ENTREVISTA DE DOMINGO
Muito mais que o coelho e ovos, a Páscoa é uma data de grande importância aos católicos
Por Gabriella Domingos - Redação BS9
16/04/2022 — sábado às 18h15
Padre Cláudio Scherer atua há quase 21 anos pela Diocese de Santos, atualmente no Santuário São Judas Tadeu, em Santos - Foto: reprodução/Redes Sociais
Muito mais que um "coelhinho da Páscoa, o que trazes para mim?", a Páscoa, comemorada neste domingo, dia 17, é uma data religiosamente simbólica e de tradição cristã, que celebra a ressureição de Jesus Cristo três dias após ser crucificado no Calvário.
Surgiu como ressignificação de uma festa realizada por judeus na antiguidade e que ainda é celebrada, chamada Pessach, que significa "passagem" ou "páscoa judaica". A festa ocorre em obediência a uma ordem de Javé e relembra ao povo judeu a libertação dos hebreus da escravidão no Egito. Com o surgimento do cristianismo, foi dado um novo sentido à esta celebração em homenagem ao sacrifício de Jesus.
Segundo o calendário cristão, a Páscoa corresponde ao encerramento da Semana Santa. As comemorações começam na "Quinta-Feira Santa", em seguida com a "Sexta-Feira Santa", finalizando com o "domingo de Páscoa".
Neste dia reunimos a família para almoçar um "peixinho", entregar os ovos para os pequenos ou ir as celebrações das igrejas. E por falar em ovos, porque considerá-los símbolos desta data? Em alguns casos até mais que o próprio significado da Páscoa? É o que explica ao Portal BS9 - Litoral e Vale o Padre Cláudio Scherer, que atua no Santuário São Judas Tadeu, no Marapé, em Santos, e fala também sobre o significado deste dia, além de deixar uma mensagem a todos.
1- Por que existe a Páscoa?
A Páscoa é uma tradição judaica e cristã. Trata-se do povo que eram escravos no Egito, e após tanto sofrimento causado pelo faraó, ele os libertou. Nisto surge a ideia do sofrimento e libertação. De morte, por causa do sofrimento, e a libertação que acontece com Moisés. Isto acontece porque Deus faz uma intervenção quando vê o sofrimento de seu povo e os escuta, com isso manda Moisés. No novo testamento com a presença de Jesus, o novo Moisés, já não se trata de uma libertação social, nem da escravidão material ou de um ser humano contra o outro mas do pecado, dos vícios. Jesus dá a vida, é o cordeiro perfeito. No Egito existe o cordeiro, que é o último momento, a última praga. Quando Deus tira os filhos primogênitos dos egípcios, entretanto para aqueles que tivessem o sangue do carneiro pintado na porta da casa, o anjo da morte não passaria. Então Jesus se torna o novo cordeiro que dá a vida pelos nossos pecados, pois aquilo que nos destrói somos nós mesmos, com nossa preguiça, inveja, luxúria, ganância, orgulho, gula e avareza; não é o que vem de fora para dentro, mas o que sai de dentro de nós. Então Jesus nos liberta do pecado e abre a possibilidade de nós termos uma vida eterna e plena, ou seja, nossa vida não é só para este mundo mas para o céu; começamos aqui e continuamos lá.
2- Como podemos associar a Páscoa com o tema da Campanha da Fraternidade neste ano, que diz: "Fraternidade e Educação"?
A Páscoa é uma passagem da indignidade para a dignidade, do sofrimento e morte para a vida. A educação é um direito do ser humano, algo que precisamos para nos desenvolvermos como pessoas, seja a educação humana, de valores, que é uma coisa ampla, e também a educação para uma profissão, técnica, do conhecimento, da ciência e cultura. Mais do que nunca, a Páscoa tem que nos lembrar que todo o ser humano tem direito a educação e dignidade.
3- Em tempos de violência, guerra e ódio, qual reflexão a Semana Santa nos traz?
