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Entrevista de Domingo

Preto Zezé quer a favela falando de igual para igual com as autoridades

Presidente nacional da CUFA esteve na Baixada e tocou em outros assuntos, como pandemia, fome, racismo, violência e religião

Por Alexandre Fernandes - Redação BS9

25/07/2021 - domingo às 07h00

Segundo Preto Zezé, com a pandemia, a CUFA passou a pedir comida e dinheiro, algo que nunca havia feito antes - (foto: Preto Zezé/Instagram)

O cearense Preto Zezé já foi rapper. E isso fica muito evidente em suas entrevistas. Com rapidez de raciocínio, fala rápido, sem fazer uma única pausa em cada uma das longas respostas que dá. Poderia muito bem iniciá-las com "Eu tenho algo a dizer" e mandar ver.
 
A referência ao emblemático primeiro verso da música Voz Ativa, lançada pelo Racionais MCs em 1992, não é por acaso. Atual presidente nacional da Central Única das Favelas (CUFA), ele luta justamente para mostrar que as comunidades da periferia têm voz ativa, têm algo a dizer.
 
E não só para os moradores desses territórios, mas também para as autoridades. "A favela precisa participar da discussão das soluções. Vai ter retomada econômica? Vai. Nós queremos participar", disse.
 
Tanto é verdade que, na última quarta-feira, dia 21, Preto Zezé se encontrou com os prefeitos de Santos, Rogério Santos, e Praia Grande, Raquel Chini, durante sua passagem pela Baixada Santista. A região tem cerca de 190 favelas, onde moram mais de 300 mil pessoas. É lá que a CUFA Baixada Santista tem atuado, com os programas Baixada Solidária - Na Luta Contra a Fome e Mães da Favela, entre outros. 
 
Foi nesse dia 21 que o presidente concedeu uma entrevista exclusiva ao Portal BS9, num prédio do Centro de Santos. Descontraído, assim que chegou ao escritório, foi à janela, que tinha vista para os morros, para tirar fotos e gravar vídeos. Durante a conversa, falou de tudo: ações da organização durante a pandemia, o papel da igreja nas favelas, racismo, violência, política e por aí vai.
 
Ao final, quando parei a gravação no celular, Preto Zezé viu o tempo marcado na tela e falou, sorrindo: "32 minutos de rajada". E foram mesmo.
 
1 - Quando foi que o senhor despertou para a consciência social?
O acordar vem quando você começa a se envolver com as questões que têm que ser resolvidas. Porque, assim, para o cara que está ali no morro (aponta em direção ao Monte Serrat, na janela) não existe Santos, existe ali, a área dele. Se a escada está legal, a subida do bonde, se a água está legal, se vai ter baile no outro dia, se o emprego está legal, se não tem tiroteio, se a quadra de esportes está funcionando... Ali é a Santos dele, não existe a Santos cidade. Santos é onde o cara está, é a rua dele. E se juntar mais gente, você começa a ver que dá para fazer grandes mudanças naquele território. Mas a grande mudança (em despertar uma consciência social) é a gente se perceber como tal. Isso é muito louco. As pessoas me perguntam: "O que é mais forte na CUFA?" Você pensa que as campanhas, as ações são importantes demais, é o que dão a nossa cara. Mas (mais importante) é o investimento nas emoções das pessoas. Se elas acreditam que é possível fazer uma mudança e que elas têm que ser protagonistas, a mudança vai acontecer. Pode não ser a perfeita, mas nós vamos trabalhar de alguma forma para que ela aconteça. E para mim, pessoalmente, (esse despertar) aconteceu em vários aspectos. Teve a coisa de trabalhar na rua, o hip-hop, que foi muito importante para a questão da identidade, do negro de expressão. Mas eu sentia falta de uma coisa na prática. E quando vem a CUFA, em 2000, é que dá essa noção, melhora esse discurso, dá uma organizada nesse ódio, uma politizada nessa revolta. Organiza uma agenda, qualifica melhor a capacidade de intervir, dialogar, tanto na favela como no asfalto. A gente se torna poliglota e começa a transitar em vários lugares e aí, dá um impacto e você se coloca pessoalmente. E do ponto coletivo, como favela, em lugares que as pessoas nunca imaginaram. E muitas vezes dá até choque.
 
