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Entrevista de Domingo

Márcio Cabeça fala sobre o desafio de voltar ao trabalho após perder pai e irmão

Cinco meses após a perda dos dois para a Covid-19, ele afirma que a dor não vai passar nunca

Por Adriana Martins - Redação BS9

15/08/2021 - domingo às 07h00

Prefeito de Mongaguá acredita que é cedo para acabar com restrições - (foto: BS9)

O vídeo emocionado do prefeito de Mongaguá, Márcio Melo Gomes, o Márcio Cabeça, ao falar da perda do pai e do irmão para a Covid-19, em um intervalo de seis dias, percorreu o mundo. Foram mais de 1 milhão de visualizações da live que fez no dia 30 de março deste ano para prestar esclarecimentos à população sobre as ações da prefeitura no combate à pandemia. O pronunciamento semanal, ao qual estava habituado, daquela vez culminou no desabafo sobre a sua dor e a de sua família. Quase cinco meses depois do ocorrido, falar sobre eles ainda leva Márcio Cabeça às lágrimas. A cada lembrança, a cada citação do nome deles, a fala é interrompida pelo choro.
 
Na ocasião da live, a cidade de 56 mil habitantes, assim como os demais municípios da região, enfrentava o período mais delicado da doença, com aumento do número de casos, de internações e de mortes. O choro sentido do prefeito do Republicanos foi uma resposta às críticas que recebeu pelas medidas de restrição adotadas na época, o que incluía o fechamento do comércio.
 
“Quero dizer para cada um de vocês o quanto eu queria hoje, com a minha família inteira sendo do comércio, sair dessa live e escutar do meu pai e do meu irmão assim: 'Eu quebrei, o meu comércio quebrou'. Sabe por quê? Porque nós já quebramos, e com a vida nós conseguimos dar a volta por cima", disse.
 
O pai dele, Givaldo Alves Gomes, de 64 anos, que estava internado no Hospital Regional Jorge Rossmann, em Itanhaém, faleceu no dia 22 de março. Já o irmão, Givaldo Melo Gomes Junior, tinha 33 anos. Morreu na Santa Casa de Santos na madrugada do dia 28.
 
Agora, a dois dias de o Estado liberar os eventos sociais, museus e feiras corporativas – desde que não gerem aglomerações e que sigam os protocolos de higiene de distanciamento social e uso de máscara –, sem restrições de horário e de público, Márcio Cabeça mantém o cuidado da época: acha que é cedo para a abertura dessa forma, ainda mais diante da ameaça da variante delta.
 
Nesta entrevista, concedida em seu gabinete na prefeitura, o único da região a ter vista para o mar, ele também comenta o fato de ter sido o prefeito da Baixada Santista com maior percentual de concordância da população com as medidas adotadas para o enfrentamento da pandemia do coronavírus na Pesquisa BS9-Badra, realizada no mês de julho nos nove municípios. Obteve 74,29% de aprovação. “Uma prova de que estávamos certos. Fiquei realmente emocionado com esse reconhecimento”.
 
1- Quais as ações que o senhor acredita que o fizeram ser o prefeito da região com a maior aprovação na pesquisa BS9-Badra no que diz respeito ao combate à Covid-19?
Mesmo politicamente impopular às vezes, adotamos um posicionamento para beneficiar 56 mil moradores, e não meia dúzia. Sempre procurei sentir o momento. Enquanto a coisa não estava grave, liberamos um pouco mais. Mas na hora do agravamento, tivemos que ter um pulso mais forte, sim. Entre as ações, destaco que Mongaguá é a cidade com menor orçamento de toda a região metropolitana e, apesar disso, talvez seja um dos únicos municípios, pelo menos do Litoral Sul, a ter uma UPA com pronto socorro para atender a população em todos os aspectos e outra UPA só para Covid, para evitar riscos de contaminação. Obviamente as despesas dobram, mas essa proteção foi extremamente necessária. Chamar o comerciante para o diálogo também foi importante, fizemos várias reuniões para mostrar que não estávamos contra o comércio, que não estávamos contra ou a favor do governo estadual ou federal, mas que estávamos focados em proteger o cidadão mongaguaense. A gente ficou em um meio termo. Adotamos as ações que achávamos importantes de um ou outro governo e quando tivemos que bater de frente, batemos. A cidade também não tinha tomografia e, na pandemia, a gente implantou o serviço para a detecção da Covid, em junho do ano passado. Logo em seguida, talvez tenhamos sido a primeira cidade do Brasil a iniciar o atendimento das complicações pós-Covid. Pelo menos na região. Eu mesmo tive Covid no ano passado e fiquei com muita falta de ar, até hoje tenho um pouco.

