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Entrevista de Domingo

Sueli Lopes fala sobre mediunidade e diz que é hora de estarmos mais unidos

Médium diz que precisamos enxergar evolução no momento atual e que nada disso é culpa de Deus

Por Lucas Campos - Redação BS9

06/06/2021 - domingo às 07h00

Sueli, que descobriu a mediunidade há 21 anos, é presidente do Grupo Espírita João Cabete - (foto: arquivo pessoal)

“Sou apenas alguém que tem uma esperança enorme no coração e um desejo imenso de, de alguma forma, ir ao encontro do Mestre, estar com ele no meu pensamento, no meu coração e auxiliar a quem eu possa. Com muita humildade, reconhecendo sempre a minha pequenez, a minha indigência espiritual. Mas sem jamais perder o meu otimismo e a minha esperança de me tornar uma pessoa melhor a cada dia”.

É assim que se define Sueli Lopes Fernandes, presidente do Grupo Espírita João Cabete, em Santos. Nascida em berço católico, só conheceu a doutrina espírita após ter se casado, aos 20 anos.

Com o tempo, ela foi começando a estudar as obras de Alan Kardec (1804-1869) e Chico Xavier (1910-2002) e percebendo, durante as reuniões espíritas que frequentava, que ficava envolvida por uma energia que não sabia até então distinguir. Só percebia que tinha muita necessidade de sorrir e rir, mesmo sem vontade, algo que vinha de fora. Então, com o passar do tempo, desenvolveu sua mediunidade.

Primeiramente, com a psicofonia, que é a comunicação de espíritos através da voz do médium. E, depois de mais um tempo, desenvolveu a psicografia, conhecida pela capacidade atribuída a certos médiuns de escrever mensagens ditadas por espíritos, a qual ela desenvolve até hoje.

E, nisso, já se passaram 21 anos. Conheça mais sobre a Sueli Lopes na entrevista a seguir:
 
1- Como surgiu o Grupo Espírita João Cabete?
A fundação desse grupo realmente transcende a tudo que é da humanidade física, porque nunca pensei na minha vida em fundar um grupo espírita. Estava numa viagem à Uberaba para ver o Chico (Xavier) com um grupo que eu ia todo ano chamado Fraternidade Espírita de Expansão Cristã. Passando por Sacramento, terra de Eurípedes Barsanulfo (médium, 1880-1918), passamos na chácara da família dele, na qual reconstruíram o quarto da casinha de Eurípedes, onde a gente entrava, em silêncio, para fazer preces. Era um quarto muito singelo, muito simples, e você ficava ali em oração, e era uma energia que não dá para descrever, sutilíssima. E eu, de repente, comecei a ver uma tela fluídica, muito nítida, com um chalezinho amarelo com três degraus na frente, uma varandinha e uma árvore, um chapéu-de-sol, bem na frente. Aquele chalé, naquele quadro fluídico, ficou bastante tempo sendo percebido por mim, até se diluir. Quando eu saí de lá não entendi por que vi aquilo. Mas, saí de lá refeita, em paz comigo, muito agradecida. Voltei para o ônibus da excursão com meus companheiros e, trocando ideia com um dos nossos irmãos, ele disse que, talvez, fosse um trabalho novo que ia surgir para mim. Voltei para Santos e acabei falando, também, com a Marcia, nossa companheira desde o Fraternidade, que é hoje vice-presidente do Cabete. E, aí, ela sempre muito prática, falou para mim: "Sueli, vamos dar uma olhadinha nos classificados? Porque eu acho que, se esse chalé existe, deve estar em algum anúncio”. E nós vimos, então, um anúncio que dizia: "Aluga-se chalé na Rua Alfaia Rodrigues, 533". Pegamos o carro e fomos até esse endereço. Era o chalé que eu tinha visto! Então, nós compreendemos que aquilo era um chamamento da espiritualidade. E nós acabamos, então, fundando o grupo espírita João Cabete nesse chalezinho muito pequenininho, que cabia pouca gente, mas ali funcionamos por quase dois anos (hoje está na Rua Santos Dumont, 227, Macuco).

2- O centro desenvolve algum projeto social e espiritual?
Nós entregamos cestas básicas para 90 famílias todo mês, temos aulas profissionalizantes, como de corte e costura e de maquiagem, que foram interrompidas na pandemia. E temos também a companhia de uma advogada muito querida que presta serviços gratuitos para quem precisa de orientação da Lei. Entregamos enxovais para recém-nascidos que estão em famílias carentes e isso tudo é uma bênção para nós. Os trabalhos espirituais foram interrompidos durante a pandemia e só temos hoje uma reunião de evangelho pública, na terça-feira, das 19h às 20h, com passe coletivo, e uma reunião de evangelho público às quintas-feiras, das 15h às 16h.