2 - Tem aquele ditado que diz que não basta dar peixe ao pobre; é preciso ensiná-lo a pescar. Mas durante a pandemia, a CUFA resolveu fazer as duas coisas: distribuir cestas básicas e preparar empreendedores, como já fazia. 
"E direcionar a fome, porque é a vontade de comer que te mobiliza. No sentido mais amplo de fome do que a fome física. A fome no sentido de buscar alternativas de saída. Você manter uma organização permanente de ações, buscando melhorias no território. É dessa fome que eu falo, da fome de agir, de fazer as coisas acontecerem, de trazer soluções. Mas é porque é a primeira vez também, em mais de 20 anos de existência da CUFA - eu estou há 19 anos, vou fazer 20 este ano -, que a gente pede comida, dinheiro. A gente nunca fez isso. Sempre desenvolvemos nossas ações baseados em formar lideranças, construir agenda política e apresentá-la para os poderes público e privado. E aí, fomos obrigados pela pandemia a converter essa nossa rede de atuação em outra coisa. Porque o centro das nossas ações é a mobilização das pessoas. Então, você imagina, numa pandemia, ter que desmobilizar geral. Então, acabou o que era essencial para nós. Mas por incrível que pareça, a CUFA se ampliou, ficou mais forte. As pessoas perguntam como a gente tem conseguido alcançar números tão expressivos no momento mais difícil. Eu tenho dito que o momento difícil é o nosso normal. É como se a desigualdade brasileira fosse um guarda-roupa e o Covid é uma peça dentro dele. É como se fosse uma espécie de naufrágio, em que o afogamento é seletivo. Nas favelas estão as pessoas que mais se afogam, e as mulheres principalmente. Por isso que a gente lançou o programa Mães da Favela e essas campanhas de arrecadação.
 
3 - Então, hoje, para a CUFA, a fome é a questão mais urgente.
Você já tinha fome, mas não tinha no nível em que está hoje, adicionado a questões muito complexas. Por exemplo, se você olhar março do ano passado, a informalidade já estava nos 40, 50% nas favelas. O desemprego alcançava 11 milhões (de pessoas); hoje deve estar em 14 milhões. Uma situação de saúde que não era tão agravada porque (a pandemia) estava começando. Quando entra 2021, com 14 milhões de desempregados, crise econômica, a demora do auxílio emergencial em mais de três meses, a queda de 85% nas doações, no nosso caso, você tem ingredientes perigosíssimos combinados. E aí, com a crise econômica agravada, vem o caso daquele cara que morava de aluguel, tinha até um negócio, ficou desempregado, não conseguiu mais pagar aluguel e ele, a mulher e as crianças tiveram que morar na rua. E quando vai morar na rua, não tem mais nenhum meio de sobrevivência. Quando você vê os barracos na rua, os caras que já estão na rua têm o barraco num formato bem direitinho. Já um negócio mais desregulado é daquele cara que não imaginava que fosse morar na rua. E tem o advento da fome. Eu já passei fome e é um negócio desesperador porque não atinge só o físico. Atinge a nossa ideia de "que coletividade eu faço parte? Eu faço realmente parte da sociedade? Por que a sociedade não me vê?". Mexe com umas crenças que temos sobre acordos civilizatórios que nós fizemos, e isso é muito perigoso. E hoje nós estamos aí, com 20 milhões de pessoas passando fome no Brasil.
 
4 - A violência nas favelas prejudica o trabalho da CUFA?
A gente atua em favelas do Brasil inteiro. Em favelas que têm milícias, facções das mais variadas. Todos esses grupos têm uma demanda de soluções muito grande no território. E nós não temos problema porque estamos na ponta da solução. E eu estou falando isso do ponto de vista também de quem não tem nenhuma relação de promiscuidade, mesmo reconhecendo que esses grupos têm uma força, um poder estabelecido nesses lugares. Quando você começa a trabalhar uma agenda de soluções, uma agenda para desenvolver ativos positivos dentro desses territórios lembrados somente como lugar de tragédia ou quando a política pública pensa como problema; quando eu começo a ver esse lugar como solução, como inovação, como potência, eu passo a direcionar uma subjetividade. Uma ideia de potência desse lugar, levando-o para uma seção de destaqie no BS9, para os cadernos de economia. Então, eu começo a fazer uma ponte rumo a um lugar que a favela até então não habitava. Nós estamos fazendo (doações de) cesta básica hoje e tem gente que vê só o resultado final. Mas se você olhar, por exemplo, o que tem do ponto de vista de logística, de entrega, trabalho, de eficiência, de foco, de mobilização, nós estamos com mais de 50 mil pessoas todos os dias. Pessoal nos barcos, quatro horas rios acima... Rio Negro, Rio Amazonas, pessoas deixando cestas básicas em comunidades ribeirinhas, em quilombos, até o extremo sul do Rio Grande do Sul. Isso é um ativo, é uma tecnologia. Neste momento, se a gente não faz essas ações, talvez a situação estivesse bem pior e mais complicada.
 
