ECONOMIA
Com 92,8 milhões de toneladas movimentadas no primeiro semestre, alta de 5,05% maior complexo portuário da América Latina amplia operações e coloca a saúde mental dos trabalhadores no centro da discussão sobre segurança
Da Redação
06/09/2026 — domingo às 07h04
Divulgação
O Porto de Santos vive um momento de expansão da operação e pressão por aumento de capacidade. O complexo movimentou 179,8 milhões de toneladas em 2024, recorde histórico, e chegou a 92,8 milhões de toneladas no primeiro semestre de 2026, volume 5,05% superior ao registrado no mesmo período do ano passado. Enquanto o setor discute novos investimentos, gargalos operacionais e a realização do leilão do Tecon Santos 10 (STS10), uma variável fundamental para sustentar esse crescimento ainda recebe menos atenção: as condições de saúde mental de quem mantém a operação funcionando.
A discussão ganhou uma nova dimensão com a entrada em vigor da atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), em maio deste ano. A norma passou a contemplar expressamente os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho dentro do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), aproximando a saúde mental da agenda tradicionalmente associada à segurança do trabalho. Na prática, questões como sobrecarga, organização do trabalho, assédio e outros fatores relacionados à forma como o trabalho é estruturado passam a integrar a gestão de riscos das organizações.
Para Renata Conrado, sócia-diretora da Great People Mental Health (GPMH), empresa especializada em saúde mental corporativa e desenvolvimento de pessoas, a mudança exige uma revisão da forma como as organizações enxergam o tema. "Durante muito tempo, saúde mental foi tratada principalmente como uma questão de RH, relacionada ao acolhimento, benefícios e qualidade de vida. A NR-1 amplia essa perspectiva ao colocar os riscos psicossociais dentro do gerenciamento de riscos ocupacionais. Saúde mental passa a ser também uma questão de segurança, produtividade, continuidade operacional e estratégia do negócio", explica.
A preocupação é especialmente relevante em atividades de alta complexidade, como a portuária. Uma operação que funciona de forma contínua depende de trabalhadores submetidos a diferentes jornadas, funções, níveis de responsabilidade e condições de trabalho. Fadiga, estresse, sobrecarga e outros fatores psicossociais podem afetar concentração, tomada de decisão, relacionamento entre equipes, absenteísmo e desempenho. Em atividades nas quais atenção e precisão são fundamentais para a segurança, os impactos ultrapassam o indivíduo e podem alcançar a própria operação.
A discussão sobre saúde mental também passa pela produtividade. No setor portuário brasileiro, a relação entre aumento de carga e disponibilidade de mão de obra já chama atenção: entre 2013 e 2023, a movimentação nacional de cargas passou de 931 milhões para 1,3 bilhão de toneladas, crescimento de cerca de 40%, enquanto o número de trabalhadores caiu de 35 mil para 30 mil, redução de 15%. Em Santos, eram 6.728 estivadores em 2023, sendo 6.005 trabalhadores avulsos e 723 contratados pelo regime CLT.
Não há, atualmente, uma prevalência oficial de transtornos mentais entre os trabalhadores do Porto de Santos. Os dados nacionais, porém, ajudam a dimensionar o cenário em que o setor está inserido: levantamento da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), com dados oficiais do INSS, contabilizou 393.670 afastamentos por transtornos mentais entre janeiro e novembro de 2025, contra 219.850 em 2023. O número de 2025, ainda referente a apenas 11 meses, já supera o registrado em todo o ano de 2024.
No setor portuário, a questão ganha uma dimensão adicional porque a organização da jornada está diretamente relacionada à segurança da operação. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) classifica a fadiga como um perigo específico no trabalho portuário e alerta para os riscos associados a jornadas prolongadas. Em um ambiente no qual navios determinam janelas de operação e trabalhadores podem ser submetidos a escalas em horários pouco convencionais, como a madrugada, cuidar da saúde mental também significa administrar um fator de risco operacional.
"Quando falamos de saúde mental no trabalho, não estamos falando apenas de bem-estar. Estamos falando de capacidade de concentração, tomada de decisão, produtividade, absenteísmo e segurança. Em uma operação portuária, na qual diferentes atividades acontecem simultaneamente e qualquer falha pode gerar consequências para outras etapas da cadeia, cuidar das pessoas também é uma forma de proteger a operação", afirma Paulo Gaspar, sócio-diretor da empresa.
O debate ganha espaço justamente durante o Setembro Amarelo, período dedicado à conscientização sobre prevenção do suicídio e à valorização da vida. Para o setor portuário, entretanto, a discussão sobre saúde mental não deve se limitar ao calendário da campanha.
A nova NR-1 estabelece que os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho devem ser considerados dentro do gerenciamento de riscos ocupacionais, reforçando a necessidade de identificar situações que possam contribuir para o adoecimento e atuar sobre as condições de trabalho. Em vez de ações isoladas de conscientização, a proposta é incorporar a prevenção à rotina de gestão das organizações.
"Setembro Amarelo é uma oportunidade para falar sobre prevenção, mas a saúde mental do trabalhador precisa ser discutida durante todo o ano. No setor portuário, essa discussão é ainda mais estratégica porque estamos falando de uma atividade essencial para a economia brasileira, que cresce e se moderniza. A pergunta que precisamos fazer é: estamos preparando apenas a infraestrutura para esse crescimento ou também as pessoas que vão sustentá-lo?", conclui Renata.
Sobre a Great People Mental Health
Fundada em 2021, a Great People Mental Health (GPMH) foi criada a partir da Great Place to Work (GPTW), organização com mais de 30 anos de atuação e referência em cultura organizacional. Com essa base sólida, a GPMH é especializada em soluções para a gestão da saúde mental no ambiente corporativo. A empresa integra neurociência, inteligência artificial, ciência de dados e prática clínica para apoiar organizações na identificação, monitoramento e gestão de riscos psicossociais, transformando informações em indicadores que subsidiam a tomada de decisões estratégicas. Além do diagnóstico organizacional, oferece soluções voltadas à adequação das empresas às exigências da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), incluindo mapeamento de riscos psicossociais, elaboração de matrizes de risco, apoio à implementação do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), programas de capacitação para lideranças e equipes, Certificação em Saúde Mental e Trilhas de Aprendizagem.
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