3- Você acredita que a doutrina do espiritismo está sendo bem difundida, bem aceita, hoje?
Acredito que sim, a doutrina espírita hoje em dia é muito mais conhecida. Porque quando ela teve início ano Brasil, e mesmo em Santos, os primeiros núcleos sempre deixavam uma pessoa na porta para saber se a polícia chegava, porque era proibido por lei reuniões espíritas. Então, a doutrina espírita já atravessou muitas dificuldades. Mas, com o tempo, e com a mediunidade dos grandes missionários que vieram, em especial nosso amado Chico Xavier, e tantos até antes dele que trouxeram conhecimentos, abriram portas que ajudaram as almas, que forneceram à humanidade um manancial de bênçãos. Então, a doutrina espírita, hoje, é muito conhecida, sim, e eu acredito que a propagação dela continuará cada vez maior.

4- E a questão do preconceito religioso, da intolerância religiosa, ainda é muito forte?
Eu acredito que já foi pior. Acredito que hoje já está menos intenso. As pessoas não têm tanto medo do espiritismo. Antes, não conheciam e acreditavam ser algo que transcendia a compreensão delas. Eu me lembro que, quando a mamãe soube que eu estava participando de reuniões espíritas, ela ficou muito triste comigo. Ela ficou muito angustiada. Porque ela acreditava que a doutrina espírita podia levar à perturbação mental. Então, disse que ela sabia como havia me educado, ela e meu pai, e que eu jamais faria algo que ferisse os princípios que eles me deram. Ela ficou um pouquinho mais tranquila... O tempo, no entanto, se encarrega de colocar tudo no seu lugar. Ela sofria de uma enxaqueca muito grave. Havíamos levado minha mãe a todos os especialistas neurologistas e nada melhorava a situação. Eu perguntei em uma reunião que frequentei sobre minha mãe e disseram que era uma mediunidade que estava eclodindo, mas, como ela não aceitava, sofria muito. Então, uma vez que ela estava em uma crise muito forte, eu tinha chegado na casa dela, ela estava no quarto, todo escuro, e eu pedi para ela se eu podia orar em voz alta. E ela, angustiada do jeito que estava, acabou deixando. Fiz uma prece e percebi que, durante a oração, ela deu uns socos na cama com muita ira, que não era o perfil dela. Depois que acabei a prece, esperei um pouquinho e perguntei a ela o que ela havia sentido e ela falou que teve vontade de quebrar o quarto inteiro. E eu falei: “Mãe, a senhora está vendo como tem alguma coisa estranha? A senhora percebe? A senhora adora esse apartamento. Enfeita tudo, limpa tudo, não pode ser a senhora, minha mãe. Existe algo externo que precisa ser cuidado”. Foi então que ela concordou, pela primeira vez, em fazer uma reunião, na casa dela mesmo, com a presença do meu pai, e depois a mediunidade dela eclodiu, como já era de se esperar, e ela tornou-se uma maravilhosa espírita, que dava um passe inesquecível, e que com certeza está no mundo espiritual trabalhando muito.

5- Como a psicografia surgiu na sua vida? E como ela acontece? Quem quiser receber uma carta de alguém desencarnado, o que faz?
As minhas psicografias de entes queridos começaram há mais de 40 anos e a primeira vez que eu recebi foi um caso de uma moça que faleceu naquele incêndio enorme do Edifício Joelma, na cidade de São Paulo, em 1974. Esse edifício veio ardendo em chamas e muitas pessoas desencarnaram. Uma coisa que me marcou muito é que na carta ela diz à mãe que ela estava no corpo espiritual com seus cabelos totalmente preservados. E, quando eu fui conversar com a mãe, ela me contou que a filha era muito vaidosa com os cabelos e, quando ela faleceu, a primeira coisa que a mãe se angustiou foi porque ela tinha perdido os fios por causa do incêndio. São coisas de coração de mãe. Minha mediunidade na psicografia é muito mais intuitiva do que mecânica. E para receber uma carta hoje, basta ir ao centro que nós orientamos. Mas é sempre possível pedir vibrações aos desencarnados colocando o nome do ente querido sobre a mesa na qual eu fico nos encontros de terça-feira.

6- Do ponto de vista do espiritismo, por que o mundo está passando por essa pandemia?
No livro A Gênese da Obra, de Allan Kardec, o capítulo 18, Os Tempos São Chegados, traz explicações sobre a transição planetária que estamos vivenciando agora. No item número 34, ele diz: “É um desses movimentos gerais que se opera neste momento, o que deve trazer o remanejamento da humanidade. A multiplicidade das causas de destruição é um sinal característico dos tempos. São as folhas de outono que caem, às quais sucederão novas folhas cheias de vida, pois a humanidade tem estações, como os indivíduos têm idade”.

