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LITERATURA

Romance de Fernando Aramburu tem desvios infinitos como uma série

Há uma soma virtuosa das duas dimensões, para os fins narrativos desse novo padrão, ecoando diretamente a ética das redes sociais -não há centro algum, porque tudo é centro, assim como não há limites para a autoexposição, porque nada garante a atenção.

da Folha Press/Luís Augusto Fischer

da Folha Press/Luís Augusto Fischer

30/04/2023 — domingo às 18h01

Romance de Fernando Aramburu tem desvios infinitos como uma série

"Quando os Pássaros Voltarem", de Aramburu, maneja essas duas dimensões com destreza, na forma de um diário de 542 páginas - Reprodução

Há algo imprescindível, nas séries bem sucedidas do streaming, que parece estar presente também no romance de nossos dias: a capacidade infinita de oferecer desvios, derivações, ramos secundários das tramas, para resultar no aprisionamento do espectador por todos os episódios -prática que ganha o autocomplacente nome de "maratona".

Não é que esses ramos secundários sejam anódinos: eles são é dispensáveis para que o centro da trama se realize. Isso quando a trama tem de fato algum centro. Não é incomum que, ao contrário, a série simplesmente tenha apenas um dado cenário ou um certo contexto como elo geral, ficando cada personagem ou grupo à vontade para se desenvolver sem compromisso de convergir. "The White Lotus" é um exemplo recente.

Vai ainda uma segunda hipótese geral, antes de entrar no novo romance de Fernando Aramburu: convive muito bem com essa prática narrativa uma certa volúpia pela exposição de cenas constrangedoras. Uma ferida que supura, uma defecação ao vivo, a confissão serena e inconsequente de uma baixaria qualquer, cenas que o decoro moderno mantinha em segundo ou terceiro plano ganham agora os holofotes do proscênio.

Há uma soma virtuosa das duas dimensões, para os fins narrativos desse novo padrão, ecoando diretamente a ética das redes sociais -não há centro algum, porque tudo é centro, assim como não há limites para a autoexposição, porque nada garante a atenção.

"Quando os Pássaros Voltarem", de Aramburu, maneja essas duas dimensões com destreza, na forma de um diário de 542 páginas: professor de filosofia no secundário na Madri do presente, Toni delibera matar-se dali a um ano e acompanha esses 365 dias com anotações, lembranças, uma ou outra notícia sobre o presente espanhol e europeu, alguns palpites sobre a vida.

Nada há de trágico, nem mesmo de dramático, em sua vida mediana. Ele não é brilhante, mas dá conta do recado magisterial (e oferece amargas e certeiras queixas sobre o ambiente escolar); é separado de uma mulher dotada de boa projeção social, que lhe faz contraste e reforça sua baixa autoestima; tem um filho adulto e sem rumo, provavelmente fracassado; é um misantropo regular, com apenas um amigo, mas tem saúde e algumas economias. O que pega mesmo é que perdeu o gosto por viver.

O romance se deixa ler sem dificuldades, como uma série bem conduzida. Mas o leitor é assaltado por uma dúvida, com frequência: eu preciso mesmo saber disso aqui, conhecer esse matiz, para que a história aconteça na minha mente, na minha sensibilidade, na minha maneira de entender o mundo?

Estivéssemos pura e simplesmente no reino da diversão e do passatempo, nada a obstar. Ocorre que o mesmo Aramburu escreveu "Pátria", romance decalcado em série, e nela, por mais que haja demoras e meandros secundários e até irrelevantes, o tema enfrentado garante tensão narrativa de monta -o fim das operações do ETA, o movimento separatista basco.

Como toda grande narrativa, "Pátria" nos permite reviver, com a vicariedade da arte, dramas humanos de fundo. Mas em "Quando os Pássaros Voltarem" a coisa desce de patamar.

Este resenhista teria muitos motivos para encontrar eco em si ao ler o romance: há um ceticismo sem revolta e uma revolta sem forma, que toda a nossa geração compartilha ao constatar que a redemocratização duramente conquistada nas décadas de 1970 e 1980, na Espanha como no Brasil, parece perder-se em irrelevância no atual contexto de ascensão da extrema direita. Sem falar da perda das ilusões iluministas, derrota que as redes sociais enunciam a todo momento.

Na lista dos méritos cabe ainda destacar certo bom humor e uma boa capacidade de autodeboche, que tornam Toni uma figura simpática, um amigo com quem dividiríamos a mesa com gosto. Mas nem isso é suficiente para tornar realmente importante a leitura desse bom romance.

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