2- Qual o período mais delicado do combate à doença? A cidade chegou a colapsar?
Acredito que tivemos o pior momento de março a abril deste ano, que foi quando tivemos que agir de forma mais dura. A gente já estava preparado para sair da Covid, não só eu, mas todos os prefeitos do Brasil. Em janeiro, fevereiro, parecia que voltaríamos à vida normal, e aí veio aquela pancada daquela onda forte, bem repentina, travando todo sistema de saúde. Por exemplo: dentro da UPA Covid, a gente vinha com quatro, seis pessoas internadas, uma situação controlada.  De março de 2020 a fevereiro de 2021, tivemos 39 óbitos. Mas de fevereiro a maio, pulamos para 90 óbitos. Foi o período mais tenso, tivemos que mexer naquela ferida do comerciante, de ter que fechar de novo, virou uma guerra. A gente passou a gastar, só com oxigênio, três, quatro vezes mais do que gastávamos antes. Esse período foi o mais tenso, durou uns 30, 40 dias. Mesmo assim, graças a Deus, a cidade conseguiu suportar.
 
"Eu tive que viver o pior drama pessoal e familiar da minha vida e saber diferenciar o prefeito do ser humano. A cidade não tem culpa daquilo que aconteceu com meu pai e com meu irmão"


3- Foi justamente o período em que seu pai e seu irmão faleceram.
Nenhum comerciante quer fechar. Falo isso porque já fui comerciante. Todo período foi desgastante, complicado com o comércio, uma luta para as pessoas entenderem a gravidade. Alguns entendiam, outros não, e virava aquela queda de braço. Tivemos que ser duros em um momento muito difícil da minha vida (ele se emociona). É sempre difícil falar sobre isso... Eu tive que viver o pior drama pessoal e familiar da minha vida e saber diferenciar o prefeito (ele volta a chorar) do ser humano. A cidade não tem culpa daquilo que aconteceu com meu pai e com meu irmão. Mas em uma semana eu perdi os dois. E eles estavam em pleno vigor de saúde, meu irmão com 33 e meu pai com 64 anos, e eu tendo que lidar com essa situação. Foi a primeira vez na vida, inclusive, que eu precisei ter um posicionamento, e acabei sendo egoísta.  Meu pai internou no dia 10 e meu irmão, no dia 19 de março. Meu aniversário foi no dia 18, e levei meu irmão no dia seguinte para ser internado. Quando meu pai foi intubado, tentei segurar um pouquinho a informação para o meu irmão. Meu pai estava no Regional em Itanhaém e meu irmão, na Santa Casa de Santos. Mesmo na UTI, ele tinha acesso ao celular. Por isso, quando meu pai morreu, escondi a morte dele de todos, não por esconder que era Covid, mas para não chegar para o meu irmão a informação. A Covid é uma doença que, além de tudo, te destrói mentalmente. Logo quando pega, a pessoa já entra em pânico.   

