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Entrevista de Domingo

Recordista da modalidade, Picuruta celebra presença do surfe nas Olimpíadas

Aos 60 anos de idade, 53 deles dedicados ao esporte, santista comemora 24 anos de sua escola neste domingo, Dia Internacional do Surfe

Por Adriana Martins - Redação BS9

20/06/2021 - domingo às 07h00

Picuruta faz pose no emissário, junto à arte que homenageia o pai, Alexandre Salazar, o Bigode - (foto: Adriana Martins/BS9)

A história de vida de Alexandre Salazar Júnior, o Picuruta Salazar, é marcada por desafios e sonhos transformados em realidade. Tanto que já rendeu até filme. Colecionador de títulos – são 170, entre campeonatos nacionais, internacionais e mundiais –, ele é também um batedor de recordes. Para se ter ideia, surfou, por 37 minutos, em uma pororoca no Rio Araguari, no Amapá.
 
Picuruta fala da família com um carinho e orgulho que emocionam. A começar pelo pai, Alexandre Salazar, o Bigode, grande incentivador de sua carreira, morto em 2015, e pelos irmãos, Lequinho, já falecido, e Almir, que fabrica pranchas.
 
Casado e pai de três filhos, orgulha-se por ter uma família que vive 100% do surfe. A mulher e o filho Caio atuam com ele na Escola de Surfe e Competição Picuruta Salazar, que fica no antigo Emissário Submarino, em Santos, uma parceria com a Prefeitura. O filho Matheus, que mora no Havaí, é campeão brasileiro de stand-up; e Leco é campeão mundial de stand-up. E tem um neto de 3 anos que já cresce com um baita potencial para o esporte. “Mas ele vai fazer o que escolher para a vida dele. O que importa é fazer o que gosta”.
 
O supercampeão também é apaixonado por animais: “Eu e minha mulher resgatamos animais de rua. Temos 18 cachorros e três deles vivem na praia, são cães comunitários: o Surfe, o Floquinho e o Neguinho. Tinha o Parafina também, mas hoje ele representa o Brasil nas etapas de Mundial de cachorros na Califórnia (sim, há campeonatos para cães surfistas). Ele está com meu ex-professor, Augusto Martins. O Parafina é bem famoso”.

Nesta entrevista, ele relembra algumas histórias e é categórico: o Brasil tem 100% de chances de trazer uma medalha de ouro no surfe nas Olimpíadas de Tóquio.

1- Você começou a pegar onda em uma época em que o surfe era marginalizado e lutou muito pela profissionalização do esporte. Neste ano, o surfe estreia como modalidade nas Olimpíadas de Tóquio. O que essa conquista representa?
Uma vitória. É a constatação de que a nossa luta nas décadas de 1960 e 1970, época em que realmente o surfe era marginalizado, valeu a pena.  Jamais imaginaria que o surfe chegaria nas Olimpíadas. Isso é fruto de um trabalho de muitos anos. E sei que eu e minha família temos boa parte de colaboração nessa conquista. Principalmente meu pai, que acreditou nos sonhos dos filhos. Eu e meus irmãos, Lequinho e Almir, sonhávamos em ser surfistas e competir já na década de 60, quando todo mundo falava para o meu pai que ele teria filhos vagabundos, marginais, que não iam fazer nada na vida a não ser pegar onda. Graças a Deus conseguimos superar as dificuldades e viramos surfistas profissionais. Hoje, toda a minha família vive 100% do surfe, por isso é um orgulho saber que nosso esporte está nas Olimpíadas. Para quem não sabe, temos 100% de chances de sermos campeões olímpicos, porque hoje os dois maiores surfistas do mundo são brasileiros (Gabriel Medina e Italo Ferreira).
 
2- Da mesma forma que o surfe foi um sonho para você e seus irmãos, com a sua escola você lida com o sonho de muitas pessoas que querem subir numa prancha – muitas delas, crianças carentes. Você se vê como um realizador de sonhos?
Acredito que a gente tem missões na Terra. E, talvez, uma de minhas missões possa ser essa, ensinar as pessoas a pegar onda. A Escola de Surfe e Competição Picuruta Salazar (inscrições abertas, veja abaixo), no Emissário Submarino, é um sonho que completa 24 anos neste domingo, dia 20, que é o Dia do Surfe. E espero que esse sonho possa durar muitos e muitos anos. Já revelei muitos talentos e fiz, sim, vários sonhos virarem realidade. Um deles foi o de um casal, que me deixou muito contente. O homem tinha ficado intubado por 16 dias, por causa da Covid-19, e quase morreu. Ele contou para mim que falou com Deus que, caso se salvasse da Covid, queria realizar o sonho de pegar onda. E consegui ajudá-lo a tornar esse sonho realidade. Ele esteve aqui no Dia dos Namorados, com a namorada. Coloquei os dois em pé, surfando, na mesma onda. Foi emocionante.

