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CRÍTICA

'Culpa e Desejo' vê vertigem do sexo entre madrasta e enteado

Para onde nos leva Catherine Breillat desta vez? Não a uma afirmação da sexualidade, ponto forte da literatura desde os libertinos de Marquês de Sade e, mesmo do cinema francês, desde Luis Buñuel. Aqui as cenas de sexo do filme são sumárias e comportadas

da Folhapress/Inácio Araújo

da Folhapress/Inácio Araújo

28/11/2023 — terça-feira às 18h01

'Culpa e Desejo' vê vertigem do sexo entre madrasta e enteado

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Por um lado, o título diz tudo: é de "Culpa e Desejo" que se faz este filme, desde que o adolescente Theo -vivido por Samuel Kircher- invade a casa onde moram seu pai e a madrasta, Anne -papel de Léa Drucker. Theo, diga-se, lembra um pouco aquele anjo de Pasolini, que entra para desordenar o que está bem ordenado demais.

Ou que ao menos parece, já que Anne, advogada dedicada a casos de violência contra menores, combativa, pouco afeita a respeitar normas estritas e sem grande preocupação com as aparências.

A ela deve-se, por exemplo, deixar o marido sozinho com alguns convidados, e quando é interpelada sobre sua atitude, introduzir na conversa o termo "normopata". Bela palavra par definir uma "normalidade" tão normal que já se transforma em doença.

Theo é um anjo torto: o menino desajustado às regras sociais. O Pierre, o pai, pensa que isso acontece por ter sido criado longe do pai, que abandonou a mãe par ficar com Anne. É a parte de culpa na história -a principal, em todo caso.

Theo, com sua mistura de beleza e agressividade, começa por assaltar a própria casa e, em seguida, a assediar Anne com insistência. Ela acredita que Theo age assim por uma espécie de despeito da mulher que levou o pai para longe.

Mas não é impossível que o tratamento maternal que lhe dá a advogada tenha despertado seu desejo: não buscará ele uma mãe? Pode ser. É mais difícil explicar o comportamento de Anne, e talvez Breillat tenha

topado fazer este filme -remake do dinamarquês "Rainha de Copas", de 2018- justamente porque nada o explica, exceto talvez a vertigem, o medo da queda que leva o sujeito a se atirar no vazio, justamente -tema que ela comenta no filme-, ou ainda certo tédio suíço, alguma falta do que fazer. Afinal, ela não é tão ocupada assim por seus negócios legais).

No mais, ao transar com Theo, ela sabe que seu casamento está ameaçado, o que não é pouca coisa. Mas, pior, sabe que até mesmo sua profissão pode ser afetada: ela se torna vulnerável a uma chantagem do menino.

Assim, a defensora das menores agredidas e violentadas descobre sua faceta normopata -ou, se preferir, hipócrita. Descobre e investe nela, porque precisa manter as aparências e, com ela, o casamento e a banca de advogada.

Para onde nos leva Catherine Breillat desta vez? Não a uma afirmação da sexualidade, ponto forte da literatura desde os libertinos de Marquês de Sade e, mesmo do cinema francês, desde Luis Buñuel. Aqui as cenas de sexo do filme são sumárias e bem comportadas. As de "Rainha de Copas" são muito mais interessantes que as de "Culpa e Desejo", que no mais segue bem de perto a trama do filme dinamarquês.

A sexualidade feminina também não parece o ponto mais desenvolvido aqui. Na verdade, o jovem Theo é uma personalidade mais complexa, pois para entendê-lo pode-se desenvolver mais hipóteses e mais ricas que as que a personalidade da advogada levanta. Ele está em busca de uma família -brinca com as meio irmãs e se dá bem com elas, por exemplo-, e o amor edipiano por Anne diz algo a respeito disso.

Mais que isso, porém, talvez não seja justo ignorar que o silêncio atribuído por Breillat a sua Anne, suas reações por vezes planas, por vezes dissimuladas ao romance que inicia com o rapaz, parecem apontar para um desejo que se impõe independentemente de toda realidade que o cerca -ele existe, mas não se justifica. Justifica-se ao existir.

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