No horto das oliveiras, quando está sofrendo e Pedro pega a espada, tira a orelha do servo/soldado, Jesus diz a Pedro: quem pela espada ferir, também ferido será por ela. Então se você usar de violência e/ou guerra, você também sofrerá com isto. E Jesus é o homem da paz, que faz com que nós vençamos os nossos conflitos interiores, e com isso vencemos os conflitos sociais, de um povo contra o outro. A mensagem de Jesus é a que vai se replicar, se materializar depois em grandes homens, como Gandhi, que olhava para Jesus e adaptou ao que chamava de 'não violência'; logo depois vem Martin Luther King, que olha para Jesus e Gandhi (que materializou isso quando libertou a Índia dos britânicos) e utiliza a mesma mensagem. Jesus sofre em silêncio, não agride, não devolve a violência que estava recebendo.
4- Existe uma relação cristã entre a Páscoa e o coelho/ovos de páscoa? Por que são considerados um símbolo?
A questão do coelho e ovos é a ideia da fertilidade. O coelho é fértil, não põe ovo. Sua fertilidade é a ideia de vida que sempre vence aquilo que é ruim e a morte. O ovo representa a surpresa, ressureição, aquilo que está escondido dentro de todo o ser humano ou na vida eterna e em abundância que Jesus vem nos trazer. Por isso são considerados símbolos, pois nos ajudam a entender a fertilidade do coelho e a surpresa do ovo, da vida que trás dentro de si, não é a ressureição de Jesus.
5- Como muitas crianças não entendem a religiosidade por trás da Páscoa, como elas interpretam o significado do coelho e ovos?
Infelizmente elas interpretam isto apenas como uma questão do prazer momentâneo do chocolate. As crianças já não estão sendo mais educadas neste valor religioso, místico e sagrado, como fala o tema da Campanha da Fraternidade. Fica apenas o prazer do material em si, do coelho, do chocolate e do ovo de chocolate, isto é o que a criança quer, porém não consegue mais fazer esta ligação com a Páscoa. Estes símbolos cristãos/católicos, como é São Nicolau, ou o coelho e o ovo, estão "roubando o lugar" de Jesus. O mercado acaba usando isto a seu favor, não com a honestidade que precisaria porque são símbolos religiosos, são trazidos ao longo de séculos, trabalhados para que as pessoas possam compreender tamanha beleza que é a Páscoa e o Natal.
6- Você acredita que a Páscoa está perdendo seu real significado?
Acredito que tanto a Páscoa como o Natal. Estamos nos descristianizando, nos pagãnizando. Sociedades que estão aproveitando destes símbolos religiosos, de uma forma muito inteligente e marketeira para si, para vender, fazer com que as pessoas sintam que são festas familiares, de harmonia, mas tirando completamente o compromisso religioso de cada uma delas, que é a vida de Jesus. É o nascimento, a paixão, a morte e a resurreição Dele e o dono das festas está ficando esquecido. Veja como estes são inteligentes, porque pegaram aquilo que é nosso e transformaram em símbolos maiores do que o próprio cristo. Estão vendendo, ganhando, lucrando e pagãnizando as pessoas.
7- O que dizer para aqueles que resumem a Páscoa a chocolates?
Dizer que isto é uma festa muito pobre, assim como o Natal, que se resume só a presentes. As pessoas se empobrecem e com isso ativam nossos vícios, depressões pessoais e sociais, pois a vida perde o sentido. Se uma festa tão bonita se resume apenas ao chocolate, então não tem nada a me oferecer enquanto mudança de sentido de vida, do meu caminhar nesta terra, e com isso acabo me esvaziando. O ciclo do vício é muito simples: é o desejo, a busca, a satisfação, a depressão porque passou o prazer e retorna ao desejo. Você se encontra neste ciclo apenas e não consegue encontrar um sentido mais profundo para sua existência. Então têm muitos "chocólatras" por aí, que vivem neste vício. Eles desejam o chocolate, vão em busca dele, compram, gastam o que não podem às vezes, satisfazem o vício, depois acaba o prazer e aí entram em depressão, logo depois entram neste ciclo novamente.
8- Qual sua mensagem de Páscoa?
É uma mensagem de esperança, de vida. É resgatar o sentido de um Deus tão apaixonado por cada um de nós, pela criatura que Ele manda o que tem de melhor, que é seu próprio filho. Jesus se encarna e derrama até a última gota de sangue e água para dar a vida a nós todos. Jesus se entrega, se sacrifica para que eu possa viver. Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida para seu amigo.
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