EDUCAÇÃO
TCC produzido por grupo investiga relação entre consumo e identidade, pertencimento e cultura periférica
Da Redação
23/09/2026 — quarta-feira às 08h00
Divulgação
Quando uma marca de luxo chega à periferia, ela continua representando a mesma coisa? Essa foi uma das perguntas que levaram sete estudantes de Comunicação Social da ESAMC Santos a desenvolver o Trabalho de Conclusão de Curso "Paradoxo do Luxo: impactos de marcas de luxo na vida de jovens da periferia de São Vicente". O projeto deu origem a um documentário jornalístico sobre consumo, identidade e pertencimento.
Fazem parte do grupo os alunos Allana Vitória Rodrigues, Evelyn Freitas Santos, Fabíola Santos, Flavia dos Santos, Gabriel Alves, e as vicentinas Julia Carvalho e Maria Fernanda Lopes.
A escolha do tema começou ainda durante a graduação, a partir de uma pesquisa realizada pelos estudantes sobre o impacto de marcas entre jovens da periferia. O que inicialmente parecia uma discussão sobre roupas e consumo acabou revelando outras questões, como autoestima, identidade e a necessidade de pertencer a determinados grupos.
"Quando a gente começou a pesquisar, percebeu que era um assunto muito maior do que simplesmente usar uma marca. Tinha questões de identidade, autoestima, pertencimento e até sobre como a pessoa quer ser vista", explica Maria Fernanda.
Foi também durante a pesquisa que o grupo percebeu que não existe uma única forma de consumir ou enxergar o luxo dentro da periferia. Alguns jovens demonstram interesse por marcas e logotipos, enquanto outros preferem peças sem identificação aparente ou valorizam principalmente o caimento e a estética da roupa.
"Eu achava que a questão das marcas era muito mais uniforme. Mas, durante as entrevistas, percebi que não. Tem gente que gosta muito de logo, tem gente que não gosta e prefere uma roupa que vista bem. Isso mostra que a periferia não pode ser tratada como uma coisa única", afirma Maria Fernanda.
A partir dessas diferenças, o grupo chegou ao que considera um dos principais pontos da pesquisa: o luxo não possui um significado único. Dentro da periferia, produtos e marcas podem assumir novos sentidos e passar a representar elementos de identidade e pertencimento.
A pesquisa aborda justamente essa transformação. O trabalho analisa o consumo de bens de grife como uma forma de linguagem social, capaz de comunicar identidades, trajetórias e aspirações. Também investiga a influência da cultura, da música e dos meios de comunicação na construção desse imaginário.
A periferia como criadora de tendências
São Vicente foi escolhida como recorte porque, segundo Maria Fernanda, a Cidade reúne uma forte cultura periférica e diferentes manifestações que ajudam a compreender essa relação.
"Eu escolhi São Vicente porque é uma cidade que tem uma cultura periférica muito forte. Tem o funk, tem os artistas, tem os bairros e tem toda uma identidade que faz parte da construção da Cidade. E eu também tenho uma relação muito forte com São Vicente".
Ao observar esse cenário, os estudantes também passaram a questionar a ideia de que a periferia ocupa apenas o lugar de consumidora. Para o grupo, ela também produz referências, influencia comportamentos e participa da construção de tendências.
"A periferia não é só consumidora. Ela também cria, influencia e movimenta a moda. Muitas coisas que hoje são vistas nas marcas começaram dentro da própria periferia", conta.
Um dos aspectos observados durante a pesquisa foi justamente a capacidade de ressignificação. Produtos criados originalmente para outros contextos podem ganhar novos usos e significados quando incorporados à cultura periférica.
"É como se a periferia ressignificasse tudo aquilo que ela toca. Uma coisa que foi criada para uma finalidade passa a ter outro significado dentro daquele contexto", explica Maria Fernanda.
Nesse processo, o grupo também analisou a influência do funk, do rap, do trap e das redes sociais. Se antes os artistas eram importantes referências para a construção dos desejos de consumo, atualmente influenciadores, plataformas digitais e diferentes manifestações culturais também participam dessa relação.
Para chegar às conclusões do trabalho, os estudantes foram a campo e realizaram entrevistas com pessoas de diferentes perfis, além de observarem situações do cotidiano em bairros, festas, lojas e outros espaços de São Vicente.
O contato direto com os entrevistados fez com que algumas percepções iniciais do grupo fossem revistas. Para Maria Fernanda, uma das situações que mais chamou atenção foi perceber que muitas pessoas nunca tinham sido questionadas sobre a relação que mantinham com as marcas.
"Teve gente que falou que ninguém nunca tinha perguntado aquilo para ela. E foi justamente isso que me fez perceber que é um assunto muito presente, mas que quase não é discutido", conta.
As entrevistas também mostraram que a roupa pode comunicar muito mais do que uma preferência estética. Ao longo da pesquisa, os estudantes encontraram relatos que relacionavam as peças utilizadas à identidade, à origem, à forma como cada pessoa deseja ser percebida e ao sentimento de pertencimento.
Do trabalho acadêmico para o documentário
A escolha pelo audiovisual surgiu justamente da vontade de colocar essas vozes no centro da produção. Em vez de limitar a pesquisa ao texto acadêmico, o grupo decidiu transformar as descobertas em um documentário jornalístico.
"O texto acadêmico é importante, mas eu queria que isso chegasse para outras pessoas também. No documentário, você consegue ouvir quem vive aquilo, ver essas pessoas e aproximar o público dessa realidade", explica Maria Fernanda.
A produção acabou provocando mudanças também na maneira como os próprios estudantes enxergavam o tema. Para Maria Fernanda, pesquisar a relação entre luxo e periferia fez com que ela passasse a observar a cultura periférica para além de estereótipos.
"Eu comecei a perceber que a periferia ressignifica tudo que ela toca. E isso mudou muito a minha forma de olhar para essas pessoas e para essa cultura".
O trabalho foi finalizado e apresentado em 15 de setembro de 2026. Para os estudantes, a pesquisa deixa uma reflexão que vai além das marcas: entender a periferia também como espaço de criação, consumo, influência e produção cultural.
"Não existe um país sem periferia. Então acho que a gente precisa olhar para essas pessoas sem pena, mas entendendo a realidade delas e valorizando o que elas produzem".
Link do documentário:
https://drive.google.com/file/d/1saG0l6ER85GDH1bJYg1EWcycdPlfja1c/view?usp=drivesdk
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