5 - Pessoas e entidades que promovem o combate ao racismo, à LGBTfobia, à misoginia e outras ações em prol da diversidade passaram a ser chamadas pelos mais conservadores de "turma da lacração". E a CUFA sempre apoiou essas causas. Como o senhor vê isso?
Agora essas pautas estão tendo visibilidade, mas elas sempre existiram. O Brasil é um país com 521 anos de existência, mas com 388 anos de escravidão. E é um país que tem vergonha de si próprio. Tanto é que ele diz que não tem racismo, que nós convivemos bem, que se existe preconceiro, é um preconceito social que eu não sei como o que diabos é isso ainda. Mas o Brasil é esse amontoado de assumir que nós temos racismo, mas ninguém assume que pratica. Então, a pergunta é onde nós escondemos o nosso racismo? No discurso, isso é mais coisa de internet porque na vida real, as coisas são bem práticas. O que nós estamos tentando produzir é um diálogo com todas as partes, principalmente no debate econômico, no debate da política pública. A favela precisa participar da discussão das soluções. Vai ter retomada econômica? Vai. Nós queremos participar. Essa tem sido uma forma de manter as coisas em que a gente acredita, de lutar contra a desigualdade, contra o racismo, contra essas questões. E ao mesmo tempo poder dialogar de maneira que a gente não seja colocado nesse lugar da lacração e do mimimi. É muito difícil dizer que é mimimi uma instituição que, mesmo no pior momento, consegue atender 6 milhões de pessoas. É muito difícil dizer que é lacração pessoas que poderiam ter ficado em casa, mas não, foram pra rua, se arriscar. Inclusive perdemos muitas vidas e muitos de nós foram  contaminados nessas ações até hoje. As pessoas perguntam: "O que você acha do 'fique em casa'?" A gente não sabe. A gente nunca ficou em casa. Quando as pessoas falam isso, eu digo que não transito por essa gramática da lacração, do mimimi. A gente transita por agendas concretas, não estamos só debatendo e discutindo na rede social. E eu acho que precisamos ter acordos em torno dessa agenda de soluções. Quando a gente tiver uma agenda de soluções, aí nós discutimos quais os políticos que atendem aos nossos interesses, quais os partidos. A gente dialoga com todos os gestores públicos para encaminhar essas agendas. Então, a gente tem que ter isso claro para não cair na vala comum de ser colocado como lacração e mimimi.
 
6 - Na sua opinião, por que as igrejas têm uma penetração tão forte nas favelas. E o que o senhor acha da forma como elas atuam?
Eu acho que o crescimento das igrejas, principalmente evangélicas, é um reflexo da ausência do Estado. Na vida social não tem vácuo. Se tem um vácuo do Estado, alguém vai ocupá-lo, seja o crime, a igreja, a CUFA... Agora, um elemento específico dessa questão é como a igreja mobiliza a subjetividade das pessoas? Para que você vai à igreja? Se você olhar os caras da igreja, eles estão nas portas de cadeia, nos hospitais, nas praças com as pessoas que estão largadas, com os alcoólatras... Muitas das lideranças dessas igrejas são pessoas que vieram desse ambiente. Então, é meio que a improvisação de um Estado. As igrejas são conservadoras no valor. Mas na demanda concreta, elas são reais porque, do macumbeiro ao crente, todos precisam de uma UPA, precisam de um auxílio emergencial, estão na fila recebendo um marmitex lá em Heliópolis. Tem gente de todo jeito ali. Então, um Brasil de esvaziamento social e desigualdade atinge todos. Como alguns reagem, aí é que muda. E nesse caso, essas igrejas têm cumprido um papel do ponto de vista de cuidar da subjetividade, acolher as pessoas.
 
