TUDO MENTIRA
Mulher disse que inventou história porque havia abortado e não teve coragem de contar ao companheiro
Por Alexandre Fernandes - Redação BS9
07/05/2022 — sábado às 07h33
A câmera na Imigrantes registrou a passagem de apenas um táxi, que não tinha nada a ver com o caso relatado por Deise - (fotos: reprodução e Ecovias)
A história beirava o inacreditável. Uma gestante de Santo André afirmava ter sido sequestrada quando ia de táxi para a maternidade, submetida ao parto no carro e largada em São Vicente sem o bebê. Mesmo assim, a polícia foi atrás e não demorou muito para descobrir que tudo não passava de uma farsa. E as câmeras de monitoramento do Sistema Anchieta-Imigrantes foram fundamentais para a elucidação do caso.
Interrogada pelos agentes do SHPP (Setor de Homicídios e de Proteção à Pessoa) de Santo André na tarde de quinta-feira, dia 5, a técnica de enfermagem Deise do Espírito Santo, de 46 anos, foi confrontada com a informação das imagens. Sem saída, admitiu ter inventado tudo. Ela realmente esteve grávida da quarta filha, mas sofreu um aborto espontâneo no quinto mês de gestação.
Com base no relato inicial de Deise, os investigadores analisaram mais de quatro horas de imagens das câmeras instaladas na praça de pedágio da Rodovia dos Imigrantes e constataram que, naquele período, havia passado apenas um táxi por ali. Entraram em contato com o motorista, mas logo perceberam que ele não tinha nenhum envolvimento com o caso.
Durante as investigações, os agentes também solicitaram à Polícia Federal que intensificasse a fiscalização em portos, aeroportos e fronteiras para que nenhum recém-nascido passasse sem ter a documentação minuciosamente checada. No entanto, nada de anormal foi informado.
Sem coragem de contar a verdade
Deise contou aos policiais civis que, no quinto mês de gravidez, abortou de forma espontânea o feto, que não estava íntegro para ser enterrado. Como o companheiro dela, Rodrigo Morais de Oliveira, de 38 anos, estava muito feliz por ser pai pela primeira vez, não teve coragem de contar o que havia acontecido.
Nos meses seguintes, a profissional da saúde manteve a farsa como pôde. Estufava a barriga o tempo todo, fez até chá de bebê. Conseguiu também uma licença do trabalho, pois havia o risco de contrair Covid-19. E achou que conseguiria dar fim a tudo isso com a história do sequestro.
Conforme relatou no SHPP, a mulher foi na manhã de terça-feira, dia 3, até o terminal Jabaquara, na Capital, onde pegou um transporte com destino a São Vicente. Hospedou-se em um hotel e ficou lá por cerca de meia hora. Nesse período, enviou uma mensagem para Rodrigo fingindo ser uma pessoa que havia achado o celular dela em um supermercado. Depois de tudo isso, achou um terreno vazio, onde jogou o aparelho e a bolsa que levava.
Na noite de quinta-feira, depois de prestar depoimento, Deise teve de voltar a São Vicente, onde o caso também era investigado por uma equipe da Delegacia Sede. Levada ao hotel, teve confirmada a sua entrada na terça. Além disso, todos os pertences foram localizados.
Primeira versão
Até antes do depoimento, Deise sustentava a versão de que havia sentido a bolsa estourar na manhã de terça-feira, dia 3. Ela, então, pegou um táxi que estava parado em frente à UPA (Unidade de Pronto Atendimento) Jardim Santo André, com destino à maternidade do Hospital Christóvão da Gama.
Depois de ter parado em um posto de gasolina para, supostamente, abastecer o carro, o motorista parou alguns metros à frente para que uma mulher entrasse. Conforme o relato da técnica de enfermagem, ela tinha "sotaque argentino" e uma cruz tatuada acima da sobrancelha. Essa mulher, então, anunciou o sequestro e vendou os olhos da vítima.
Ainda de acordo com a história de Deise, o parto foi feito no carro, já em São Vicente. Depois disso, ela foi deixada próximo à linha do Veículo Leve Sobre Trilhos (VLT) sem a bebê, levada pelos sequestradores. Pediu ajuda em um posto de gasolina e ligou para Rodrigo, que acionou a Polícia. Já era início da noite.
História perde força
Deise foi ao Hospital Municipal de São Vicente acompanhada da Polícia Civil, Guarda Civil Municipal e do Corpo de Bombeiros. E aí, a versão dela começou a perder força. Segundo a Prefeitura, responsável pela unidade de saúde, um exame laboratorial apontou que ela não estava grávida. A mulher insistiu na história e uma das filhas, Ester Brito, que veio de Santo André para encontrá-la, decidiu levá-la de volta para o ABC.
Na madrugada de quarta-feira, dia 4, a profissional da saúde deu entrada no Hospital Christóvão da Gama. Lá, foi internada para realizar novos exames e passar por uma curetagem. Ao Portal BS9, Ester criticou a forma como a mãe havia sido atendida em São Vicente e afirmou que os exames no hospital do ABC indicavam um parto recente.
Quando reuniram elementos suficientes para confrontar Deise, os policiais do SHPP pediram a Rodrigo para que ela fosse levada à delegacia assim que tivesse alta médica. Foi lá que o autônomo soube de toda a verdade. Deixou o local arrasado.
Com a palavra
Filha de Deise, Ester se pronunciou sobre o caso falando em nome da família em uma postagem no Facebook, publicada na noite de quinta. Leia a íntegra:
"Boa noite! Nós familiares agradecemos a todos que nos ajudaram nesses últimos dias!
Infelizmente no 5° mês de gestação a Deise teve um aborto espontâneo o que abalou extremamente seu psicológico, e acabou não conseguindo nos contar. E nós não esperávamos por toda essa situação.
Pedimos nossas sinceras desculpas a todos que compartilharam e se empenharam junto conosco. Sabemos que como família fizemos a nossa parte da melhor forma possível!
Agora pedimos que continuem orando, rezando e pedindo por ela e pelo Rodrigo, pois esse momento é muito delicado, e vamos nos dedicar exclusivamente para ajudar e apoiar no que for possível!
Agradecemos a todos pela colaboração!"
Deixe a sua opinião
ver todos