3- Mesmo depois de mais de 50 anos, o surfe, as histórias que envolvem o surfe ainda te emocionam?
São 53 anos. E me emociono só por acordar e estar vivo, agradeço a Deus sempre por isso. Imagina quando alguém chega para você e fala que tem um sonho e você consegue realizar esse sonho? Não tem como não me emocionar quando coloco uma criança de pé na prancha. E um dos sonhos que me deixou mais emocionado foi a realização do meu filme (Picuruta – A Lenda do Gato, de 2018), que passou nos cinemas do Brasil inteiro. No final, meu pai aparece falando sobre tudo que passamos na nossa vida, na nossa carreira. Não tem como não chorar.

"A vida não foi fácil. Mas tudo que é fácil a gente não dá valor. As coisas precisam ser difíceis para você acreditar e saber que venceu" - Picuruta Salazar


Deus coloca obstáculos na vida para ver se você é forte. Aqueles que param pelo caminho é porque não nasceram para ser campeões. Passei por muitas dificuldades – não só eu, mas meu pai, minha família – para chegar aonde cheguei. Não são dez, 20 anos. São 53 anos dedicados a uma modalidade. A gente passava com prancha, e a polícia ia atrás, achava que a gente era vagabundo, maconheiro. Apesar disso, fiz do meu hobby a minha profissão. Hoje ganho dinheiro fazendo algo que acreditei. A gente tem que correr atrás dos sonhos, sim, para que eles virem realidade.

4- E são 170 títulos e vários recordes, nacionais e mundiais. Dá para eleger o momento mais marcante da sua carreira?

Dá, sim. O campeonato que ganhei em homenagem ao meu irmão, em 1988. Foi um evento brasileiro, com 300 surfistas. Estava em um momento muito difícil, depressivo, por ter perdido meu irmão (Lequinho morreu em 1987). Imagina perder o cara que te colocou de pé pela primeira vez? Que era, praticamente, meu pai e minha mãe nas horas em que eles saíam para trabalhar. Meu pai era mecânico e minha mãe, costureira. Meu irmão era minha segunda mãe e meu segundo pai. E quando eu o perdi, queria parar de pegar onda. Mas meu pai me abraçou e falou: ‘Vamos dar a volta por cima, vamos correr um campeonato e ganhar em homenagem a ele’. E foi o que aconteceu.
 
5- Como se forma um campeão de surfe? É um esporte caro?
A formação de um atleta depende muito da dedicação dele. E quando você vê que ele tem talento, começa a trabalhar em cima dele. São cinco, sete anos até ele começar a se destacar. E há muitas dificuldades: falta de patrocínio, falta de apoio, de incentivo. Mas com estrutura, é possível revelar novos Medinas, novos Felipes Toledo, Italos Ferreira... Temos 8 mil quilômetros de praias no Brasil. Imagina quantos talentos podem ser revelados? Com o surfe brasileiro fazendo um campeão nas Olimpíadas, espero que grandes empresas, que não são ligadas ao esporte, comecem a incentivar e a patrocinar mais campeonatos, mais escolas de surfe. Uma prancha de long board pode custar R$ 3 mil; uma pranchinha, R$ 2 mil. Uma roupa de borracha para o frio custa R$ 1 mil, R$ 1,5 mil, e tem mais parafina etc. Mas se a pessoa não tem condição e quer surfar, ela pode procurar uma escola, que dá toda a estrutura. A nossa escola fornece cordinha, parafina, camiseta de lycra, prancha... E quando a gente vê que o aluno começa a se destacar, sempre tem doações de pranchas na escolinha.
 
6- Muitos surfistas, hoje, são como celebridades, levam vida de celebridade. É muito diferente da sua época?
Mudou muito.  Teve uma época, inclusive, que o Medina foi muito criticado por isso, por circular com jogadores de futebol, pagodeiros... Nada impede de andar com essas pessoas e até de se tornar celebridade, mas tem que preservar um pouco da nossa raiz. Brigamos para nos tornar o que somos hoje. A gente lutou muito, e é preciso que as novas gerações deem continuidade a esse trabalho de valorização do surfe. Sou o cara mais simples que você pode imaginar. Muita gente me pergunta: você é tão conhecido, por que não entra para a política? Respondo que, se eu virar político, vão deixar de me ver na rua, porque dificilmente a gente vê político por aí, só quando tem eleição. Aí eles te procuram, batem palmas, andam do teu lado. Eu não nasci para isso. Nasci para estar na rua, andando e falando com as pessoas. Isso me faz bem. Eu me considero povão. E quero continuar levando essa vida humilde, que é o que gosto.

