EDUCAÇÃO
Às vésperas de completar 40 anos de carreira, professora de São Vicente relembra sua trajetória e os desafios da educação
Da Redação
15/10/2026 — quinta-feira às 13h00
Divulgação
No Dia dos Professores, celebrado nesta quinta-feira (15), a assessora pedagógica do Núcleo de Educação Ambiental da Secretaria da Educação de São Vicente (Seduc) revela como a vocação pode surgir de caminhos inesperados e se fortalecer a cada experiência. Formada em Ciências Físicas e Biológicas pela Universidade Santa Cecília, em 1986, ela ingressou no magistério em 1987 e encontrou na educação uma maneira de unir o interesse pela ciência ao desejo de contribuir para a sociedade.
Ao longo da carreira, construiu uma prática pedagógica marcada pelo contato com a natureza, pela defesa do meio ambiente e pela valorização das experiências dos estudantes. Nesta entrevista especial, ela revisita suas memórias e compartilha as convicções que continuam orientando seu trabalho.
Do sonho da pesquisa à paixão pela educação
"Quando me formei, não pensava em ser professora. Meu desejo era trabalhar com pesquisa científica. Sempre gostei muito de ciência e acreditava que poderia ser uma boa pesquisadora. Cheguei a participar de um processo seletivo para trabalhar no Instituto Butantan, com pesquisas relacionadas a soros e vacinas. A vida, porém, me levou por outros caminhos. Precisei fazer escolhas pessoais e, depois, prestei concurso para a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. Ingressei no magistério sem imaginar que aquela seria minha profissão.
Nos dois primeiros anos, enfrentei desafios. Aos poucos, porém, fui me apaixonando pela educação. Sempre trabalhei em São Vicente e, quando percebi que poderia contribuir para a formação das crianças do município, entendi que havia encontrado meu lugar".
Enquanto a pesquisa pode ser um trabalho mais solitário, a educação é feita de encontros
"A pesquisa continua presente na minha maneira de pensar, porque todo professor também é um pesquisador. Mas existe uma diferença importante: enquanto a pesquisa pode ser um trabalho mais solitário, a educação é feita de encontros. Por mais que a gente planeje uma aula, tudo pode mudar quando chegamos à sala e encontramos os alunos. Cada turma tem suas características, suas necessidades e suas descobertas. Foi esse contato com as pessoas que me conquistou. A educação é trabalhar com pessoas, para as pessoas e pelas pessoas."
A natureza como sala de aula
"Minha sala de aula sempre foi a natureza. Quando procurei fotografias antigas para recordar minha trajetória, percebi que quase não tinha registros dentro de uma sala convencional. Minha sala de aula era o pátio da escola, o entorno, os espaços de plantio e os remanescentes de manguezais.
Sempre que encontrava um espaço disponível, procurava transformá-lo em um ambiente de aprendizagem. Podia ser uma horta, um jardim, um canteiro ou até uma sala verde, construída com as mudas trazidas pelos próprios estudantes. Eu queria que eles aprendessem na prática, observando e experimentando.
No início da carreira, precisei me reinventar. Não queria ensinar da mesma forma tradicional como havia sido educada, baseada principalmente em livros, cópias e questionários. Percebia que os alunos já não se interessavam tanto por aquele modelo e comecei a buscar outras possibilidades.
O trabalho com o meio ambiente se tornou uma das marcas da minha trajetória. Sempre procurei mostrar as agressões ambientais e denunciar os problemas, mas acredito que a denúncia precisa vir acompanhada de esperança e de propostas de mudança. Não basta apontar o que está errado; precisamos mostrar que cada pessoa pode contribuir para transformar aquela realidade.
Também sempre fiz questão de levar os alunos para além dos muros da escola, oferecendo oportunidades de conhecer outros espaços e compreender melhor o lugar onde vivem.
Depois de tantos anos, continuo acreditando nessa forma de ensinar. Quando comparo as fotografias do início da carreira com os registros dos projetos atuais, percebo que a essência do meu trabalho permanece. Talvez tenham mudado o tom do meu cabelo e a minha voz, mas continuo acreditando no mesmo princípio: a aprendizagem ganha sentido quando se aproxima da vida".
Entre a maternidade e a profissão
"Ser professora e ser mãe são experiências diferentes. Para mim, foi até mais fácil ser professora do que mãe, porque, na escola, existe um vínculo afetivo, mas também um distanciamento profissional. Na maternidade, as emoções estão muito mais presentes. Quando me tornei mãe, passei a olhar para os meus alunos de outra maneira. Comecei a pensar ainda mais no que gostaria que fizessem pelas minhas filhas, e procurei oferecer às crianças aquilo que também desejaria para minha própria família.
