murilo foi traído pela Vasp após [participar de] uma greve, Nonato foi traído pela questão social do país, os militares foram traídos pela chegada da democracia, a democracia foi traída pela ameaça dos militares. Isso cria uma tensão permanente entre os personagens", completa Henning.

Diretor e produtora dizem ainda que sentiram alívio ao notar que a filha de Salvador Evangelista, copiloto morto durante o crime, não se incomodou com a humanização do sequestrador, vivido nas telas por Jorge Paz.

Também estão no elenco Danilo Grangheia e César Mello, como o primeiro e o segundo em comando, e Juliana Alves, Wagner Santisteban, Diego Montez e Arianne Botelho, na tripulação.

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