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MÚSICA

'Prosa e Papo', de Dori Caymmi, tem som arrojado e melancólico

"Canção partida" fecha "Prosa e papo", seu novo álbum, construído com esmero e minúcias na virada para os 80 anos, idade que completou, sem estardalhaço, em agosto passado

da Folhapress/Sidney Molina

da Folhapress/Sidney Molina

11/04/2024 — quinta-feira às 18h01

'Prosa e Papo', de Dori Caymmi, tem som arrojado e melancólico

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"Por tentar um contraponto / Fiz uma canção partida", canta Dori Caymmi, com voz firme e emocionada, sobre os versos de Paulo César Pinheiro, em uma de suas melodias típicas: angulosa, de curvatura perfeita, sem nenhum excesso.


"Canção partida" fecha "Prosa e papo", seu novo álbum, construído com esmero e minúcias na virada para os 80 anos, idade que completou, sem estardalhaço, em agosto passado. Das onze faixas, oito são composições inéditas, e nove são parcerias com Pinheiro.

A formação acústica presente na gravação de "Canção partida" -somente dois violões e o discreto cavaquinho de Ana Rabello- conversa diretamente com "Canto sedutor", em que a voz igualmente embargada de Dori é apoiada por piano e pontuada pelo baixo de Jorge Helder. "Porém como qualquer cantor / Alguém tem que me acompanhar".

Da música de Dori, que geralmente compõe a partir das letras, emana certa solidão, e isso não se deve apenas aos tons melancólicos das palavras. Afinal, Paulo César Pinheiro domina variados afetos, podendo também ser brincalhão, divertido ou descritivo.

A nostalgia sai da música mesmo, fica lá no fundo da alegria, atenta, contamina a gravidade do vozeirão; respeitosa, nunca se esparrama, e pode até virar um trio de voz, violão e fagote, como em "Água do rio doce".

Isso permanece para além dos gêneros (samba, baião, ciranda) e da instrumentação (baixo, bateria, sanfona, viola caipira), como na primorosa "Três moças": "Não sei qual moça é mais bela / Se aquela moça serrana / Pintada na porcelana / Ou se a do cântaro dela".

O ato de cantar é sempre a coisa mais importante do mundo para Dori, que segue em plena forma vocal, como em "Raça morena", com percussão, violoncelo e teclado, ou na ciranda "Saia de renda", com destaque para as flautas, acentuadas pelo timbre aveludado do baixo elétrico do cearense Jorge Helder - músico que assina a produção do álbum.

Entre as parcerias mais divertidas de Dori com Paulo César Pinheiro, estão a faixa título, "Prosa e papo" e "Chato", ambas feitas a partir de frases de seu pai, o mestre Dorival Caymmi. A canção de abertura, com participação do grupo vocal MPB4, parte da frase "carrapixo é mato, carrapato é bicho", motivo suficiente para Pinheiro destilar seu virtuosismo linguístico-sonoro.

"Chato" tem João Cavalcanti no vocal ao lado de Dori, e a composição usou o mote de Dorival Pai "entre por onde saiu / e faça de conta que nunca me viu", ao que o letrista completará "saia por onde entrou / e faça de conta que não me encontrou". Cabe salientar -e não só nesta faixa, mas por todo o álbum- a alta performance de Dori como exímio violonista acompanhador.

Uma composição um pouco mais previsível (talvez a menos inspirada da dupla no álbum) - apesar da força das participações vocais de Joyce Moreno, MPB4 e Zé Renato- é o samba "Um carioca vive morrendo de amor", escrito no estilo dos antigos sambas exaltação, na tentativa de reencontrar as belezas do Rio de Janeiro em tempos dominados pelo pessimismo.

A busca por referências universais em uma era pautada por fragmentações encontra mais equilíbrio em uma das duas letras escritas por Roberto Didio para o álbum, "Evoé, Nação!", com a presença entrosada das cantoras Joyce Moreno e Mônica Salmaso.

Mas é em "Canto para Mercedes Sosa" que a parceria de Dori com Didio mostra o seu maior potencial. Com melodia e harmonia mais próximas de Milton Nascimento do que da bossa nova, a canção tem como convidado o cantor Renato Braz. Na homenagem, o canto de Sosa é definido como "voz que só queria libertar o continente/ ser a voz de quem sofria".

Artistas como Dorival Caymmi, o pai de Dori, têm força civilizatória. Sua obra se situa antes do tempo, em algum "lugar sem lugar", como uma vez definiu Antonio Risério. Dori, o filho, sabe que pertence irremediavelmente a uma época, a um tempo definido, o qual é provisório e fugaz.

Caymmi filho tem a sabedoria de não lutar contra o seu tempo. Ao contrário, prefere vivê-lo em plenitude, com "violão, madrugada, poesia, estrela e paixão".

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