7 - Mas houve casos de pastores fazendo esforços, mesmo em fases críticas pandemia, para que as igrejas reabrissem, com o argumento de que lá as pessoas estariam seguras. 
Acho que a gente tem que partir agora para uma leitura de por que esses fenômenos acontecem, por que as pessoas se interessam por eles para poder conduzi-las por outra agenda. Porque a gente sabe que é muito prejudicial uma pessoa achar que vai estar dentro de uma igreja e não vai pegar Covid. Isso é totalmente fora de lógica. Mas ao mesmo tempo, acho que a gente, em vez de combatê-las como um todo, devia dialogar com esse imaginário que está equivocado e trazer essa mobilização que já existe para próximo de nós. Porque eu também não quero dizer qual religião você tem que professar. A questão religiosa tem muito a ver com acolhimento, com você procurar uma coletividade, você ficar em seu momento de concentração, de autoconhecimento, em uma conversa sua com o sagrado. Isso não tem a ver com a igreja, tem a ver com você. A gente começa a entender isso e as coisas como amor ao próximo, amar ao outro como a ti mesmo, começam a ser mais praticadas do que faladas. E começa, inclusive, a fazer os irmãos terem uma leitura crítica sobre o que as suas lideranças estão fazendo, que era o que eu fazia na época. Nas igrejas, nos primeiros meses da pandemia, os pastores sumiram. Quatro meses que ninguém veio falar de pastor nenhum, porque pastor só aparecia na igreja para fazer o culto e recolher o dízimo. Isso é legal porque a gente passou a conversar isso com a base, com os irmãos, com os fiéis. Onde estão os pastores?
 
8 - Como surgiu a ideia do programa Mães da Favela, que dá comida e voucher às mulheres da periferia que são mães?
Quando começou a pandemia, naquela ideia da ilustração do naufrágio, em que o afogamento é seletivo, a favela seria a mais sacrificada porque parte dela teria que manter os serviços essenciais, ou seja, estaria na rua. Tanto é que aumentou o número de mortes de gente que trabalha em hospital, em farmácia, cara que pega lixo na rua, entregador de aplicativo, gente que trabalha em posto de gasolina. E aí, (se pensava) "ah, com o isolamento social, fica em casa". A pessoa já era isolada de seus direitos. Quando chegava em casa, tinha cinco, seis, sete, oito pessoas num barraco. Como você vai dizer "fiquem aqui até a pandemia passar"? Sem ter o que comer, sem ter dinheiro, sem ter nada? E dentro desse processo, as mulheres, principalmente as mães solteiras, foram as mais sacrificadas porque, inclusive, os filhos estão fora da escola há um ano. Esses filhos estão com elas em casa. Elas não podem sair para trabalhar. Às vezes tem uma pessoa idosa, acamada ou que precisa de cuidados permanentes dentro daquele lugar. Então essas mulheres, num afogamento geral, não tinham nem uma madeira perto, nem uma boia. E daí nasceu o programa Mães da Favela, com uma amiga lá de Heliópolis, que estava numa situação como essa, na beira do córrego, num barraco, quase dentro d'água. E com ela a gente se inspirou a fazer um programa de atendimento a essas mulheres. E por incrível que pareça, apesar de serem a parte mais vulnerável no impacto da pandemia, quando as ajudas chegam, muitas dessas mulheres passam de atendidas a líderes. E desencadeiam uma série de outras coisas interessantíssimas. Por exemplo, cuidado com as crianças, com os idosos. Dinheiro que fica na própria favela porque ela vai negociar no boteco da esquina, no mercadinho, como é que bota uma conta para depois, uma dívida para depois. Essas mulheres são fundamentais, e a maioria delas está na linha de frente da CUFA. Estamos, inclusive, no mês de julho das pretas. Todos os dias fazendo homenagens às mulheres de linha de frente na favela, da CUFA. Para nós é uma honra e um aprendizado permanente. Porque elas não são uma parte, "ah, a luta das mulheres". Elas são a própria luta.
 
9 - A CUFA vem sendo cada vez mais requisitada para formar parcerias, tanto com o poder público como com a iniciativa privada. Como a entidade conquistou essa credibilidade?
Em campanhas presidenciais, a gente sempre levava os candidatos a presidente para ouvir o que a favela tinha a dizer. Eu lembro que já levamos Alckmin, Dilma, Aécio, Lula, Marina Silva... A gente sempre produziu esses diálogos com os gestores e os poderes instituídos. E eu acho que a reputação vem um pouco daí, de eu chegar para qualquer governador, qualquer partido e não defender o que convém ou o que agrada a eles, mas defender os nossos interesses. Não quer dizer que a gente tem que ser hostil, xingar, maltratar, mas colocar de maneira íntegra, transparente o que nós estamos fazendo. (Precisamos) saber que isso é importante, ter noção do nosso papel neste momento, de que nós não podemos mais ser coadjuvantes do nosso próprio processo. Não adianta pensar coisas para a gente ir a reboque. Nós queremos pensar a concepção, a execução e também fazermos juntos. Não adianta só trazer tudo pronto para a gente.

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