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Entrevista de Domingo

No Dezembro Vermelho, Ricardo Hayden fala sobre prevenção da Aids e ISTs

O médico infectologista foi um dos responsáveis pelo controle da doença na década de 1990

Por Lucas Campos - Redação BS9

05/12/2021 - domingo às 07h00

Ricardo Hayden destaca a importância do tratamento precoce para a melhora do quadro de Aids - (foto: arquivo pessoal)

O mês de Dezembro é marcado no calendário médico como aquele para a conscientização das Infecções Sexualmente Transmissíveis, as ISTs, e da Síndrome da Imunodeficiência Humana, Aids. O Dezembro Vermelho foi instituído por lei no ano de 2017, buscando chamar a atenção para a prevenção, a assistência e a proteção dos direitos das pessoas infectadas com o HIV e outras doenças.
 
A Aids foi descoberta há 40 anos e teve seu pico justamente nessa época. Na cidade de Santos, o médico infectologista Ricardo Leite Hayden, juntamente com outros dois doutores, José Ricardo Moraes Wilmers e Álvaro João Pereira Hilinski foram os responsáveis pelo isolamento da doença à espera do primeiro paciente no Hospital Guilherme Álvaro, que virou referência à época de uma enfermidade considerada nova e que ainda não tinha uma assistência específica.
 
Este paciente zero era um profissional liberal que começou a ter distúrbios de comportamento. Ele era homessexual e tinha mantido relações sexuais desportegidas.Hayden lembra que ele veio transferido de um centro médico de outro município para a cidade, pois era morador de Santos, e chegou no hospital para se internar com um quadro chamado leucoencefalopatia multifocal progressiva (LEMP).
 
A década de 1990 foi o ápice da transmissão global da doença. Hayden lembra de pessoas que ele conhecia e que viajam com frequência para Nova Iorque e Los Angeles, por exemplo, onde a pandemia começou de forma mais intensa, e isso foi se espalhando pelo mundo afora. Alguém viajava, trazia o vírus, passava para outra pessoa, e essa transmissão foi crescendo.
 
Em Santos foi, inclusive, implementado um atendimento com unidades móveis que iam ao Centro Histórico para fazer exames de detecção de doenças sexualmente transmissíveis e realizar a distribuição de preservativos masculinos e femininos, devido aos elevados índices de contaminação. 
 
Hoje, os medicamentos estão cada vez melhores e há um nível de adesão muito alto ao tratamento, com distribuição gratuita do chamado coquetel pelo governo. Além disso, há, segundo o médico, uma detecção de aproximadamente 90% de ISTs, Aids e Hepatites. Inclusive, a adição das hepatites nesse índice de infecções sexualmente transmissíveis aconteceu recentemente, sendo Santos o primeiro município a aderir a esta importante mudança. 
 
Veja a conversa que o Portal BS9 teve com o médico infectologista Ricardo Hayden sobre este delicado e importante assunto.
 
1- Como detectar a Aids? Há algum sintoma específico?
Sim. Costumeiramente, a Aids quando aparece, na verdade, não é a infecção pelo HIV, já é a doença causada pelo vírus.Costuma dar emagrecimento, febre, febrícula repetida, adinamia, perda de peso, fraqueza no corpo, esses são os sintomas mais marcantes. Às vezes há alterações de pele, pintas vermelhas. Tudo dependendo da fase com que se observa o fenômeno ou a pessoa procura um médico. A outra possibilidade de detectar a Aids são pessoas que têm comportamento de risco, sexo desprotegido, se infectar e ter uma Aids aguda, que funciona como uma virose aguda que nem dengue, mononucleose, às vezes até como uma gripe, dependendo da situação, provocando tosse, aparecimento de gambios, adinamia, febre prolongada, mas isso já é uma outra circunstância. É difícil de fazer diagnóstico de Aids aguda. A pessoa precisa ter experiência e tirocínio para, quando conversar com o paciente, saber se ele se expôs a uma situação de risco que poderia tê-lo exposto a contrair uma sífilis ou gonorréia, ou vírus HIV, ou ambas doenças. Então, essas são as manifestações clínicas mais habituais que podem ajudar a direcionar uma busca por diagnóstico de HIV/Aids.
 
