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Entrevista de Domingo

Ivo Miguel Evangelista comenta sobre a importância do Dia da Consciência Negra

Data é um marco importante na luta pela igualdade racial no País

Por Lucas Campos - Redação BS9

21/11/2021 - domingo às 07h00

Ivo acredita que devemos comemorar efusivamente a data, que é alusiva a Zumbi dos Palmares - (fotos: arquivo pessoal)

Historicamente, o dia 13 de maio era tomado referência de celebração do povo negro no Brasil. Isso porque é a data que marca a assinatura da Lei Áurea, em 1888. Assinada pela Princesa Isabel, foi a responsável por acabar com a escravidão no País. Porém, na década de 1970 iniciou-se uma discussão que só foi solucionada 50 anos depois.
 
Um grupo de jovens negros de Porto Alegre questionaram a aquisição desta como a data mais importante para seus antepassados e, após pesquisas, sugeriram que o dia 20 de novembro, dia da morte de Zumbi dos Palmares seria muito mais significativo. Afinal, ele é o maior símbolo da luta dos ex-escravizados por liberdade. Porém, foi só em 2017 que o Dia da Consciência Negra foi efetivado.
 
A partir de um projeto de lei do senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), o dia de Zumbi dos Palmares se transformou em feriado nacional e um marco da busca pela igualdade racial. Porém, essa luta vai muito além de se estabelecer uma data que faça jus a toda essa importante batalha. A desigualdade entre as etnias é enorme, e se evidencia nos medidores sociais do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Estatística (IBGE).
 
Dados do estudo Desigualdades Sociais por Cor e Raça no Brasil, divulgado em 2019, pretos ou pardos somavam 64,2% da população desocupada e 66,1% da população subutilizada; tinham rendimento médio pouco superior à metade do que recebem os brancos; e quase 2,7 vezes mais chances de serem vítimas de homicídio intencional do que uma pessoa branca. E isso levando em consideração que, segundo o IBGE, 56% do total de brasileiros são negros.
 
Segundo Agência Senado, depois de árdua luta do movimento negro e a aprovação pelo Senado em 2003, o Dia da Consciência Negra entrou no calendário escolar a partir da sanção da Lei 10.639, de 2003, que obriga o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas. Oito anos depois, a então presidente Dilma Rousseff oficializou a data como Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra. Mas, mesmo assim, o 20 de novembro só é feriado em locais com leis municipais ou estaduais específicas. 
 
O Estado de São Paulo é um deles e, para celebrar a data, o Portal BS9 entrevistou Ivo Miguel Evangelista dos Santos, Coordenador de Igualdade Racial e Étnica do Conselho Municipal de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra e da Igualdade Racial de Santos desde 2017. 
 
A coordenadoria, que surgiu após um movimento forte do Conselho da Comunidade Negra de Santos, segundo mais antigo do Estado de São Paulo, atua na frequente busca pela implementação de políticas públicas e afirmativas que são de suma importância para a Comunidade Negra. Confira a entrevista:
 
1- Você considera importante a comemoração do Dia da Consciência Negra?
Acho de suma importância. Afinal, devemos comemorar efusivamente a data alusiva a esse grande símbolo de luta e resistência que foi o Zumbi dos Palmares.
 
2- Muitas pessoas se incomodam com esta data. O que você pode dizer sobre as pessoas se sentirem ofendidas com esse dia?
Nós pretos é que temos que nos ofender por nossos ancestrais terem sido retirados da mãe África à revelia e por termos sido escravizados. Depois libertos e jogados à deriva. Esses fatores por si só justificam esse dia.
 
3- Como você enxerga a evolução do respeito à essa data desde quando ela foi criada?
Vejo muito mais conscientização pelo povo negro. Esta data é um chamamento de luta e resistência!
 
4- Recentemente, tivemos diversos casos marcantes de violência contra negros, como a morte de George Floyd nos EUA, que desencadeou o movimento "Vidas Negras Importam". Como você enxerga esses movimentos?
Necessários a partir da violência que campeia contra o negro. Tanto no Brasil como nos Estados Unidos. Esse tipo de movimento que envolve um grande número de pessoas nos une e fortalece.
 
5- Como você descreveria o racismo?
É a anulação de uma etnia em função da outra. Ele graça de forma endêmica no âmbito da sociedade.
 
6- Você já sofreu algum tipo de violência por ser negro?
Várias! Ainda hoje me deparo com algumas quando corro e passo em uma área mais nobre da praia de Santos. Me deparo no calçadão com mulheres que, ao sentirem a minha presença, se agarram veementemente à suas bolsas como se eu fosse assaltá-las. Branco correndo é atleta. Preto correndo é ladrão!
 
7- O que você acha que falta para atingirmos uma igualdade racial?
Com certeza seria os pretos estarem de fato e de direito em pé de igualdade em todos os matizes da Sociedade.
 
8- Acredita que algum dia o racismo deixará de acontecer?
Eu tenho fé que sim!
 
9- Qual mensagem final você deixa para a sociedade refletir acerca do tema?
Que toda à população negra deste país esteja um dia de fato e de direito em todas as esferas da sociedade! Nós também ajudamos a construir este país!

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