SÃO VICENTE
Público viveu chegada de Martim Afonso a São Vicente, direto da areia do Gonzaguinha
Da Redação
25/01/2026 - domingo às 11h29
Os holofotes se apagaram neste sábado (24), marcando o encerramento da Encenação da Fundação da Vila de São Vicente 2026, após quatro noites na Praia do Gonzaguinha (Praça Tom Jobim). O maior espetáculo em areia de praia do mundo alcançou cerca de 20 mil pessoas, somando público presencial e telespectadores.
Desde a abertura, a Encenação deixou claro que não repetiria fórmulas. Sob o tema "O Chamado dos Elementos", a narrativa incorporou água, fogo, terra, ar e éter como forças dramáticas da história, conectando a chegada de Martim Afonso de Sousa, em 1532, a reflexões atuais sobre ancestralidade, natureza e pertencimento. Até a chuva que caiu sobre a arena acabou integrada ao espetáculo, reforçando a relação direta entre cena, ambiente e público.
Ao longo das apresentações, o público não apenas acompanhou a história, mas reagiu a ela. Silêncios atentos, aplausos prolongados e a presença de famílias inteiras, muitas delas retornando em mais de uma noite, ajudaram a construir uma atmosfera de envolvimento contínuo com o espetáculo.
Entre os relatos colhidos na última noite, histórias pessoais se misturaram à narrativa encenada na areia. Moradora da Vila Margarida há quase cinco décadas, Mara Lúcia da Cruz Rodrigues, que enfrentou nove AVCs ao longo dos últimos anos, voltou à Encenação depois de um longo período afastada.
"Eu estou me segurando para não chorar. É emocionante demais. Eu vi a Encenação pela primeira vez em 2019. Passei por muita coisa de lá para cá, mas eu queria muito estar aqui. Quando consegui o ingresso, foi uma alegria enorme. Dá vontade de pedir pra não ser o último dia, para ter mais", contou.
Para quem acompanha o espetáculo há anos, a edição de 2026 também foi marcante pela atualização da linguagem e pela forma de contar a história. Nascido em São Vicente, Otávio Pereira Marciel, já assistiu a mais de dez edições da Encenação e percebeu a diferença.
"Foram tempos diferentes. Essa edição está muito mais moderna, com LED, mais música, outra dinâmica. A história ficou diferente, mas muito boa. Estar aqui com a família é inexplicável".
Sua esposa, Débora de Calixto Rodrigues assiste ao espetáculo desde criança, levando a filha pela primeira vez. "É muito emocionante. Eu vinha com meus pais na idade dela, e hoje estou trazendo minha filha. É uma lembrança forte, que atravessa a família. A história está bem contada. Ela conseguiu entender o que aconteceu. Está muito bonito".
A filha do casal, a pequena Isis, de 6 anos, resumiu a experiência do seu jeito.
"Eu gostei de tudo. Gostei das fantasias e dos elementos. Teve fogo, ar, terra e água".
Já a Maria Convento, de 69 anos, acompanha a Encenação há mais de cinco edições, e destacou a evolução do espetáculo em 2026.
"Nesse ano a Encenação está melhor do que nos outros. Dá pra ver que está bem ensaiada, bem adaptada. A estrutura também melhorou muito, principalmente com a cobertura, que evitou confusão com guarda-chuva. Para mim, que venho há anos, a Encenação sempre traz essa sensação de renovação, de novos capítulos sendo contados, mesmo falando da mesma história", avaliou.
Com a arena já vazia, ainda sob o eco dos aplausos da última noite, o encerramento da Encenação não significou silêncio nos bastidores. Entre abraços, lágrimas e a sensação física de exaustão depois de meses de trabalho, o diretor José Luiz Morais (Luigi) resumiu o sentimento de liderar um espetáculo construído por centenas de pessoas, muitas delas da própria comunidade, que se renovam a cada edição.
"O teatro é um ser vivo. Ele respira com as pessoas, sente o clima, reage ao público, ao vento, à chuva, à emoção de quem está em cena e de quem assiste. Foram dias muito intensos, com um trabalho pensado com cuidado para todos: crianças, idosos e PCDs. Porque a Encenação só existe quando todo mundo se sente parte dela. Quando termina, a emoção é grande, mas, junto com ela, já nasce a ansiedade pelo próximo ano, por tudo que ainda pode ser criado".
O encerramento de cada noite reforçou o caráter sensorial da experiência. A tradicional queima de fogos iluminou o céu do Gonzaguinha, enquanto a música final transformava a arena em um espaço de emoção compartilhada, conectando passado e presente em uma mesma paisagem.
Para a gestão cultural do Município, a edição de 2026 evidencia a capacidade da Encenação se reinventar sem perder sua essência histórica.
"Cada edição da Encenação é um desafio novo. A gente testa linguagens, incorpora tecnologia, escuta o público e ajusta o espetáculo sem perder o vínculo com a nossa história. Ver essa resposta das pessoas nos dá ainda mais vontade de pensar o próximo ano desde já, com novas ideias e ainda mais cuidado", afirmou o secretário de Cultura, Alexandre Rodrigues.
"Foi mágico! Quatro dia em que pudemos ver nossa história sendo recontada. A Encenação é o nosso maior patrimônio cultural, e está cada vez mais conectada às nossas raízes. Um espetáculo que retrata o mundo como ele é: plural, com conflitos e repleto de superações. Nosso maior fenômeno cultural mais uma vez se fez presente na areia da Praia do Gonzaguinha", declarou o prefeito Kayo Amado.
Além das apresentações na arena, o público contou com uma área imersiva e com a Feira São Vicente 360, ao lado do espetáculo, ampliando a experiência para além da encenação principal e fortalecendo a presença de artistas e empreendedores locais.
Com o apagar das luzes, a Encenação da Fundação da Vila 2026 se despede deixando mais do que imagens marcantes. Fica a sensação de que, por quatro noites, São Vicente contou sua própria história de forma viva, não como lembrança distante, mas como algo que ainda pulsa na areia onde tudo começou.
A Encenação 2026 foi incentivada via Lei Rouanet do Ministério da Cultura, com patrocínio de Brasil Terminal Portuário, GranServices, Grupo EcoRodovias e Sabesp. A iniciativa é uma realização da Associação dos Artistas e Prefeitura de São Vicente, com apoio da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo.
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