2- Qual a importância do diagnóstico precoce da doença?
Quanto mais precoce o diagnóstico, melhor, porque você não dá tempo para o vírus espoliar ou causar uma grande destruição das células matrizes de imunidade que combatem o vírus HIV. Há uma briga intensa entre o HIV que está se proliferando e as células de defesa, com uma destruição progressiva das mesmas. E isto não é inesgotável. À medida que o vírus HIV progride e se multiplica, às vezes depois de uma entrada mais aguda, mais lentamente pelas defesas interpostas pelo próprio organismo, há um período de estabilização clínica inicial que pode levar dois, três e até quatro anos sem grandes manifestações. Neste ínterim, o vírus está se multiplicando, destruindo células matrizes. Há uma queda progressiva delas e, depois, é muito difícil recompor o exército de células, digamos assim, daquele indivíduo. Então quando mais precoce você descobrir, antes começa a tomar os medicamentos, que hoje são introduzidos precocemente. Antigamente, se esperava até as células de defesa baixarem a partir de um ponto de 350 células para baixo, depois descobriu-se que isso era uma bobagem e até mesmo indevido, porque você podia tratar a infecção desde o minuto zero. Hoje os pacientes se saem muito melhor no correr da vida. Eu tenho pacientes com quase 30 anos de tratamento, alguns que passaram dos 30 anos e um grande contingente de pacientes crônicos que hoje estão muito bem graças aos remédios que cada vez foram se aperfeiçoando mais, com menos efeitos colaterais e mais efeitos positivos para controlar o vírus HIV.
 
3- Como é feito esse tratamento medicamentoso da infecção pelo HIV/Aids? E como um paciente pode procurar este tratamento?
Com os antirretrovirais. Vários deles compõem uma conduta preliminar e, por ser a soma de vários remédios, geralmente três, se batizou de coquetel, como se você misturasse uma bebida com outras coisas e montasse um drink. As pesquisas mostraram que começamos o tratamento eficaz a partir do momento que a gente tinha três drogas diferentes para atuar em sítios diferentes da multiplicação do vírus, e remédios que, então, somados entre si causavam um controle muito intenso do vírus, com todos os benefícios advindos. Em Santos, a porta de entrada na saúde pública para algum paciente que descobre uma IST pode ser buscar tratamento no Centro de Referência de IST/AIDS/Hepatites, policlínicas e ambulatórios de triagem ligados a universidades, como Lusíadas e Unimes, que atendem esse segmento. Ou, às vezes, quando o paciente se encontra em uma situação mais grave, através de uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento), que transfere o caso para uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou policlínica, e, dali, para centros de referência. Eu, por exemplo, atuo no ambulatório do Hospital Guilherme Álvaro.
 
4- Qual a melhor maneira de se prevenir contra a doença?
A melhor maneira de se prevenir contra a doença é evitar sexo de risco ou desprotegido. Qualquer modalidade de sexo onde haja transmissão ou compartilhamento de secreções, em especial esperma, seja depositado na boca, no ânus, onde o risco é maior, ou numa vagina, se um dos parceiros que estão ali naquela transa estiver infectado pode passar pro outro ou para a outra mediante a essas várias possibilidades. Sendo que o sexo anal é o que oferece maior risco quando desprotegido sem o uso do preservativo, porque o reto tem muitos vasos sanguíneos e, se o vírus cai ali, depositado no sêmen ou esperma, é absorvido e introduzido para dentro do organismo pelas células de defesa que capturam aquele inimigo que foi depositado ali inavertidamente, ele se interioriza, tipo uma operação cavalo de tróia. A partir daí, o vírus consegue atingir suas células alvo, e se multiplicando ali começa sua história dentro do organismo. Para aqueles que se relacionam com um soropositivo, além da proteção via preservativo, existe uma estratégia chamada PREP (Profilaxia Pré Exposição), na qual o parceiro ou parceira toma um medicamento contra o vírus para evitar uma infecção. E isso leva a possibilidade de transmissão a números muito próximos do zero absoluto. Aqui no Brasil temos o programa PREP Brasil, distribuindo os remédios de graça pelo Ministério da Saúde do Brasil.
 