7- E qual a explicação para tudo isso que está acontecendo?
Geralmente, nós queremos explicação para tudo. Acontece que isso é praticamente impossível, porque estamos vendo apenas o mundo dos efeitos, nós não alcançamos o mundo das causas. Como nós estamos vendo apenas o mundo dos efeitos, nós não temos alcance para entender o porquê, a causa do que nos acontece. Mas sabemos que, por ser a Terra uma grande escola, tudo é aprendizado. Tudo é lição, por mais difícil que seja, nós estamos aqui para crescermos individualmente. E é muito importante que a gente perceba na dor um processo que nos ilumina. Se não fosse a dor não teríamos o progresso, porque é justamente o sofrimento que faz com que o ser humano se movimente em busca de soluções. Sem a dor, nós estaríamos totalmente inertes. Basta ver o que acontece hoje: cientistas se reuniram mundialmente para alcançar uma vacina que, normalmente, só seria alcançada em anos. Então, vemos que a dor é uma mola propulsora da evolução. Nós não devemos temer a dor, ela faz parte do processo e é sempre um processo de alerta para uma mudança para melhor. Então, não temamos a dor, mas temamos ficar iludidos com algo que não nos leva a lugar nenhum. Ninguém quer sofrer, e é assim que tem que ser, nós não podemos ser masoquistas, mas nós temos que compreender que a dor é um processo evolutivo natural. Agora, explicações, por enquanto, nós não alcançamos, porque temos que ter uma consciência tão elevada a ponto de atingir o mundo causal e, por hora, para nós isso é praticamente impossível. Mas, se Deus é misericórdia, tudo que nos acontece tem um propósito superior.
 
8- Esse tipo de tragédia que estamos passando dá margem para as pessoas questionarem a fé. Então, se Deus sabe de todas as coisas, por que tantas pessoas boas estão deixando este plano?
Se o próprio Jesus passou pela crucificação, e ele que era puro de coração, não tinha nenhuma mácula, e sua passagem pelo planeta foi puro amor e misericórdia, nós que somos espíritos endividados perante a própria consciência vamos questionar o quê? Pessoas boas estão voltando, pessoas ‘menos boas’ estão voltando. Todos estão de alguma forma atravessando essa situação e alguns estão se despedindo do planeta no sentido da sua materialidade. Mas ninguém perdeu a vida. Perdeu o corpo físico. A vida é eterna. A vida é Deus. Deus é eterno, nós também somos. Então, a vida é sempre a vida. E a verdadeira vida, se nós formos pensar bem, não é a vida da Terra. A vida da Terra é uma passagem. A única certeza que temos é que um dia retornamos à pátria espiritual. Deus é pura misericórdia e não quer o sofrimento de nenhum de seus filhos. Acontece que cada um de nós está escrevendo a própria história e o próprio destino. E, se estamos aqui no planeta atravessando tudo isso, é porque de alguma maneira ainda temos sintonia com tudo que está acontecendo aqui. Cabe a cada um de nós fazer a nossa evolução com muita consistência, muita consciência e vermos se nós estamos aproveitando esses ensinamentos todos, essa dor e sofrimento que estão nos cercando para sermos mais humildes, mais magnânimos, mais caridosos, mais misericordiosos, com larga condição de perdoar, de amar, mesmo aqueles com os quais não nos afinamos. Vamos fazer toda essa reflexão em vez de querer encontrar alguma culpa em Deus. Deus não tem culpa de nada. Deus é o criador de tudo que vemos e de tudo que não vemos.

9- Qual mensagem você quer passar para as pessoas neste momento?
Eu gostaria de dizer a todos os meus irmãos queridos que nós estamos juntos, que nós não estamos separados como ilhas, isolados uns dos outros. O universo é um organismo vivo, totalmente integrado, totalmente conectado. Há uma imagem poética que diz que não se pode acariciar uma pétala de rosa sem tocar uma estrela, mostrando, assim, que tudo está ligado. A nossa mente está conectada com as outras mentes. Nosso pensamento interage com outros pensamentos, encarnados e desencarnados. Mas há uma coisa que nós precisamos ter em mente, especialmente nesses instantes de provação: nós não estamos isolados da misericórdia divina. A bondade do céu está sendo revelada em toda parte, a espiritualidade amiga está conosco em nossos lares, nas escolas, nas ruas, nos hospitais, nos postos de socorro, em toda a parte. Vamos, assim, perceber que a Terra inteira se transforma no grande templo divino, na qual nós estamos exercendo a nossa função. Vamos aceitar isso e vamos perceber que nunca foi tão necessário expandirmos a nossa fé, mas não aquela fé no sentido de querer ser testemunho de fenômenos, mas aquela fé amadurecida que percebe a grandeza do universo e a perfeição que está em toda parte. Façamos, então, um esforço para entrarmos mais em sintonia com a bondade divina, com a misericórdia do Alto, com os benfeitores que estão servindo e trabalhando intensamente pelo bem de todos nós. Façamos do nosso lar um templo de oração e paz. Respeitemos todos os nossos irmãos em humanidade, vendo neles família. Nós expandimos, dessa forma, a nossa consciência para algo que é real, que é verdadeiro e que nos ajuda. Não nos entreguemos nem à revolta nem à angústia, vamos nos fortalecer. Agora é a hora de darmos as mãos e formarmos uma imensa corrente fraterna para avançarmos rumo ao grande futuro que aguarda a humanidade.

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