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Entrevista de Domingo

Laboratório móvel agiliza resultado dos testes PCR na Baixada Santista

Médico Antônio Jorge Martins espera identificar se há variantes circulando na região

Por Lucas Campos - Redação BS9

05/09/2021 - domingo às 07h00

Resultado de exames dos nove municípios estarão disponíveis em 24 horas - (foto: BS9)

O laboratório móvel do Instituto Butantan está estacionado no meio da Praça Mauá, no centro de Santos, tem despertado a curiosidade de quem passa pelo local. Pudera. Técnicos trabalham com roupas e máscaras especiais dentro de um contêiner com janelas de vidro, chamando a atenção de quem passa por ali. 

Em tempos de pandemia da Covid-19, o Lab móvel, como é popularmente chamado, torna-se ainda mais necessário com o risco do surgimento de novas variantes, como é o caso da delta. 

Segundo dados da Prefeitura de Santos divulgados neste sábado, dia 4, houve um aumento de 15% no número de pessoas internadas com a doença na rede de saúde, de 106 para 122. Dessas, 70 são da cidade (57,3%) e 52 (42,7%) de outros municípios.
 
Antônio Jorge Martins, médico e coordenador de serviços de saúde de São Paulo, que atua no grupo de alerta das variantes de Covid-19 do Butantan, esteve na Praça Mauá no início da semana e contou, em entrevista ao Portal BS9, que o Ministério da Saúde segue fazendo diversos estudos de sequenciamento do coronavírus e da forma como o vírus responde as vacinas.

1- Qual a expectativa do Butantan com esse laboratório móvel?
O Laboratório Móvel do Butantan foi pensado e criado para ajudar as regiões do estado de São Paulo a terem mais agilidade no resultado dos testes PCR. Exames dos nove municípios entrarão aqui e em 24 horas sairá o resultado. Hoje, a média gira em torno de três a quatro dias. Vamos baixar para um dia. Além de fazer o PCR dentro do contêiner e já mandar o resultado on-line para o município, o laboratório fará o sequenciamento genético do vírus. Então vamos conseguir identificar se as variantes que circulam em toda a Baixada são alfa, beta, gama ou delta.

2- O laboratório vai funcionar até quando em Santos?
Vai ficar na Baixada, inicialmente, até o dia 10 de setembro. Vamos analisar todas as amostras que conseguirmos para tentar identificar como o vírus está se comportando na região e tentar ajudar as autoridades a traçar estratégias para conter o avanço de variantes já conhecidas e de novas que podem vir a surgir.

3- Quantas cepas foram descobertas até agora desde o início da pandemia?
Na rede de sequenciamento do Butantan, nós já coletamos mais de 19 mil amostras e achamos, até agora, 32 variantes. Algumas variantes de importância clínica, ou seja, que podem piorar a pandemia, e outras não. Essas sem impacto tiveram mudança genética, mas isso não manifestou em nada na saúde da população. 

4- O senhor acha que a cidade de Santos, por conta do porto, tem alguma característica que possa contribuir para o surgimento e alastramento de uma nova cepa?
O laboratório móvel começou a funcionar há três semanas. O primeiro local de atuação foi no Vale do Paraíba, em Aparecida, e conseguimos uma quantidade importante de amostras. Lá, a nossa preocupação inicial foi a rota Rio-São Paulo, em que já tinha a delta predominando no Rio. A nossa pergunta era: ela vai vir pela estrada? Em Santos, precisamos descobrir exatamente isso, se o porto é importante, se a rota Rio-Santos, pela estrada, é importante, e o que está acontecendo com a variante delta aqui na região.

5- Qual o papel do Butantan no combate ao coronavírus?
O Butantan, desde que começou a pandemia, foi determinado pelo governo do estado a fazer a rede de laboratórios PCR. Toda a rede pública do estado de São Paulo é coordenada pelo Butantan. Não é o Butantan que faz todas as amostras, mas ele coordena a rede estadual. No Estado, nós temos nove laboratórios distribuídos que fazem mapeamento por região e o Butantan também faz lá na sede. Fora a rede de PCR, nós também temos a parte da vacina, com a Coronavac, e os estudos com a Butanvac. Quando a gente consegue identificar as variantes do vírus, uma das funções é poder ajudar a Fiocruz, Pfizer e Coronavac a saber se essas vacinas estão neutralizando o vírus. Então é uma ação conjunta, que também tem a função de verificar a eficácia da vacina. 
 
6- O senhor atuou na descoberta da variante sul-africana, que surgiu em Sorocaba, interior de São Paulo. Como essa variante se comportou até agora?
De todas que nós tivemos, a variante T1, que é a gama, que surgiu em Manaus, se sobrepôs a todas as variantes até agora. Tanto à britânica, alfa, quanto à sul-africana. Nos locais com a presença dessas duas, a gama entrou e se sobrepôs, ou seja, ambas sumiram. A delta está conseguindo parear com a de Manaus, ou seja, ela está conseguindo entrar, porém, e felizmente, a vacinação já está avançada e os sintomas clínicos que estamos encontrando no Brasil estão bem menores dos que os encontrados nos Estados Unidos e na Europa.

7- Quais os riscos da variante delta para a população?
Na realidade, todas as variantes podem manifestar sintomas clínicos. Quando ela surgiu na Índia, a população do país tinha uma taxa de vacinação menor do que 50%. Então, causou um número de óbitos muito grande. Ela foi para a Europa e para os Estados Unidos. Chegando no Brasil, ela pegou uma realidade felizmente nova. Grande parte da população já está, pelo menos, com uma dose. E é uma das coisas que mais reforçamos, que é justamente a importância de as pessoas tomarem a segunda dose. Porque todos os trabalhos mostraram que as vacinas diminuem, e muito, o risco em relação a qualquer uma das variantes, não importa o fabricante. Não impede, necessariamente, que a pessoa possa contrair a doença, mas a manifestação é bem mais leve. A chance de não ter uma internação, ou uma fatalidade, é muito menor.

8- Alguma variante, incluindo a delta, já colocou a vacinação em xeque?
O que se observa é que, na Europa, em Israel e em outros locais do mundo, a vacinação está sendo revista por conta da delta. No Brasil, nós estamos tendo esse trabalho de observar como as vacinas estão conseguindo agir. Não há trabalhos muito claros dizendo que a delta, que é o que preocupa mais neste momento, seja uma variante que a vacina não consiga combater. O que estamos discutindo é a carga de resposta das pessoas à vacina, que é o trabalho que o Ministério da Saúde está fazendo com as pessoas de idade mais avançada.
 
9- No estado de São Paulo, até o final de dezembro é obrigatório o uso de máscaras. O senhor acredita que em 2022 já será liberado?
A pandemia, para nós, tem criado cada dia um desafio. A gente sai um dia, volta para casa e o telefone toca, porque o vírus mudou de comportamento. Descobrir o que pode acontecer é puro achismo. Então, o dia a dia e a evolução irão mostrar como devemos proceder. Não podemos dizer, precipitadamente, que irá cair o uso de máscaras. Até porque vimos, em diversas partes do mundo que, quem decidiu não usar máscaras, houve um retrocesso no controle do número de casos e, consequentemente, aumento no número de mortes.  Então, temos que aprender com os outros e entender a nossa realidade.

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