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Como a peça 'O Avesso da Pele' discute racismo e a precariedade do ensino

A peça homônima, em cartaz no Sesc Avenida Paulista, conta a história de Bruno, um professor assassinado, pela perspectiva de Pedro, seu filho, que tenta reconstruir o passado dos pais para seguir em frente

da Folha Press

da Folha Press

31/03/2023 — sexta-feira às 18h01

Como a peça 'O Avesso da Pele' discute racismo e a precariedade do ensino

O espectador atravessa o espaço de performance e tem que desviar de uma pilha de livros que ocupa o centro da sala para chegar às cadeiras - Daniel Marenco

A diretora Beatriz Barros se juntou ao Coletivo Ocutá, grupo recém-formado por atores jovens, negros e gays, para levar aos palcos "O Avesso da Pele", livro de Jeferson Tenório com drama, humor e dança.

A peça homônima, em cartaz no Sesc Avenida Paulista, conta a história de Bruno, um professor assassinado, pela perspectiva de Pedro, seu filho, que tenta reconstruir o passado dos pais para seguir em frente.

A plateia entra na sala de exibição por uma porta que dá acesso ao palco. A meia-luz azul e a fumaça que preenchem o ambiente dão ao público a sensação de entrar em uma instalação sensorial. O espectador atravessa o espaço de performance e tem que desviar de uma pilha de livros que ocupa o centro da sala para chegar às cadeiras. Ao se sentar, mesmo que nas últimas fileiras, fica a apenas alguns poucos passos do palco.

Na faixa dos 20 e poucos anos, os quatro atores do coletivo -Marcos Oli, Bruno Rocha, Alexandre Ammano e Vitor Britto, que também são assistente de direção da peça- se revezam entre os personagens, como fragmentos de um único narrador. Eles já tinham se juntado para atuar como coletivo quando convidaram Barros para a direção.

Enquanto procuravam a história que iriam contar, o livro de Tenório caiu nas mãos dos artistas. Eles conseguiram permissão para adaptar a obra poucos meses depois que ela foi publicada, quando ainda era desconhecida. Ao longo dos últimos três anos, o grupo acompanhou "O Avesso da Pele" ganhar o Jabuti de romance literário no ano retrasado e ganhar popularidade na mídia.

O grupo conta que fazia os ensaios no apartamento de Alexandre, ambiente que antecipava a intimidade do teatro do Sesc. Atores e diretora trocavam perspectivas sobre a obra, construindo aos poucos a performance que chega ao público.

"Vitor e Bia colocaram a mão na massa para trazer partes do livro para a encenação e eu, Bruno e Marcos -e Vitor também, como ator- ficamos mais responsáveis por essa investigação física, de pegar as palavras e transformar em cena", diz Alexandre.

Os conflitos raciais marcam a vida dos personagens da peça. Permeiam seus relacionamentos, com outras pessoas negras ou com pessoas brancas, e estão na raiz de todas as perdas, especialmente a do pai pelo filho.

Bruno dava aulas de português para alunos desinteressados, mais preocupados com o mundo fora da sala de aula e revoltados com o ambiente escolar, que os reduzia à posição de fracassados. Queria acreditar que podia mudar a vida dos jovens, mas tinha que lutar contra o desânimo e a desilusão.

O avesso do título é tudo que há por dentro e que define um indivíduo para além da experiência social. O que está além da pele. Sem dar respostas, a peça reflete sobre como conciliar a individualidade e as dores coletivas. O humor surge para mediar as reflexões.

"A gente está falando de temas muito importantes, mas muito pesados. O humor é um caminho muito inteligente para falar deles. É importante o constrangimento social que o riso traz quando é bem utilizado", diz Barros. "E há diversos risos. Tem o do constrangimento, o do reconhecimento, o riso de 'olha, estão falando o que sempre quis falar!'. Depende de quem está assistindo."

Barros compara a disputa pela atenção da plateia ao que fazia quando mais nova, ajudando a família a vender roupas em feiras de Pernambuco. "Na feira, você tem que seduzir muito rápido, porque a todo momento tem outra pessoa vendendo do seu lado", diz a diretora, que tenta levar a mesma sedução ao teatro. "Não posso perder a plateia. Não tenho esse direito."

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