CRIME DE XENOFOBIA
Kofi Acheampong estava com o filho de 10 anos e foi ofendido pelo gerente e também o chefe da unidade
Redação BS9
18/03/2022 — sexta-feira às 02h53
Natural de gana, ele mora em Cubatão há dez anos e almoça todos os dias no local - (foto: reprodução Facebook)
O Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial (Compir) de Cubatão promove um ato de repúdio em frente a unidade do Bom Prato que fica no Centro de Cubatão nesta sexta-feira, dia 18, às 11h, sobre o caso de xenofobia que foi praticado por gestores do local na última sexta-feira, dia 11.
"Precisamos protestar e dizer que não toleramos nenhum tipo de discriminação. O objetivo do ato, é repudiar as práticas que vem acontecendo constantemente na sociedade e infelizmente às vezes partem de pessoas próximas e das Instituições que estão extremamente arraigadas de práticas que remetem ao aos séculos XVII XVIII", diz Paloma dos Santos, presidente do Compir.
"O ato tem por finalidade trazer um pouquinho essa indignação da população cubatense, sobretudo aquela que é afrodescendente, porque esse desrespeito à pessoa humana, em um órgão que é público e por pessoas que ocupam cargos públicos, é algo que a gente não pode aceitar. Então hoje onze horas faremos esse esse ato e também fizemos uma carta de repúdio para ser veiculada em todas as mídias (disponível mais abaixo)", complementou Lucélia Terezinha Avelino, funcionária pública em Cubatão e conselheira do Compir, sendo a primeira secretária do Conselho.
O caso aconteceu com Kofi Boakye Yeboah Acheampong, um africano, natural de Gana, que mora em Cubatão há dez anos. Desempregado, ele vai todos os dias ao restaurante almoçar com o filho de 10 anos - a única refeição que fazem.
Neste dia, ele e o garoto estavam separados por cinco pessoa na fila, e quando seu filho pegou a bandeja do almoço, viu que um homem, que seria gerente do local, começou a gritar dizendo que ele estava atrapalhando a fila.
Foi então que Kofi, para defender o menino, se dirigiu ao gerente dizendo para ele não gritar pois era apenas uma criança. O gerente, então, pegou a bandeja, colocou em cima de uma mesa e pediu para conversar com Kofi do lado de fora.
Ele foi apresentado a um outro homem conhecido como Zumbi, que disse ser chefe daquela unidade. Zumbi, na verdade, é Sebastião Ribeiro, secretário municipal de Assistência Social.
Kofi afirma que, durante a conversa, o gerente tentou agredi-lo e Zumbi disse que ele não tinha direito de ir ao Bom Prato por não ser brasileiro. Antes de sair do local, ele ainda ouviu o secretário dizer para outras pessoas da fila que "ele veio de uma país de bosta".
O ganês chegou a confrontá-lo e depois foi até a Prefeitura e a Câmara Municipal para fazer uma reclamação formal sobre o caso. Ele disse ainda por enquanto não vai mais aparecer no local pois está com medo pelo que aconteceu. Para ele, o secretário e o gerente deveriam ser punidos, por toda humilhação que fizeram Kofi e seu filho passar na frente de tantas pessoas.
Boletim de ocorrência
Pamela acompanhou Kofi, que tenou por duas vezes fazer o boletim de ocorrência na delegacia e não conseguiu. "Junto com um advogado e um representante do Compir ele conseguiu fazer de forma virtual, que em menos de uma hora foi assinado pela delegada", explica.
Confira abaixo o boletim na íntegra:


Palavra do Compir
Ao Portal BS9, Palema dos Santos, presidente do Compir, fez um grande desabafo:
"Toda vez que fico sabendo, que ouço e vejo o racismo uivando nas Estruturas, nas Instituições, o primeiro momento é de dor. Mas infelizmente nem temos tempo de sentir a dor, pois ele tomba um dos nossos a todo momento. O racismo e xenofobia matam .E mais uma vez e quantas vezes forem necessárias eu, enquanto mulher preta, que resisto todos os dias para existir,estarei no front junto com os outros irmão e irmãs, coletivos, e outras pessoas antirracistas Eu não poderia ficar somente lendo uma matéria sem protestar. O que ocorreu no restaurante Bom Prato em Cubatão, com uma criança negra e seu pai, imigrante ganês, é inaceitável. Um local onde todos deveriam ser bem acolhidos, pois a sociedade já faz o papel da exclusão muito bem feito. O que houve com Kofi foi Racismo Institucional e Estrutural acompanhado de Xenofobia. E não, nós não vamos nos calar! É resistir para existir".
A primeira conselheira do Compir, Lucélia Terezinha Avelino, também se manisfestou sobre o caso:
"Quando o Compir tomou ciência do acontecido, nós nos preocupamos em primeiramente ouvir todas as partes envolvidas. Então a gente notificou as secretarias envolvidas, da assistência social e a Secretaria do Estado, porque o Bom Prato ele é um um projeto em nível estadual. Até o momento nós não tivemos uma devolutiva dessas secretarias e estamos abertos a poder ouvi-las, para que a gente possa dar o melhor encaminhamento para esse caso. Por um outro lado a gente também ouviu a vítima, o senhor Kofi, nós demos auxílio jurídico a ele para que fosse lavrado o boletim de ocorrência. Estamos também trabalhando junto ao conselho tutelar porque o seu filho que é menor de idade estava junto com o pai quando Bom Prato se negou a vender a eles a comida. E tudo aquilo que já foi falado. Então nesse primeiro momento nós estamos procurando dar todo respaldo às vítimas, sobretudo à criança, e também a gente poder entrar ter contato com os lados envolvidos como supostos criminosos. Lembrando que racismo é crime".
Nota do Compir
Como defensores do direito à vida, o Compir de Cubatão exige que a Secretaria de Assistência Social do município e a Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo tomem medidas publicas urgentes contra todo e qualquer tipo de violência xenófoba.
Além disso, o Compir convoca todos os movimentos sociais e ativistas e todos os cubatenses a apoiarem essa luta, divulgarem e denunciarem o caso, para que esse tipo de situação não volte a acontecer e que se tomem as devidas providências para o atendimento necessário e urgente reparo dos danos causados aos imigrantes.
Confira a nota do Compir na íntegra:


Resposta
Em nota, a prefeitura de Cubatão rechaçou qualquer atitude de cunho xenófoba e esclarece que os fatos ditos por Kofi não condizem com o ocorrido, já que o secretário Sebastião Ribeiro foi procurado pelo ganês no dia 11 de março, após ter sido atendido no Bom Prato e ofendido com palavras de baixo calão. Zumbi, por sua vez, teria apenas explicado as regras de funcionamento do Bom Prato, que valem para todos os clientes do local.
Já a Secretaria de Desenvolvimento Social (Seds) do Estado, que é responsável pelos restaurantes Bom Prato, diz não compactuar com nenhum ato de preconceito dentro de seus equipamentos e que o Bom Prato tem a inclusão, o acolhimento e a dignidade às pessoas em maior situação de vulnerabilidade como suas principais características. A nota diz ainda que a pasta já iniciou a apuração dos fatos e, caso a denúnica seja confirmada, tomará as medidas cabíveis.
ver todos