4- Como segurou a informação?
Eu tinha o hábito de fazer live toda semana. Meu pai morreu na segunda-feira e decidi não fazer, para não chegar para o meu irmão a notícia. Passei para o domingo então. Infelizmente, meu irmão morreu no sábado e fiz a live na terça-feira (ele chora). Dói muito (continua emocionado). Além de ser meu pai, de ser meu irmão, essa é uma doença que destrói as pessoas e tudo o que você tem. Já tomei muita porrada na vida. Mas essa perda que sofri agora destrói de uma forma... Tem que ter muita força. E eu acredito muito em Deus, em Nossa Senhora, acredito muito dentro da minha religião, da minha crença, que é isso que me dá forças para lidar com a situação e entender que, como prefeito, há uma cidade que tem que andar e que não tem culpa. Mas sou humano e, naquela época, eu tinha que fazer a live como prefeito, que era o hábito. Era preciso conscientizar a população, porque o momento era crítico. Havia 27 pessoas na UPA, quando o normal era ter três, quatro. No final da live, vieram duas perguntas maldosas. A primeira: se acabasse o oxigênio, qual seria o plano B? E aí o Márcio, não o prefeito, mas o cidadão que vivenciou o fato de ter um pai com uma máscara de oxigênio, sentiu. E não tem plano B, tem que fazer de tudo para não acabar oxigênio. Aí veio a segunda pergunta relacionada ao comércio, que estávamos fazendo aquilo para quebrar o comerciante. Naquele momento (volta a chorar)... O que eu quis dizer é que meu pai tinha açougue, bar, meu irmão teve comércio, e quebrou umas cinco, seis vezes sem ter Covid. Quantos comerciantes quebraram sem ter Covid? Isso não quer dizer que a gente queria que fechasse o comércio. Muito longe disso. Mas eu falei que eu queria que eles estivessem ali, olhando para mim, e dizendo: ‘Eu quebrei porque você fechou meu comércio’. Eles estariam com vida e, hoje, retomando, como muitos quebraram nesse período e hoje estão retomando pela oportunidade, graças a Deus, de estarem vivos.
 
5- As pessoas, por empatia, passaram a apoiar suas decisões a partir daquele momento?
Costumo dizer que respeito todas as religiões e crenças, mas acredito muito na minha, a que eu sigo. Sou católico apostólico romano, tenho tio padre, duas tias freiras, cresci dentro de tudo isso. Fui coroinha de igreja, tenho todo um histórico em torno desse posicionamento. Conversando com meu tio, que é padre, ele me disse: ‘Deixa Deus te usar. Você está sofrendo, a nossa família está sofrendo. Talvez essa sua fala seja para que outras pessoas mudem de opinião, seja para alertá-las’. O que eu quero dizer é que foi um momento que Deus usou, não fui eu, Márcio. Todos os dias que eu levanto peço isso, para que Deus me use como um instrumento dele, para fazer a vontade dele, e não a minha. Porque nós somos falhos. E aprendi isso da maneira mais dura. Nós estamos aqui de passagem. Aquela fala (da live) foi para fora do País. O vídeo foi visto por mais de 1 milhão de pessoas. Eu ouvi agradecimentos. E os recebi sabendo que foi Deus. Não era minha intenção. Eu tinha a intenção de falar para o comerciante, para o povo de Mongaguá, que eu não tive a sorte que muitos tiveram. Perdi meu pai e meu irmão. Mas a fala acabou ajudando outras pessoas. Sendo egoísta agora, queria que nada disso tivesse acontecido, que minha mensagem não tivesse chegado a 1 milhão de pessoas, e que meu pai e meu irmão estivessem aqui. Isso seria o mais importante para mim. E não tomei a decisão (em relação ao comércio) pela morte deles. Minhas atitudes já eram duras antes. Mas usaram isso contra mim, e isso machuca ainda mais.
 

"Meu pai sempre foi meu herói, meu ídolo. Ele me ensinou, desde os meus 9 anos, o que é trabalhar. Nessa idade, eu já ia para o comércio"