Embora a maternidade e a docência tenham desafios distintos, existe algo que une essas duas experiências: o amor. É o amor pelas crianças, o desejo de cuidar e a vontade de contribuir para que elas tenham oportunidades de crescer. Conciliar o trabalho e a criação das minhas filhas nem sempre foi fácil. Houve períodos em que trabalhei de manhã, à tarde e à noite. Precisava organizar a rotina familiar, deixar as meninas na escola e contar com a ajuda da família para cuidar delas enquanto eu cumpria meus compromissos profissionais".
Minhas filhas chegaram a me perguntar como eu conseguia me dedicar a tantas crianças por dia
"Mesmo com tantas responsabilidades, procurava estar presente nos momentos em que minhas filhas precisavam de mim. Às vezes, o tempo era curto, e aqueles instantes juntos se tornavam ainda mais importantes. Não me arrependo das escolhas que fiz. Acredito que essas experiências me tornaram uma pessoa melhor e também fortaleceram minha relação com a profissão. Minhas filhas chegaram a me perguntar como eu conseguia me dedicar a tantas crianças por dia. E a verdade é que eu não saberia fazer outra coisa. A paixão pela educação surgiu depois que comecei a trabalhar e permanece comigo até hoje".
Os professores que deixaram marcas
"Minha formação aconteceu em um ensino muito tradicional. Naquela época, muitas aulas eram baseadas na cópia da lousa e na resolução de questionários. Não me lembro de muitas experiências diferenciadas durante a educação básica, mas uma professora de Língua Portuguesa deixou uma marca especial: a professora Vera.
Ela trabalhava com jornais em sala de aula e nos apresentava as notícias do Brasil e do mundo. Para nós, aquilo era diferente. Saíamos da rotina da cópia da lousa e tínhamos contato com outro material, que nos ajudava a compreender o que acontecia ao nosso redor. Hoje, quando penso na maneira como trabalho, percebo uma ligação com aquela experiência. Procuro apresentar os problemas ambientais e sociais, mas também mostrar caminhos para mudar a realidade".
Após assistir a um filme sobre a bomba atômica, percebeu que a ciência deveria servir à vida, não à destruição
"Na universidade, tive professores maravilhosos, que ampliaram minha visão sobre a ciência e o meio ambiente. Lembro especialmente de uma aula de Química em que o professor apresentou um filme sobre os impactos da bomba atômica. Aquilo foi muito marcante para mim. Naquele momento, comecei a pensar que a ciência não poderia estar a serviço da destruição: ela também precisava servir ao cuidado, à preservação e à vida.
As aulas de campo, os estudos nas praias e nos costões rochosos e o contato direto com a natureza reforçaram essa percepção. Eu queria trabalhar com pesquisa, mas, se me tornasse professora, sabia que também desejava levantar a bandeira das causas ambientais.
Esses professores foram importantes porque me ajudaram a compreender que ensinar não é apenas transmitir conhecimentos. É despertar perguntas, ampliar horizontes e mostrar que podemos atuar para transformar o mundo".
Uma professora também é transformada pelos alunos
"A professora Vandilma de hoje foi construída ao longo do tempo. A gente não nasce professor, nem aprende a exercer a profissão de um dia para o outro. Eu fui lapidada pelas experiências e pelas pessoas que encontrei no caminho. E por quem fui lapidada? Pelos meus alunos.
Hoje percebo o quanto melhorei por causa das crianças e dos jovens que passaram pela minha vida, dos colegas de trabalho, dos diretores, dos professores formadores e dos amigos com quem compartilhei experiências. Ninguém constrói uma trajetória profissional sozinho. A convivência nos transforma e nos ajuda a enxergar outras possibilidades.
Às vezes, encontro antigos alunos que se lembram das aulas e dizem que alguma experiência fez diferença em suas vidas. Isso me emociona, porque me faz perceber que aquilo que fazemos como professores pode continuar produzindo resultados muito depois de uma aula terminar".
Ser professora vai além de ensinar conteúdos e envolve o compromisso com a formação de crianças e adolescentes
"Ao longo desses anos, aprendi que ser professora vai muito além de ensinar conteúdos. É preciso se comprometer com a formação das crianças e dos adolescentes, promover oportunidades e ajudá-los a descobrir suas próprias capacidades.
Ser professora é ter vontade de promover mudanças e transformações. É ensinar a sonhar, ensinar a voar, abrir portas e janelas para que os estudantes possam enxergar novas possibilidades.
É isso que me move. Continuo acreditando que a educação pode transformar as pessoas, a nossa cidade, o nosso bairro e o mundo. E, enquanto eu puder contribuir para que meus alunos encontrem novos caminhos, continuarei fazendo aquilo que aprendi a amar: ensinar".
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