5- Na década de 90, Santos foi considerada a capital da Aids, muito pelo Porto. Você esteve na linha de frente desse combate aqui na Baixada. Como foi essa época?
Inicialmente, meu trabalho foi no Hospital Guilherme Álvaro, no qual atendemos o primeiro paciente da Baixada, eu, o doutor Wilmers e o doutor Álvaro Hilinski. Eu coordenei o programa de Aids de Santos durante oito anos, nos dois mandatos do prefeito Beto Mansur. Tive a oportunidade de conhecer serviços de tratamento no mundo inteiro, fazer treinamentos, incorporar novas tecnologias a partir do Instituto Nacional de Saúde, como a prevenção da transmissão materno fetal do HIV. Quando assumi o programa, a gente tinha uma média de transmissão anual de cerca de 25 pacientes nascituros ou crianças que nasciam de mães soropositivas e nasciam infectadas com HIV. E com um ano para dois anos de intenso esforço em todas as policlínicas e consultórios médicos, com treinamento e instituindo a profilaxia através de um protocolo internacional desenvolvido pelo Instituto Nacional de Saúde Norte-americano. E depois que esse protocolo foi introduzido aqui em Santos, esses 25 casos caíram para alguns poucos que, às vezes, escapavam da ação. Então, durante oito anos, uma média de 25 a 30 crianças que nasciam deixaram de nascer com Aids. E, obviamente, foi para nós algo muito relevante e emocionante. É algo que eu me orgulho muito. Eu e todas as pessoas que trabalharam na nossa equipe, que envolvia desde a farmacêutica, da psicóloga, da assistente social, dos médicos, todo o pessoal de apoio, do laboratório, desde o porteiro do centro de referência, todos tiveram muita relevância, acolhendo essas pessoas, ajudando, testando as pessoas nas maternidades, foi algo maravilhoso. 
 
6- Qual foi a maior dificuldade neste período?
A dificuldade foi mudar paradigmas, criar a aceitação por parte das pessoas infectadas, aumentar o nível de diagnóstico. A gente passou a testar muito mais no município, porque houve uma ampliação de ofertas de testes pelo Ministério da Saúde, além da ajuda de todos os representantes do governo santista, bem como médicos infectologistas da cidade. Então a dificuldade era manter essa chama acesa, seguir as normas dos programas do Ministério da Saúde, que eram normas também do programa da Organização Mundial de Saúde, e da luta da Unaids (União das Nações Unidas Contra a Aids). Claro que tivemos dificuldades de implantação, afinal, tudo isso tinha custo, mudanças de paradigmas, adoção de protocolos, dos quais as pessoas podem ser resistentes.
 
7- Você acredita que hoje em dia as pessoas estão mais conscientes em relação ao uso do preservativo ou ainda há uma defasagem muito grande?
Existe uma defasagem muito grande com respeito ao uso do preservativo. É uma coisa que se você não insistir, não tiver um programa, não tiver apoio de um assistente social e outros facilitadores como técnicas de enfermagem treinadas, junto com o médico, para oferecer o uso do preservativo e distribuí-los gratuitamente nas UBS e nos Centros de Referência, e estimular o seu uso, cai muito a busca e o uso do mesmo. Ainda existe uma defasagem sim e ela é muito grande.
 
8- O que mudou em relação ao tratamento da Aids com a pandemia de Covid-19?
O acesso se tornou um pouco mais difícil. As pessoas se dispersaram com medo de ir a unidades de saúde e contrair o Covid. Uma série de coisas fizeram com que os pacientes fizessem menos exames e não cuidassem tanto do segmento, o chamado follow up, com respeito ao tratamento da Aids. Vemos isso com os nossos pacientes no consultório particular também, que caiu bastante o movimento, porque as pessoas se retraíram com medo do Covid. E isso vale para outras doenças, como a hipertensão arterial e diabetes. Mas, esperamos que isso seja retomado, com todos os cuidados que o assunto merece. 
 
9- Além da Aids, quais outras doenças e infecções sexualmente transmissíveis ligam o sinal de alerta na região? 
Uma que cresceu exponencialmente e vemos tanto no ambulatório público, nas policlínicas, nos centros de referência e nos consultórios particulares, é a sífilis. Temos, paralelamente, a ocorrência de uma epidemia, não tão silenciosa, pois é uma doença da maior relevância, que pode levar a gravidade se não for tratada na fase inicial ou numa fase secundária. E isso implica que os médicos tenham consciência e façam o rastreamento. Eu não atendo o paciente, seja de qualquer patologia, e deixo de fazer um pedido de exame, porque o paciente às vezes não quer fazer. Mas peço teste de HIV, hepatites em geral, sífilis, herpes, HPV se possível, com alguns exames específicos. Porque tudo isso é muito relevante na saúde geral do indivíduo. Sou clínico geral também, além de infectologista, procuro atender os dois lados da questão, e trabalhar para fazer com que a gente tenha a oportunidade de diagnosticar e tratar essas doenças cedo e adequadamente.

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