6- Como era a relação de vocês?
Era muito linda, muito sadia. Meu pai sempre foi meu herói, meu ídolo (se emociona de novo). Ele me ensinou, desde os meus 9 anos, o que é trabalhar. Nessa idade, eu já ia para o comércio. Aos 12, assumi os açougues, com mais de 20 funcionários. A gente tinha uma ligação muito forte. E o que mais me encantava no meu pai é que ele tinha a primeira série, apenas aprendeu a ler e a escrever, vindo de uma região de muita fome, Nossa Senhora das Dores, um vilarejo do Sergipe. Ele veio para cá com a missão de trazer os 13 irmãos, junto com minha avó e meu avô. Com toda a simplicidade dele, graças a Deus conseguiu ser vereador por três mandatos, ser comerciante. Quebrou, como eu falei, mas se reergueu, montou uma pousadinha em Peruíbe, estava seguindo a vida dele lá. Meu irmão passou por momentos muito difíceis, caminhando até pelo lado torto, mas conseguiu se reerguer, focar, era meu braço direto. Nessa última eleição, ele foi fundamental, tocou comitê, fez a coisa andar...
 

7- Após a perda de seu pai e do seu irmão, como foi continuar à frente da prefeitura?
Nos primeiros dias, mesmo sendo muito religioso, desmontei, principalmente após a morte de meu irmão. Você sai do eixo. O primeiro mês foi uma batalha muito grande, porque não dava vontade de levantar da cama. Mas consegui – acredito muito nisso – porque Deus novamente intercedeu, e tanto meu pai quanto meu irmão vão interceder por mim lá no céu, eles não querem me ver jogar a toalha. Ao contrário, eu tenho que servir, cada vez mais, de orgulho não só para eles como para as filhas do meu irmão, uma menina de 13 anos e uma de 5 meses, além dos meus filhos, claro. E meu irmão estava curtindo tanto isso (ele se emociona novamente). Como meu pai, que me deixou uma irmãzinha de 12 anos... Tudo isso foi motivo para eu buscar forças onde achava que não existia mais e é o que me dá forças para acordar e pensar: tenho que ir lá e ser o melhor que eu puder, para que eu possa, aqui na Terra, deixar um legado, deixar a marca deles. É isso que tenho buscado para diferenciar o Márcio que sofre todos os dias e acorda de madrugada chorando, com saudade. As pessoas falam para mim: só o tempo vai curar. Mas acho que é uma dor que nunca vai passar.


8- De que forma o senhor pretende deixar a marca deles?
No último dia 3, que seria o aniversário do meu irmão, eu e minha família demos abertura a um instituto que leva o nome dele. Minha sobrinha de 13 anos lembrou do aniversário do pai dias antes (Márcio Cabeça chora novamente) e naquela hora pensei que precisava fazer alguma coisa, para lembrarmos de uma forma diferente dessa data e, a partir da nossa dor, ajudarmos as pessoas. A ideia do instituto é atender crianças e famílias em vulnerabilidade, que era o que o meu irmão já fazia, sem aparecer. Até dezembro queremos fazer o cadastro delas. A proposta é oferecer aulas de inglês, informática, caratê, judô... E devemos estabelecer a sede em um bairro carente, como a Vila Operária, Jussara ou Areião. O intuito é tirar a criança da rua, é dar uma oportunidade, uma vida melhor.
 

9- Como o senhor avalia o atual o momento da pandemia e as ações do Governo do Estado, com o fim das restrições previsto para o próximo dia 17?
Acho que temos um bom motivo para comemorar, mas acho também que o Estado está se movimentando de forma política. É muito cedo para voltar tudo ao normal. O brasileiro tem uma cultura difícil: quando você fala que está tudo liberado, prontamente acha que está tudo certo, que está tudo bem. E o grande receio que eu tenho, mais uma vez, é que nós sofremos muito para chegarmos a esse estágio para corrermos o risco de retroceder novamente. A gente sabe que o pessoal não aguenta mais, que a pressão é forte, mas acredito que deveríamos esperar mais dois meses, voltar gradativamente. É importante ver um estádio cheio? Eu estou louco para voltar ao Morumbi, porque sou são-paulino roxo, mas antes disso a gente precisa ter toda a certeza possível de que vamos voltar bem, e não contaminar inúmeras pessoas. Tem a variante delta chegando, a hora é de cautela, mas enfim... Sabemos que é preciso retomar a vida, seguir adiante, mas ainda com o maior cuidado.

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