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LITERATURA

História de menino indígena autista inspira livro sobre desafios e infância na aldeia

O personagem pode até ser uma ficção, mas é inspirado na realidade de Kambeba. Na obra, ela mostra de forma lúdica e sensível os desafios de uma pessoa com restrições cognitivas, como dificuldades para ler e escrever

da Folhapress/Jorge Abreu

21/04/2024 - domingo às 00h01

Reprodução

"Wirá era inteligente, mas tinha dificuldade em aprender o conhecimento que a escola lhe transmitia. Não conseguia ler nem escrever muito bem, ainda que fosse capaz de dar uma aula de conhecimentos naturais de forma oral."

Este trecho mostra as dificuldades vividas pelo protagonista do livro para crianças "Curumim Wirá e os Encantados". Ele foi escrito pela indígena Márcia Wayana Kambeba, lançado em 2023 pela editora Krauss, e ilustrado por Simone Ziasch.

O personagem pode até ser uma ficção, mas é inspirado na realidade de Kambeba. Na obra, ela mostra de forma lúdica e sensível os desafios de uma pessoa com restrições cognitivas, como dificuldades para ler e escrever -tudo muito parecido com o caso de Carlos Augusto, de 15 anos, filho de Kambeba diagnosticado com TEA (transtorno do espectro autista).

A escritora conta que criou a história depois que Carlos foi constrangido por um professor em uma escola particular em Castanhal (PA). Ele teria comentado, na frente da turma, que o menino, então na 7ª série, deveria voltar para a 1ª série, e que ele atrasava as aulas. A situação causou uma crise em Carlos, como lembra Kambeba.

"Pensei no que eu poderia fazer para extravasar a dor que eu estava sentindo como mãe. Aí eu criei o 'Curumim Wirá e os Encantados', que é a história de um menino indígena autista, que passou por situações que o Carlinhos passa", disse a escritora à reportagem.

No livro, ilustrado com desenhos coloridos, Wirá é descrito como o filho de um cacique (liderança indígena), morador da aldeia Uka Tana, na Amazônia, onde ele aprende a respeitar a floresta, os animais, os rios e os espíritos da natureza, também chamados de "encantados".

Incompreendido na sala de aula, o personagem tinha o desejo de conhecer os encantados para aprender mais sobre como cuidar e proteger a natureza. Ao conhecê-los, o protagonista recebe deles a atenção, o respeito, a paciência e a confiança de que precisava para aprender os conteúdos da escola.

"Eu sou feliz sendo autista. Tenho orgulho de ter uma mãe escritora, artista e professora, que ajuda as pessoas. Ela luta comigo. Agradeço a ela por ter escrito um livro sobre uma pessoa autista com problemas igualzinho eu. Essa história vai ajudar muitas crianças que têm problemas na escola", fala Carlos Augusto, que inspirou a criação de Wirá.

A autora ressaltou que em suas obras busca levar reflexão e conscientização aos pais, professores, crianças e a sociedade em geral sobre o tema de inclusão e preservação da natureza, e também abordar a cultura indígena, como ferramenta para combater o preconceito.

Outra preocupação da Kambeba, que também se tornou livro, foi sobre a substituição das brincadeiras e o modo de vida tradicional pelo uso excessivo da tecnologia. Pensando nisso, ela escreveu "Infância na Aldeia", lançado em 2023 pela editora Ciranda na Escola, e ilustrado pela aquarelista Cris Eich.

Em versos, a história relata como é o dia a dia em uma comunidade indígena e reúne ensinamentos sobre como aproveitar o tempo livre, valorizar a natureza, respeitar os animais e aprender com os mais velhos. A escritora conta que registrou a memória que viveu em uma aldeia, localizada na TI (terra indígena) Eware, do povo tikuna.

"Na aldeia, a criança brinca de pular na água, pescar, fazer disputa de quem chega primeiro pelo rio de canoa, remada, subir no açaizeiro, de roda, correr, imitar os passarinhos. Tem muita coisa. Enquanto, na cidade, a criança está perdendo essa conexão com a natureza, porque a tecnologia está tomando conta das brincadeiras da infância", afirmou.

Em ambos os livros, a escritora se preocupou em inserir palavras em tupi, como forma de educar o público infantil sobre a história dos povos originários do Brasil. Para os indígenas, explica Kambeba, o idioma nativo representa a manutenção da cultura e pertencimento.

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