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SURF EM SÃO VICENTE

Surf Inclusivo mergulha no Itararé e conecta pessoas com deficiência ao mar de São Vicente

Aulas gratuitas movimentam a Praia do Itararé com pranchas adaptadas, histórias inspiradoras e inclusão real sobre as ondas

Da Redação

02/08/2025 - sábado às 05h00

Com forte tradição no surfe desde os anos 1960, São Vicente amplia seu legado esportivo com ações que valorizam a inclusão. Um dos exemplos é o Surf Inclusivo, projeto que promove aulas gratuitas para pessoas com deficiência — física, visual, auditiva, intelectual ou múltipla — com idades entre 9 e 65 anos. As atividades são realizadas na Escola de Surf Radical, localizada na Praia do Itararé, no canto da Ilha Porchat.


A iniciativa é realizada pela Associação Socioeducativa de Esporte e Lazer (ASEL) com apoio da Prefeitura de São Vicente, e conta com reconhecimento da Federação de Surf do Estado de São Paulo. As aulas ocorrem no canto da Ilha Porchat, local considerado o principal ponto de surfe da cidade e são conduzidas por equipe especializada com foco na segurança e na adaptação de cada participante.


"Tem gente que nunca teve contato com o mar. A ideia é oferecer essa oportunidade, respeitando o ritmo de cada um. Às vezes, só de encostar o pé na água já muda tudo. O surfe é o meio, mas o que a gente promove aqui é um momento que transforma vidas", destaca Hélio Willian, o Mad, coordenador do projeto.
Antes de irem para o mar, os alunos participam de uma avaliação no Clube Ilha Porchat, onde são acompanhados por profissionais de diferentes áreas. As aulas começam com atividades na areia e instruções básicas, até o contato direto com o mar, sempre com supervisão.


Entre eles estava Antônio Alves, skatista renomado que nasceu sem as duas pernas e já coleciona troféus no asfalto. Faltava o mar. E a conexão foi imediata.


"Já tinha surfado com uns amigos, mas só brincando, sempre caindo. Quando soube que ia rolar aula aqui, bem mais perto de casa, pensei: por que não tentar de verdade?", contou Tony, que começou no skate como meio de locomoção e acabou deslizando para as competições.


Com técnica, paciência e troca de pranchas, Tony pegou sua primeira "aula oficial" de surfe, e logo soltou manobras, do jeito que só quem tem o equilíbrio de viver fora dos padrões consegue.


"Vai em frente. Não escuta o que os outros falam. Se alguém disser que você não vai conseguir, é balela. Vai por ti, vai viver, vai sair da bolha. No fim, é só ganho. Não tem nada a perder", completa.


O projeto também disponibiliza equipamentos adaptados, como pranchas maiores e uma estrutura semelhante a um cockpit, feita com fibra de vidro e poliuretano — o mesmo material das pranchas profissionais — para dar estabilidade e segurança a pessoas com limitações severas.


Essa energia também move o professor Rodney Costa, que atua no projeto desde o início. Ao lado de uma equipe afiada, ele conduz as aulas com zelo, alegria e prioridade total na segurança.


"A gente começa com recriação na areia, depois passa as instruções com calma. A pessoa entra com a gente, sempre com alguém na contenção. Tudo tem que ser bem alinhado, porque dependendo da limitação, qualquer descuido pode comprometer. Por isso, nossa maior preocupação é a segurança e a felicidade deles", explica Rodney.


"Tem gente que antes ficava só no calçadão. Hoje já interage, se joga na areia, entra na água. Isso mexe com a autoestima, com a coordenação, até com o sistema respiratório. É saúde em todos os sentidos".


Já a parte mais engenhosa dessa história começou com uma amizade e um desafio. Taiu Bueno, campeão brasileiro de Big Rider, sofreu um acidente no litoral norte e perdeu os movimentos do corpo. Durante uma brincadeira entre amigos, foi lançado no mar com um cumbóia, parte da prancha que serve para dar estabilidade, só por diversão. Mas a semente estava plantada.


Ali surgiu a ideia de algo maior: desenvolver uma prancha adaptada de verdade, pensada para o conforto e a estabilidade de atletas com limitações severas.
"A cadeira foi feita em fibra de vidro e poliuretano, o mesmo material das pranchas. É como um cockpit — a pessoa entra e fica ali, de boa, sem cinto, sem escorregar, totalmente segura", explica Alexandre Passos, o Cebola, responsável por esse avanço técnico.


"O que a gente tem hoje aqui, em termos de equipamento, não se vê nem fora do país. E o melhor: é de graça. Esporte adaptado é um direito, não um luxo. E precisa chegar a mais gente", ressalta Cebola.


As inscrições para o Surf Inclusivo estão abertas de forma contínua e gratuita. Para participar, basta acessar o site do Sympla (https://www.sympla.com.br/evento/surf-inclusivo-2025/2933477)  e preencher o formulário. Após a inscrição, o aluno é agendado para avaliação e inserido nas aulas conforme disponibilidade.


Além do Surf Inclusivo, a cidade também conta com a Escola Radical de Surfe, voltada para crianças e adolescentes de 7 a 17 anos. As inscrições podem ser feitas pelo Instagram oficial (@escoladesurfradical).(https://www.instagram.com/escoladesurfradical?igsh=amsyYXZ6NHVlZmRz)  ou presencialmente na tenda do projeto, na Praia do Itararé, no canto da Ilha Porchat, localizado atrás do Clube Ilha Porchat.


Para Mad, o projeto representa mais do que inclusão no esporte, é uma nova forma de pertencer: "Em São Vicente, o surfe nunca foi só manobra. É encontro. É voz. É um chamado que não escolhe corpo, idade ou condição. Onde tudo começou. Onde tudo continua".

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