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Boa biografia de Alceu Valença se encanta demais com o músico

"Pelas Ruas que Andei" é eficaz em mapear como se moldaram a pessoa e o artista, de Pernambuco ao Rio de Janeiro, passando pela França e Estados Unidos, onde ele esteve em reuniões dos Panteras Negras e no point beatnik de Greenwich Village

da Folhapress/Leonardo Lichote

da Folhapress/Leonardo Lichote

07/07/2023 — sexta-feira às 18h01

Boa biografia de Alceu Valença se encanta demais com o músico

Histórias que brotam de uma vida sem compasso, mas feita de compassos - Divulgação

"Olindina, chame Madalena para tocar o pandeiro que o filho de Décio não tem compasso."

A frase de Orestes Valença se referia a seu neto, que tentava, batucando no instrumento, participar do sarau promovido pelo avô. Musicalmente, a sentença não poderia estar mais errada, como provou a história do menino, Alceu Valença.

Sem saber, porém, Orestes acertava em algo maior. Na forma como fez as raízes nordestinas conversarem com a vanguarda eletrificada do pop-rock, na defesa de liberdade frente às gravadoras, na verborragia anárquica e hipnótica, no posicionamento político coerente e apartidário, na maneira como faz do palco seu domínio com a mesma autoridade com que um artista de rua afirma uma ribalta num naco de calçada, Alceu não se limita ao compasso, a um movimento previsto e esperado.

Como definiu sua tia ao inscrever o garoto num concurso de talentos mirins de uma rádio de sua cidade natal, São Bento do Una: "Se canta, não sei não. Mas é doidinho que só".
Todo esse painel aparece em "Pelas Ruas que Andei - Uma Biografia de Alceu Valença", de Julio Moura, que faz uma cobertura detalhada da trajetória do pernambucano.

Estão lá desde a herança familiar da musicalidade e da inventividade expressa na poesia e no humor popular do agreste até as caminhadas que Alceu fazia em casa durante a quarentena em 2020, subindo e descendo escadas para cumprir sua cota diária de 10 mil passos.

Entre um ponto e outro, se mostram a construção de sua carreira artística; a formulação de seu pensamento sobre música popular e o país; seus amores; suas prisões durante a ditadura; os bastidores de criação de suas canções, muitas trazendo curiosidades autobiográficas; e algumas desavenças, entre elas um desentendimento com Zé Ramalho durante um show e uma tensão com o então ministro Gilberto Gil, de quem Alceu cobrava políticas públicas em defesa dos músicos brasileiros e contra a pirataria.

"Pelas Ruas que Andei" é eficaz em mapear como se moldaram a pessoa e o artista, de Pernambuco ao Rio de Janeiro, passando pela França e Estados Unidos, onde ele esteve em reuniões dos Panteras Negras e no point beatnik de Greenwich Village frequentado por Bob Dylan - que o brasileiro então não conhecia.

A biografia foi escrita por Moura a partir de material de pesquisa empreendida por Patrícia Pamplona e da própria convivência do autor com Alceu - ele é assessor de imprensa do músico desde 2009.

A proximidade entre biógrafo e biografado afeta o livro, como era de se esperar. Mas isso se dá menos por eventuais omissões que protegeriam Alceu, afinal insinuam-se nas citadas desavenças uma personalidade difícil, apesar de estar sempre sob um olhar, em alguma medida, suavizante.

A relação entre autor e personagem se revela prejudicial à narrativa mais pelo excesso do que pela falta. O encanto e o compromisso com Alceu fazem com que o livro se estenda por quase 600 páginas, prendendo-se a pormenores que diluem a força do biografado.

Há histórias banais em meio às cativantes e, em certos momentos, a minuciosa pesquisa, que dá consistência ao livro, se presta a descrições extensas dos circuitos de shows e mesmo de comícios do artista. A intenção de contextualização por vezes se perde em digressão, como quando expõe meandros do Plano Cruzado.

O balanço, porém, é positivo, seja para os fãs ou para quem procura entender um tanto dos debates estéticos que atravessaram e atravessam a MPB: o forró eletrônico versus o universitário; a discussão sobre o que é "música regional"; a própria narrativa que põe bossa nova e tropicália num papel central na música.

Em meio aos grandes arcos, temos miudezas como o cantor negociando com Seu Sete num terreiro, caso a entidade garantisse a ele a vitória no Festival Internacional da Canção; o músico Jackson do Pandeiro sugerindo que o verbo "explode" fosse substituído por "pipoca" em "Coração Bobo"; Gal Costa desprezando "Andar, Andar" ("Eu pedi uma música bonita", ela justificou); o disco perdido "Forrock"...

Enfim, histórias que brotam de uma vida sem compasso, mas feita de compassos.

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