7- Que conselho você dá para quem quer fazer carreira no surfe?
A primeira coisa: jamais deixe de estudar. Você pode até se tornar um surfista profissional, mas o estudo é superimportante na sua vida, principalmente ter um diploma. Se um dia não conseguir vencer na vida de surfista, pelo menos terá um diploma para vencer na profissão que estudou. E tente fazer as coisas que gosta, faça o que o coração mandar e te faz bem. E tem que se dedicar, enfrentar dificuldades e correr atrás dos sonhos, fazer com que virem realidade. Santos é o lugar mais fácil que tem para aprender a surfar. Tem uma onda bem esparramada, bem fraquinha. No Emissário, quando o mar sobe, é o lugar onde ela fica maior. Se for sentido à Ponta da Praia, ela vai diminuindo. 
 
8- A preocupação com os estudos tem a ver com sua história? Você deixou de estudar cedo?
Muito. Parei de estudar no terceiro ano primário. Meu pai se separou da minha mãe, e ele tinha que trabalhar. Quem cuidava de mim era o Lequinho, meu irmão mais velho. Sabia que ele foi descoberto pelo Seu Pepe, no Dente de Leite do Santos? Chegou a ser jogador profissional. Olha que história engraçada. O Lequinho foi chamado para fazer um treino na equipe profissional do Fluminense, no Rio de Janeiro, só que no dia tinha altas ondas e ele não apareceu. Aí o empresário ligou para o meu pai e contou. Meu irmão falou: ‘Pai, quero ser surfista, não jogador’. O meu irmão Almir, que hoje é um dos maiores fabricantes de pranchas do mundo, era formado em torneiro mecânico, mas largou a profissão para fabricar pranchas. Eu, no embalo, fui atrás deles, querendo só pegar onda, viver do surfe.

"Deu tudo certo, mas me arrependo de ter parado de estudar. É lógico que era outra fase da vida, mas se eu pudesse voltar no tempo, gostaria de ter estudado e pegado onda ao mesmo tempo" - Picuruta Salazar 


9- Você começou a surfar na região do José Menino mesmo?

Sim, no Canal 1. Olha que coisa engraçada. Morava há três quadras daqui (a entrevista foi na Padaria Roxy, no Canal 1 com a Av. Marechal Floriano Peixoto). E quando começamos a pegar onda, a prancha era tão pesada, que eu e meus irmãos íamos para a praia pelo canal, remando. Era a época em que os bondes ainda circulavam, no início dos anos 70. A água do canal era limpa e a gente mergulhava lá. Não tinha essa poluição. Hoje não tem a menor condição de entrar no canal. A gente comia jambolão e cuca das árvores, perto do Orquidário. Quando tinha dinheiro, comprava pão, enchia de açúcar e comia. Passava o dia inteiro na praia. Eu e meus irmãos paramos de estudar tão cedo, que meu pai falou para a gente: ‘Vocês querem ser surfistas? Então, façam bem-feito, para não se arrependerem depois. Vocês vão passar muita dificuldade, mas espero que deem continuidade a isso”. A gente chegava em casa cedo, meu pai mandava a gente voltar para a praia, para treinar, porque a gente tinha que vencer. E foi assim que me tornei campeão.


Serviço:
A escola de surfe de Picuruta (acima, com o filho Caio) está com inscrições abertas para alunos a partir de 7 anos – sem limite de idade. Para se matricular, os interessados devem acessar o Instagram oficial da escola (@escoladesurfpicurutasalazar), entrar em contato por mensagem direct e indicar o horário em que desejam fazer as aulas.
 
O aluno será contatado pela escola e, havendo disponibilidade, deverá apresentar cópia de comprovante de residência, atestado médico emitido há pelo menos três meses e duas fotos 3x4 diretamente na escola de surfe.
 
As aulas acontecem às terças e quintas-feiras, das 10h às 11h e das 11h às 12h, além das 15h às 16h e das 16h às 17h (último horário é oferecido apenas no verão). As vagas são limitadas e, em decorrência da pandemia de covid-19, a escola está operando com apenas 40% da sua capacidade.

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